{"id":5779,"date":"2018-12-31T06:00:22","date_gmt":"2018-12-31T09:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5779"},"modified":"2019-07-30T11:49:45","modified_gmt":"2019-07-30T14:49:45","slug":"tudo-e-poesia-ana-hatherly","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2018\/12\/31\/tudo-e-poesia-ana-hatherly\/","title":{"rendered":"Tudo \u00e9 Poesia: Ana Hatherly"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Juliana Guedes*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sabe quando voc\u00ea olha para um ideograma japon\u00eas, n\u00e3o sabe o que ele significa e fica imaginando que palavra seria aquela? Ent\u00e3o, a poesia visual da escritora portuguesa Ana Hatherly carrega esta sensa\u00e7\u00e3o. Chegamos a perceber alguma frase nos arabescos da poetisa, esprememos os olhos, mas n\u00e3o deciframos nada, nenhuma palavra sequer, a n\u00e3o ser o desenho formado pelos rabiscos. As formas s\u00e3o ondulantes, parecem pequenos parafusos alongados e \u00e9 exatamente isso que nos chama a aten\u00e7\u00e3o, o movimento. A p\u00e1gina po\u00e9tica est\u00e1 manchada por tra\u00e7os ileg\u00edveis, algumas inclusive s\u00e3o todas escuras, sem letras e, ao mesmo tempo, tentamos na visualidade do movimento e das manchas uma leitura poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/gulbenkian.pt\/museu\/artist\/ana-hatherly\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ana Hatherly<\/a><\/strong> esteve vinculada ao experimentalismo internacional da d\u00e9cada de 1960, participou do grupo da revista portuguesa \u201cPoesia Experimental\u201d e explorou a plasticidade da escrita de forma \u00fanica, aproximando letra e desenho, numa perspectiva \u201corientalizante\u201d da vis\u00e3o, abandonando a discursividade po\u00e9tica. Em outras palavras, sabemos que um dos fundamentos da escrita liter\u00e1ria \u00e9 o discurso e a autora, assim como os irm\u00e3os Campos, aqui do Brasil, fundadores do movimento concretista, n\u00e3o viam a necessidade de palavras compridas ou frases longas para se criar poemas. Ressaltamos que na d\u00e9cada de 1950, antes do grupo experimentalista, Hatherly j\u00e1 tinha publicado tr\u00eas livros de poesia e uma novela. N\u00e3o obstante, a autora ainda escreveu em estilos diversificados, tais como: o poema-ensaio e a micro-narrativa.<\/p>\n<div id=\"attachment_5780\" style=\"width: 359px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5780\" class=\"size-full wp-image-5780\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/12\/ana-hatherly.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"500\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/12\/ana-hatherly.jpg 349w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/12\/ana-hatherly-300x430.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/12\/ana-hatherly-120x172.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><p id=\"caption-attachment-5780\" class=\"wp-caption-text\">Ana Hatherly<\/p><\/div>\n<p>Hatherly produziu cinema, foi pintora e estudou m\u00fasica. Na antologia denominada \u201cA idade da escrita e outros poemas\u201d, de 2005, percebemos poemas extensos, em prosa, expressando perdas, o sentir do dia, fen\u00f4menos, mist\u00e9rios, etc. Sem falar nas alografias que perturbam qualquer seguran\u00e7a vinda da linguagem. A escrita \u00e9 deslizante e espacializada na p\u00e1gina. A voz po\u00e9tica, por exemplo, coloca a concha do mar no ouvido e tenta traduzir o som: \u201c[&#8230;] aquele ru\u00eddo dentro do labirinto de um b\u00fazio, \u00e9 o susto incompreens\u00edvel\u201d (p. 25). A representa\u00e7\u00e3o visual da escrita, t\u00e3o not\u00f3ria, nas obras da escritora lusitana, fazia parte do esp\u00edrito art\u00edstico da autora, que buscava todas as formas de comunica\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do registro ordin\u00e1rio da escrita ou da fala: \u201cPara\u00edso acidental\/ met\u00f3dico exerc\u00edcio\/ a m\u00e1scara da palavra\/ colou-se-nos ao rosto: agora \u00e9\/ o nosso mais vital artif\u00edcio\u201d (p. 63).<\/p>\n<p>As influ\u00eancias da autora percebidas durante a leitura foram: \u00e0s artes po\u00e9ticas barrocas, \u00e0s artes po\u00e9ticas modernas, o concretismo, Cam\u00f5es, Fernando Pessoa e Rilke. Em entrevista, Hatherly afirma ser imposs\u00edvel redescobrir novas formas de escrita, sem um olhar para o passado. Ningu\u00e9m cria a partir do nada e por ela vir de uma cultura portuguesa bem tradicional, o peso da tradi\u00e7\u00e3o acabou por resultar na revolu\u00e7\u00e3o da linguagem experimental. Ela foi uma estudiosa apaixonada do barroco.<\/p>\n<p>Os caligramas, os paradoxos, as entidades po\u00e9ticas, o maneirismo, a geometria, as figuras mitol\u00f3gicas, as pequenas f\u00e1bulas po\u00e9ticas, a metalinguagem po\u00e9tica criam a \u201cperformance\u201d l\u00edrica de Ana Hatherly: \u201cescrevo e descrevo\/ e descrevendo\/ o tempo insere-se nas linhas\/ e nas entrelinhas em que escrevo\/ escrevendo imagens\/ que a si mesmas se descrevem\/ descrevendo o tempo\u201d (p. 59).<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>* Juliana Guedes ensina literatura desde 2012. Atualmente, faz curso de doutorado em literatura comparada pela Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). Escreve poemas, alguns publicados em colet\u00e2neas e revistas. Gosta de museus, pinturas e m\u00fasicas cl\u00e1ssicas. Ela assina, mensalmente, a coluna Tudo \u00e9 Poesia, no blog Leituras da Bel, falando sobre poesia portuguesa moderna e contempor\u00e2nea, feita por mulheres.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"LIVROS DE POESIA S\u00c3O REALMENTE DIF\u00cdCEIS DE VENDER? | EPIS\u00d3DIO 06 - Letras&amp;Livros\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x1s4iuM7kCo?start=348&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Guedes* Sabe quando voc\u00ea olha para um ideograma japon\u00eas, n\u00e3o sabe o que ele significa e fica imaginando que palavra seria aquela? 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