{"id":5965,"date":"2019-04-05T06:00:01","date_gmt":"2019-04-05T09:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=5965"},"modified":"2019-07-02T11:24:52","modified_gmt":"2019-07-02T14:24:52","slug":"leia-o-texto-o-sertao-de-marica-lessa-do-escritor-cearense-bruno-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2019\/04\/05\/leia-o-texto-o-sertao-de-marica-lessa-do-escritor-cearense-bruno-paulino\/","title":{"rendered":"Leia o texto &#8220;O Sert\u00e3o de Marica Lessa&#8221;, do escritor cearense Bruno Paulino"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Bruno Paulino*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>\u201cO sert\u00e3o \u00e9 o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar \u00e0 beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado n\u00e3o indaga do crime, tira o chap\u00e9u e passa.\u201d (Euclides da Cunha, Os Sert\u00f5es)<\/em><\/p>\n<p>Quando era crian\u00e7a meu av\u00f4 Luis Paulino foi quem primeiro me contou sobre \u201ca hist\u00f3ria da mulher que mandou matar o marido\u201d como ficou conhecida no imagin\u00e1rio dos rinc\u00f5es de Quixeramobim a trag\u00e9dia greco-sertaneja ocorrida em 1853 envolvendo a matriarca e eterna personagem do sert\u00e3o Maria Francisca de Paula Lessa e seu marido o cel. Victor de Abreu Vasconcelos. O coronel fora assinado em seu lar, pelo escravo Corumb\u00e9, supostamente a mando de Marica Lessa.<\/p>\n<p>O v\u00f4 Luis trabalhou muitos anos na fazenda Canaf\u00edstula \u2013 palco principal da trag\u00e9dia \u2013 no tempo de Dami\u00e3o Carneiro, o bandeirante do sert\u00e3o, como o definiu Armando Falc\u00e3o em livreto escrito sobre o fazendeiro. Naquela \u00e9poca que vov\u00f4 trabalhou por l\u00e1 \u2013 d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo XX \u2013 a hist\u00f3ria de Marica Lessa, antiga dona daquelas terras ainda estava fresca na mem\u00f3ria de muita gente que morava por ali. Ele acabou guardando muitas delas, e eu tive a sorte de ouvi-lo contar. Hoje quase ningu\u00e9m se lembra dessas hist\u00f3rias na regi\u00e3o, da casa-grande de Marica n\u00e3o resta mais uma parede sequer em p\u00e9, por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel encontrar muitas porcelanas nos escombros, o que demonstra qu\u00e3o rica de fato, ela era. Do tempo de Marica Lessa na Canaf\u00edstula Velha resta apenas \u00e0 capelinha da Sagrada Fam\u00edlia (Jesus, Maria e Jos\u00e9), onde ainda se reza missa pelo menos uma vez no m\u00eas.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria que vov\u00f4 contava era que quando Marica Lessa foi presa na fazenda, ap\u00f3s preso Corumb\u00e9 e ele acus\u00e1-la de ser a mandante do crime \u2013 vinha ela escoltada para a vila por um enorme cortejo de homens, na altura de uns seis quil\u00f4metros da Canaf\u00edstula mandou que parasse numa casa e pediu que o morador, que era seu agregado passasse um caf\u00e9, que ela estava indo resolver um mal-entendido e na volta passaria por l\u00e1 para tomarem o caf\u00e9 juntos. Marica Lessa nunca mais voltou \u00e0 Canaf\u00edstula.<\/p>\n<p>Propriet\u00e1ria de uma imensid\u00e3o de terras e de grandes rebanhos de gado, al\u00e9m de teres e haveres de ouro e prata, a matriarca sertaneja despertou a inveja de seus inimigos e a cobi\u00e7a de alguns membros da justi\u00e7a. Ao ser acusada do crime, Marica Lessa, uma mulher rica e mandona, numa sociedade patriarcal do s\u00e9culo XIX, ficou \u00e0 merc\u00ea de seus desafetos. Aos poucos, foi se desfazendo dos seus bens, vendidos a pre\u00e7o de banana para cobrir as despesas com o processo do qual nunca pode se livrar.