{"id":6047,"date":"2019-04-29T06:00:12","date_gmt":"2019-04-29T09:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=6047"},"modified":"2019-04-28T15:31:39","modified_gmt":"2019-04-28T18:31:39","slug":"leia-o-texto-o-menino-da-escritora-cearense-kah-dantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2019\/04\/29\/leia-o-texto-o-menino-da-escritora-cearense-kah-dantas\/","title":{"rendered":"Leia o texto &#8220;O Menino&#8221;, da escritora cearense Kah Dantas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Kah Dantas*<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_6048\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6048\" class=\"size-large wp-image-6048\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas-740x987.jpeg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"987\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas-740x987.jpeg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas-300x400.jpeg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas-120x160.jpeg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/04\/kah-dantas.jpeg 774w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-6048\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de N\u00edlbio Th\u00e9<\/p><\/div>\n<p>O menino era igualzinho \u00e0quele amor perdido no ano anterior.<\/p>\n<p>Menos perdido do que afastado, \u00e9 necess\u00e1rio esclarecer, conta do mal e do sofrimento que representou. E para deixar tudo ainda mais penoso, somava-se \u00e0 assombrosa semelhan\u00e7a f\u00edsica o fato de que a crian\u00e7a era, perd\u00e3o ao Deus no c\u00e9u, perd\u00e3o ao Deus na terra, um grande estorvo na sala de aula com quase trinta crian\u00e7as e mais tr\u00eas diagnosticadas com outras s\u00edndromes e transtornos.<\/p>\n<p>Virava cadeiras, arremessava pe\u00e7as de lego nas outras crian\u00e7as, beliscava os meninos menores, mastigava papel\u00e3o, chutava e socava os arm\u00e1rios e puxava com for\u00e7a os cabelos das meninas quando elas estavam distra\u00eddas. Esta sala \u00e9 o meu cora\u00e7\u00e3o, refletia a mulher desolada.<\/p>\n<p>E o menino magricela, igualzinho, igualzinho, do nariz grande \u00e0 boca pequena, e do topo de seus olhos castanhos escuros e perscrutadores, era um lembrete sagrado, nas tardes de segunda-feira, daquilo que foi, daquilo que n\u00e3o foi e do que poderia ter sido.<\/p>\n<p>Absoluta desgra\u00e7a. At\u00e9 no jeito vi\u00e7oso de o cabelo liso cair sobre a testa branca e sobre um dos olhos, o menino imitava o homem.<\/p>\n<p>E a peste ainda era metida \u00e0 carinhosa. \u00d4, tia, eu te amo, e voc\u00ea?, dizia e perguntava, procurando abra\u00e7o. E ela sorria um amarelo nervoso, meio fugindo, meio rezando, como quem exorciza um esp\u00edrito maligno.<\/p>\n<p>De jeito nenhum cooperavam o destino e a programa\u00e7\u00e3o escolar para fazer cumprir o esquecimento necess\u00e1rio ao conserto integral das dores do cora\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que isso havia no mundo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que aconteceu, depois de dois meses de intensa agonia cerebral que, inevitavelmente, n\u00e3o se restringia ao espa\u00e7o dentro dos muros da escola rural, que o menino foi transferido para outra unidade, uma que atendesse melhor as suas necessidades.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou, naturalmente, para que a vaga fosse reocupada por outra crian\u00e7a. A mulher n\u00e3o era religiosa, mas, assim que avistou o menininho novo no corredor, benzeu-se agradecida e fechou os olhos um segundo, muito aliviada. Era gorducho, moreno e de cabelos cacheados, uma belezinha de crian\u00e7a e muito educada, tinham lhe adiantado.<\/p>\n<p>Abriu bem os bra\u00e7os, pronta para acolher o novo aluno com todo o amor que n\u00e3o tinha conseguido dar ao outro. Mas as narinas se anteciparam aos bra\u00e7os e o corpo da mulher murchou de imediato.<\/p>\n<p>Puta que pariu, ela pensou, sentindo-se tra\u00edda pela provid\u00eancia. O perfume. O perfume era igualzinho ao do amor perdido no ano anterior.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Kah Dantas<\/strong> \u00e9 cearense, professora e escritora. \u00c9 autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos liter\u00e1rios nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.<br \/>\nContatos:<br \/>\nInstagram: @contakah<br \/>\nTumblr: <strong><a href=\"https:\/\/contakah.tumblr.com\/\">https:\/\/contakah.tumblr.com\/<\/a><\/strong><br \/>\nBlog: Orgasmo Santo<\/p>\n<p><strong>N\u00edlbio Th\u00e9<\/strong> \u00e9 ilustrador formado na primeira turma de artes pl\u00e1sticas do IFCE. Tamb\u00e9m \u00e9 professor universit\u00e1rio, arteducador, escritor, roteirista e dramaturgo. Instagram: @mamilosestranhos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Kah Dantas* O menino era igualzinho \u00e0quele amor perdido no ano anterior. 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