{"id":6934,"date":"2019-09-12T14:19:27","date_gmt":"2019-09-12T17:19:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=6934"},"modified":"2019-09-12T14:32:11","modified_gmt":"2019-09-12T17:32:11","slug":"leia-uma-caixa-para-elisa-texto-da-escritora-marilia-lovatel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2019\/09\/12\/leia-uma-caixa-para-elisa-texto-da-escritora-marilia-lovatel\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Uma caixa para Elisa&#8221;, texto da escritora Mar\u00edlia Lovatel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Uma caixa para Elisa<\/strong><br \/>\nMar\u00edlia Lovatel<\/p>\n<div id=\"attachment_6940\" style=\"width: 699px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6940\" class=\"size-large wp-image-6940\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/zeqbaloes-marilia-lovatel-740x1099.jpg\" alt=\"\" width=\"689\" height=\"1024\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/zeqbaloes-marilia-lovatel-740x1099.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/zeqbaloes-marilia-lovatel-300x446.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/zeqbaloes-marilia-lovatel-768x1141.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/zeqbaloes-marilia-lovatel-120x178.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 689px) 100vw, 689px\" \/><p id=\"caption-attachment-6940\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Ezequiel<\/p><\/div>\n<p>A primeira foi uma caixinha de m\u00fasica. A menina na ponta dos p\u00e9s, as m\u00e3os prendendo o corpo na mesa de jantar, a linha dos olhos colada ao tampo de madeira, para ver a bailarina girando ao tom l\u00e1 menor de F\u00fcr Elise. O nome da composi\u00e7\u00e3o de Beethoven gravado em uma plaqueta de metal dourado. Naquele instante, nasceu o interesse, o gosto, o hobby, o tra\u00e7o de personalidade que a distinguia. Os amigos se acostumaram a presente\u00e1-la assim. Os motivos variavam. Os presentes n\u00e3o. Algumas eram eleitas por serem belas, outras porque eram diferentes, outras porque, simplesmente, ao ver uma caixa, era imposs\u00edvel n\u00e3o se lembrar dela. F\u00e1cil agradar Elisa. Dif\u00edcil era encontrar lugar em sua casa para tantas caixas. De todos os tamanhos e tipos. De papel, de madeira, de vidro, de lou\u00e7a, de pedra-sab\u00e3o, de ferro, de pl\u00e1stico, revestidas com tecido, entalhadas, pintadas, recortadas, trabalhadas com rendas, incrustadas de strass, falsas p\u00e9rolas, esmeraldas, ametistas, top\u00e1zios, rubis igualmente ilus\u00f3rios, carregadas de detalhes, simples, s\u00f3brias, requintadas, repetidas. Quando perguntada sobre o excesso, ela explicava, aprazia-lhe imaginar o que guardaria em cada uma, como iria preench\u00ea-las. Mas, se ela o fizesse, de t\u00e3o numerosas, poderiam mais esconder do que organizar os guardados. E ainda que listasse tudo em um cat\u00e1logo, consumindo muito de seu tempo, precisaria antes decidir o que guardar em cada uma das caixas, para, em seguida, produzir um volume sem garantia de consulta, grosso e in\u00fatil como uma lista telef\u00f4nica nos dias atuais. N\u00e3o precisava que tivessem serventia. Elisa apreciava a comodidade do n\u00e3o pensar, saboreava o conforto das possibilidades da v\u00e9spera de uma decis\u00e3o adiada. Assim, as caixas permaneceram vazias, enquanto Elisa crescia. At\u00e9 o dia em que, chegando da terapia, trouxe a revela\u00e7\u00e3o, os olhos acesos, a ideia queimando debaixo dos cabelos, a necessidade de superar o comportamento compulsivo, o transtorno diagnosticado que ela alimentava, pois tamb\u00e9m se presenteava. N\u00e3o havia um retorno \u00e0 sua casa sem uma nova aquisi\u00e7\u00e3o, realizada na voltinha despretensiosa ao shopping, durante o intervalo de almo\u00e7o, ou sob os apelos para que a funcion\u00e1ria a atendesse, mesmo \u00e0quela hora, com a loja j\u00e1 fechada, porque n\u00e3o resistira ao modelo exposto na vitrine. H\u00e1 muito se tornara um problema sem que ela percebesse. As pessoas foram se cansando, se afastando, desaparecendo. Elisa precisava tratar o dist\u00farbio psicol\u00f3gico. Recuperar sua vida, a fam\u00edlia, os amigos perdidos para as caixas. Fique apenas com aquelas que conseguir preencher, o conselho, a ordem, o ultimato. Prometera que era capaz de vencer o desafio de doar todas