<\/p>\n<p>Depois que o v\u00f4 Luis me contou a hist\u00f3ria da mulher que mandou matar o marido eu fiquei curioso para saber mais sobre o assunto. Logo passei a perguntar aos adultos sobre aquela hist\u00f3ria. Descobri que tinha se escrito um livro sobre a trama, mas naquela idade n\u00e3o atinei para ler o romance Dona Guidinha do Po\u00e7o, do escritor cearense Oliveira Paiva. S\u00f3 depois na faculdade \u00e9 que fui l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Em 1889, atacado pela crise da tuberculose e em busca de um clima que lhe fosse mais apraz\u00edvel Oliveira Paiva pousou em Quixeramobim, a\u00ed teve contato com a hist\u00f3ria de Marica Lessa atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o oral e da consulta dos documentos cartoriais do caso, e resolveu escrever o romance, que s\u00f3 veio a ser publicado na integra em 1952, atrav\u00e9s do esfor\u00e7o da cr\u00edtica liter\u00e1ria L\u00facia Miguel Pereira, que recebeu um original das m\u00e3os do escritor Am\u00e9rico Fac\u00f3, que por sua vez os tinha recebido de Ant\u00f4nio Sales, a hist\u00f3ria da publica\u00e7\u00e3o do romance como se v\u00ea, d\u00e1 outro livro.<\/p>\n<p>O historiador Ismael Pordeus, natural de Quixeramobim, trouxe a luz em 1961, o festejado estudo \u00c0 margem de Dona Guidinha do Po\u00e7o: hist\u00f3ria romanceada, hist\u00f3ria documentada, em que comprovava que a fic\u00e7\u00e3o de Oliveira Paiva teria sido inspirada no caso real de Marica Lessa. Desse modo os nomes Marica Lessa e Guidinha do Po\u00e7o s\u00e3o hoje indissoci\u00e1veis na mem\u00f3ria social de Quixeramobim, num entrela\u00e7amento perfeito entre fic\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria, embora n\u00e3o esque\u00e7amos o alerta do escritor Milan Kundera: o romance n\u00e3o tem compromisso com a realidade.<\/p>\n<p>Nesse sentido outra lenda que muito se divulgou e que ainda hoje encontra eco foi que Marica Lessa teria mandado construir \u2013 destinando a maior parte dos recursos \u2013 o pr\u00e9dio de C\u00e2mara e Cadeia e teria sido ela a primeira prisioneira do recinto. Esse fato \u00e9 refutado por quase todos os historiadores que consultei, mas lembro de vov\u00f4 me cont\u00e1-lo como verdade absoluta.<\/p>\n<p>De certo \u00e9 fato que Marica Lessa foi \u00e0 madrinha de Batismo de Ant\u00f4nio Vicente Mendes Maciel, o Ant\u00f4nio Conselheiro. Muitos historiadores sustentam que quando ela foi presa, Ant\u00f4nio teria testemunhado todo acontecimento e que certamente aquelas cenas deram-lhe um entendimento de como funcionava a justi\u00e7a, muitos cr\u00eaem que Marica foi vitima de uma intriga pol\u00edtica e pelo fato de ser mulher. Ismael Pordeus afirma ainda no seu estudo que o \u201ccrime\u201d de Marica Lessa teve como pena 20 anos de reclus\u00e3o, mas segundo Gustavo Barroso ela ficou muito mais tempo presa e morreu na mis\u00e9ria aos 85 anos nas ruas de Fortaleza, \u201csemi-louca\u201d a bradar reiteradamente: \u2013 Deus \u00e9 testemunha que n\u00e3o mandei matar ningu\u00e9m!<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Paulino \u00e9 cronista e aprendiz de poeta.<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3KGjfLo9fxb7jhk93g32Iy?si=DO8C3zk4SzqUrSxvqqlf1w<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Paulino* \u201cO sert\u00e3o \u00e9 o homizio. 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