{"id":5825,"date":"2019-01-25T06:00:19","date_gmt":"2019-01-25T09:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5825"},"modified":"2019-07-02T12:21:33","modified_gmt":"2019-07-02T15:21:33","slug":"leia-o-texto-uma-lembranca-de-ariano-suassuana-do-escritor-bruno-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2019\/01\/25\/leia-o-texto-uma-lembranca-de-ariano-suassuana-do-escritor-bruno-paulino\/","title":{"rendered":"Leia o texto &#8220;Uma lembran\u00e7a de Ariano Suassuana&#8221;, do escritor Bruno Paulino"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Bruno Paulino*<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_5826\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5826\" class=\"size-full wp-image-5826\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/01\/morre-ariano-suassuna.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"273\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/01\/morre-ariano-suassuna.jpg 450w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/01\/morre-ariano-suassuna-300x182.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/01\/morre-ariano-suassuna-120x73.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-5826\" class=\"wp-caption-text\">Ariano Suassuna (Foto: DEIVYSON TEIXEIRA\/ O POVO)<\/p><\/div>\n<p>Um dia eu conheci o escritor <strong>Ariano<\/strong> <strong>Suassuna<\/strong> e conversei com ele. N\u00e3o foi por muito tempo, mas valeu o papo. Foi quando o vate visitou Quixeramobim no final do ano da gra\u00e7a de 2011. Fico pensando hoje que poderia ter tirado uma foto para registrar aquele momento. Mas ele estava t\u00e3o emocionado por adentrar a casa em que nasceu Ant\u00f4nio Conselheiro que respeitosamente hesitei. Acho que fui tamb\u00e9m tomado por aquele sentimento cat\u00e1rtico.<\/p>\n<p>Suassuna lacrimejava em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Depois ele comentou com todo mundo que ali o rodeava que o livro Os Sert\u00f5es foi um componente fundamental de sua forma\u00e7\u00e3o intelectual. Que foi lendo Euclides da Cunha que se deparou pela primeira vez num livro com a gente simples e a paisagem que conhecia. E que aquela saga de Ant\u00f4nio Conselheiro e sua gente &#8211; que teve in\u00edcio ali naquela casa &#8211; era tamb\u00e9m a hist\u00f3ria dele. Era a hist\u00f3ria de todo o sert\u00e3o. Era um Brasil que n\u00e3o se conhecia. Era o Brasil Real. N\u00e3o o Brasil Oficial. Imposs\u00edvel n\u00e3o se emocionar com depoimento t\u00e3o vivo e espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Recordo que ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna discursou: \u201cEuclides da Cunha, mesmo ofuscado, ao se ver diante do povo brasileiro real, p\u00f4de tomar seu lado \u2013 e o grande livro que \u00e9 Os Sert\u00f5es resultou do choque experimentado ante aquele Brasil brutal, mas verdadeiro, que ele via pela primeira vez em Canudos e que amou com seu sangue e seu cora\u00e7\u00e3o, se bem que nunca o tenha compreendido inteiramente com sua cabe\u00e7a, meio deformada pela falsa ci\u00eancia europ\u00e9ia que o Brasil venerava, e ainda venera, como dogma.\u201d<\/p>\n<p>Apaixonado pela saga do beato Ant\u00f4nio Conselheiro, Ariano dedicou-lhe o Romance d\u2019A Pedra do Reino e o Pr\u00edncipe do Sangue do Vai-e-Volta e andava pelos v\u00e1rios cantos do pa\u00eds com a rel\u00edquia de um cartucho de bala em seu bolso, artefato que foi encontrado nos arredores do dizimado arraial de Belo Monte, e que gentilmente um morador da atual cidade de Canudos na Bahia lhe presenteou. O escritor exibia a c\u00e1psula durante suas palestras e falava das medonhas disparidades entre o Brasil Real e o Brasil Oficial, citando e explorando o pensamento antes desenvolvido por Machado de Assis. Dizia que bastava estudar sobre Canudos para entender toda hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cEm Canudos, a bandeira dos seguidores de Ant\u00f4nio Conselheiro era a do Divino Esp\u00edrito Santo \u2013 a bandeira do nosso povo, pobre, negro, \u00edndio, e mesti\u00e7o. Povo que o Brasil Oficial, o dos brancos e poderosos, mais uma vez (e como j\u00e1 se sucedera em Palmares e no Contestado), iria esmagar e sufocar, confrontando-se ali, no caso, duas vis\u00f5es opostas de justi\u00e7a\u201d, escreveu certa vez Suassuna ao inaugurar no Recife um teatro que nominou de Arraial em homenagem aos seguidores do Beato nascido em Quixeramobim.<\/p>\n<p>Nem sei por qual motivo hoje dei para lembrar esse dia. Por\u00e9m, nunca esquecerei uma frase que disse pessoalmente a mim quando tive a oportunidade de trocar algumas palavras com ele: &#8220;Tenho muita inveja de voc\u00ea rapaz que nasceu nessa terra que pariu um dos maiores revolucion\u00e1rios que esse mundo conheceu que foi o bom peregrino Ant\u00f4nio Conselheiro. Cuide com seus amigos para que essa hist\u00f3ria n\u00e3o caia no esquecimento por aqui.&#8221;.<br \/>\nDisse isso me deixando atordoado e sem saber o que responder naquele momento.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><br \/>\n<strong>Bruno Paulino \u00e9 cronista e aprendiz de poeta.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3KGjfLo9fxb7jhk93g32Iy?si=DO8C3zk4SzqUrSxvqqlf1w<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Paulino* Um dia eu conheci o escritor Ariano Suassuna e conversei com ele. N\u00e3o foi por muito tempo, mas valeu o papo. 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