{"id":622,"date":"2017-02-14T14:17:40","date_gmt":"2017-02-14T17:17:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=622"},"modified":"2017-02-14T14:17:40","modified_gmt":"2017-02-14T17:17:40","slug":"veja-entrevista-exclusiva-com-a-escritora-arcelina-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/02\/14\/veja-entrevista-exclusiva-com-a-escritora-arcelina-dias\/","title":{"rendered":"Leituras da Bel Entrevista:  Arcelina Dias"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_623\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-623\" class=\"size-large wp-image-623\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/02\/IMGM9212-624x416.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"367\" \/><p id=\"caption-attachment-623\" class=\"wp-caption-text\">Arcelina Dias, escritora, fala sobre o lan\u00e7amento do livro Mem\u00f3ria de Liberta\u00e7\u00e3o. (Foto: Mateus Dantas \/ O POVO)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #808080\"><em><strong>Por Ana Mary C. Cavalcante (anamary@opovo.com.br)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><em><strong>Mem\u00f3ria e Liberta\u00e7\u00e3o, novo livro da escritora Arcelina Dias, ser\u00e1 lan\u00e7ado em Fortaleza, hoje (14). A hist\u00f3ria da luta por terra, na Prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, une-se a uma s\u00e9rie de narrativas sobre os exclu\u00eddos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><!--more-->Em 1999, a jornalista paulista <span style=\"color: #ff0000\"><strong>Arcelina Helena Publio Dias<\/strong><\/span>, 74 anos, se aposentou e iniciou uma peregrina\u00e7\u00e3o pelo mundo, que contaria 500 dias com os exclu\u00eddos. Pouco tempo antes, ela havia perdido o filho \u00fanico e se mudava de Bras\u00edlia para o Mosteiro da Anuncia\u00e7\u00e3o do Senhor, em Goi\u00e1s. Precisava refazer caminhos, religar sentidos. A espiritualidade foi iluminando a si mesma, de dentro para fora, ao mesmo tempo em que lhe levava ao encontro com as dores e as alegrias dos mais pobres.<\/p>\n<p>Assim, dia ap\u00f3s dia, a escritora soma as narrativas da exclus\u00e3o em uma s\u00e9rie de <strong>livros<\/strong> sobre mis\u00e9rias e lutas &#8211; da \u00c1frica \u00e0 China, passando pelas Am\u00e9ricas. <span style=\"color: #ff6600\"><em><strong>Mem\u00f3ria e Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong> <\/em><\/span>(Editora Ave-Maria), que Arcelina lan\u00e7a, nesta ter\u00e7a-feira, 14, em Fortaleza, \u00e9 parte dessa trajet\u00f3ria. O <strong>livro<\/strong> conta a luta dos habitantes da Prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia pela posse da terra durante a ditadura militar. A hist\u00f3ria \u00e9 conduzida pelos 12 murais do padre e pintor espanhol Cerezo Barredo, pintados entre 1977 e 2001 e tombados em 2004, que figuram nas igrejas de sete munic\u00edpios da Prelazia.<\/p>\n<p>No lan\u00e7amento em Fortaleza, <span style=\"color: #ff0000\"><strong>Arcelina Dias<\/strong><\/span> volta a percorrer mem\u00f3ria e liberta\u00e7\u00e3o desse povo, em uma palestra. Nesta entrevista ao<strong><span style=\"color: #cc99ff\"> Leituras da Bel<\/span><\/strong>, conduzida pela jornalista<strong> Ana Mary C. Cavalcante<\/strong>, a escritora embarca em uma nova travessia pelos caminhos que vem palmilhando h\u00e1 quase 20 anos.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel \u2013<\/span><\/strong> <strong>Peregrinar significa chegar a algum lugar? A senhora que chegar onde?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000\">Arcelina \u2013<\/span><\/strong> Peregrina\u00e7\u00e3o, como a gente entende no Brasil, \u00e9 ir a um lugar de espiritualidade, seja em um templo budista, seja Juazeiro do Norte, seja Nossa Senhora Aparecida&#8230; Onde aconteceram milagres, uma express\u00e3o grande da viv\u00eancia espiritual. E Jesus falou: ondem est\u00e3o os pobres, a\u00ed estou no meio deles. A gente esquece um pouco a vis\u00e3o do pr\u00f3prio Cristo, que se fez pobre. Eu vou procurar essas pessoas.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel \u2013<\/span> Em suas peregrina\u00e7\u00f5es, a senhora tem se hospedado em casas de fam\u00edlias simples e que desenvolvem trabalhos solid\u00e1rios. Que bens a senhora tem encontrado em um mundo t\u00e3o conturbado? O que ainda h\u00e1 de humanidade no homem?<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #ff0000\"><strong>Arcelina \u2013<\/strong><\/span> (pausa) Muitas hist\u00f3rias. (pausa) Por exemplo, na \u00c1frica, numa favela que era a maior de Nairob \u2013 e as favelas da \u00c1frica, se comparadas as do Brasil, s\u00e3o anos-luz mais pobres, mais carentes, mais tudo. Mas s\u00e3o habitadas por humanos. E eu fiquei com padres combonianos que moravam na mesma situa\u00e7\u00e3o. Tinha um banheiro para cada 17 fam\u00edlias: um buraco no ch\u00e3o, com uma tela em volta, onde faziam coc\u00f4 e xixi. N\u00e3o tinha sistema de encana\u00e7\u00e3o. Na favela, s\u00e3o pessoas que vieram, principalmente, da ro\u00e7a pra ganhar dinheiro na cidade e viviam aquela mis\u00e9ria. Ent\u00e3o, estou l\u00e1 com os padres, passando alguns dias e vou falar uma situa\u00e7\u00e3o bonita, humana. Eu sempre tinha moedinhas, balinhas no bolso porque l\u00e1 \u00e9 muita, muita crian\u00e7a. E, quando elas viam branco, falavam: \u201cMoney, money!\u201d. Um dia, eu j\u00e1 tinha dado todas as balinhas e veio uma crian\u00e7a. Boto a m\u00e3o no bolso, acho uma. Chamei o menorzinho deles e dei para ele. Ele deu pro mais velho. O mais velho abriu a balinha, botou em cima duma pedra, picou a balinha e deu um pedacinho pra cada um.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel \u2013<\/span><\/strong>\u00a0<strong>Em um encontro, trazemos o outro conosco. Hoje, aos 74 anos, a senhora \u00e9 feita de quem?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000\">Arcelina \u2013<\/span><\/strong> (pausa) Acho que sou feita da minha experi\u00eancia de vida. Todos somos feitos do que a gente viveu, do que acreditou, sofreu, riu. A vida \u00e9 bela, n\u00e9, por pior que seja.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #cc99ff\">Leituras da Bel \u2013<\/span><\/strong> <strong>A senhora diz que a vida \u00e9 bela e conta sua vida sorrindo. Contar a vida, depois de certo tempo, \u00e9 tamb\u00e9m redimi-la. Qual o maior perd\u00e3o que a senhora deu para sua vida? Qual o maior perd\u00e3o dado para si mesma?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #ff0000\">Arcelina \u2013<\/span><\/strong> (pausa e suspiro) Primeiro, perdoei a mim mesma pela vida e morte do meu filho. Isso era muito importante pra mim: perdoar a mim mesma. Porque, por mais que voc\u00ea tenha feito tudo, carrega uma culpa, voc\u00ea perder um filho com 20 anos&#8230; N\u00e3o sei se a morte dele teve algu\u00e9m mais envolvido, com certeza, teve os traficantes de drogas. Para mim, est\u00e3o perdoados. N\u00e3o que eu os ame, quero que eles acabem, mas conseguiria falar com esses caras que est\u00e3o presos como seres humanos, trataria eles como seres humanos. Hoje, trabalho na ch\u00e1cara de recupera\u00e7\u00e3o (de dependentes qu\u00edmicos), dou aulas de yoga. E tudo isso \u00e9 um trabalho de perd\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\n<strong>Mem\u00f3ria e Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2013 o livro da jornalista aposentada Arcelina Dias ser\u00e1 lan\u00e7ado nesta ter\u00e7a-feira, 14, em Fortaleza, no Audit\u00f3rio Centiser (rua Carlos Vasconcelos, 2602, Joaquim T\u00e1vora). Inscri\u00e7\u00f5es para a palestra: alimentos n\u00e3o perec\u00edveis. Informa\u00e7\u00f5es: 3246.9627.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Mary C. Cavalcante (anamary@opovo.com.br) Mem\u00f3ria e Liberta\u00e7\u00e3o, novo livro da escritora Arcelina Dias, ser\u00e1 lan\u00e7ado em Fortaleza, hoje (14). 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