as caixas in\u00fateis. Come\u00e7ou organizando as poucas joias herdadas da m\u00e3e e da av\u00f3 que escaparam das negocia\u00e7\u00f5es, das trocas por caixas raras de marfim ou de prata. Depois, distribuiu as bijuterias, as maquiagens, os len\u00e7os, os bot\u00f5es, as agulhas, os alfinetes e tubos de linha, guardou os sabonetes, os sais de banho, as velas, os enfeites de Natal, as m\u00e1scaras e os adere\u00e7os de Carnaval, os l\u00e1pis, os pinc\u00e9is, os intactos potes de tinta comprados na tentativa de distrair a mente com algo novo, pedras coloridas, marcadores de livros, rem\u00e9dios, chocolates, sach\u00eas de ch\u00e1, miniaturas, chaves velhas e chaveiros avulsos, moleskines, vidros de esmaltes, CDs, ferramentas, b\u00fazios, rolhas, broches, botons, \u00e1lbuns, cart\u00f5es manuscritos com mensagens carinhosas e suas pontas de durex despregadas, com resqu\u00edcios do papel das embalagens de nenhuma surpresa para a felicidade certa, fitas de cetim, rel\u00f3gios, lingerie, \u00edm\u00e3s de geladeira, tampinhas, \u00f3culos escuros, cinzeiros \u2014 ela que n\u00e3o fumava \u2014, cintos, gravatas (gravatas!). A esta altura j\u00e1 trapaceava, comprando coisas de que n\u00e3o precisava, que jamais usaria, desde que coubessem em uma caixa. Cuecas, pi\u00f5es, abotoaduras, revistinhas com m\u00fasicas cifradas, palhetas para o viol\u00e3o que nunca tocou. Fez estoque de cotonetes, grampeadores, serras de unha, cera para depila\u00e7\u00e3o, absorventes \u00edntimos, filtro para coar caf\u00e9, porque, nunca se sabe, podem faltar no com\u00e9rcio. Contudo, mesmo no auge do transe de encontrar com o que rechear sua preciosa cole\u00e7\u00e3o, manteve-se fiel ao crit\u00e9rio, ao princ\u00edpio b\u00e1sico que rege aquilo que \u00e9 ou n\u00e3o poss\u00edvel guardar em caixas. Ou seja, itens mi\u00fados e pertencentes a um mesmo g\u00eanero, esp\u00e9cie, natureza. Em busca de uma bijuteria, procura-se na caixa das bijuterias. Se a urg\u00eancia \u00e9 por um rem\u00e9dio, o procedimento \u00e9 o mesmo de recorrer \u00e0 caixa correspondente. Assim acontece nos mais distintos lares. E, quando n\u00e3o havia mais conte\u00fado para tanto continente, guardou caixas dentro de caixas. At\u00e9 o dia inevit\u00e1vel da constata\u00e7\u00e3o: preenchera nem metade do que precisava para honrar o compromisso. Derrotada, fechou-se em herm\u00e9tica tristeza. Dentro de sua casa. Dentro dela mesma. Definhou. Sufocou em uma vida sem tampa para abrir. Sem la\u00e7o, sem ornamentos. Sentiu no peito o vazio de todas as caixas. Nada restabeleceu o seu \u00e2nimo. At\u00e9 a ideia escaldante esfriar sob o cabelo, permitindo o pensamento fresco que lhe devolveu a alegria e a fez sorrir. Abriria m\u00e3o de bem mais do que uma parte. Estava pronta para uma decis\u00e3o inteira, embalada para presente, ao som de acordes em tom l\u00e1 menor. Que lhe restitu\u00edsse a leveza da bailarina. A sensa\u00e7\u00e3o da primeira caixa. Quando a vida era uma inc\u00f3gnita suave. Aquela caixa musical e l\u00fadica seria tamb\u00e9m a primeira a ser doada. E ela sabia exatamente quem a receberia como um pequeno tesouro. Quem, desde a inf\u00e2ncia, a desejara e, \u00e0s escondidas, punha a bailarina a rodopiar. A express\u00e3o blas\u00e9e no porta-retratos n\u00e3o disfar\u00e7ava a aprova\u00e7\u00e3o do pai. Trouxe o presente para a filha no dia em que fora escolhido o funcion\u00e1rio do ano. Elisa at\u00e9 enxergou no reflexo do vidro emoldurado um princ\u00edpio de sorriso mudando o rosto indiferente. \u00a0Um \u00fanico ajuste era necess\u00e1rio. Nada que uma serrinha de metal n\u00e3o resolvesse. Assim, a \u00faltima letra da plaqueta dourada foi raspada. F\u00fcr Elis. Seria o seu presente para Elis, a irm\u00e3 mais nova. No momento certo, a ca\u00e7ula entenderia aquela interven\u00e7\u00e3o e o seu significado. Depois, usou a mesma serrinha pontiaguda para mostrar que era capaz de surpreender o terapeuta, escolhendo uma, uma somente a preencher, que substitu\u00edsse todas as outras, que trouxesse de volta a fam\u00edlia, os amigos, todos juntos, ao seu redor, os olhares a buscar os pulsos dilacerados, escondidos sob as flores tristes, as l\u00e1grimas a lamentar a derradeira caixa, em que coube tudo que a distinguia, e que era perfeitamente adequada, na justa medida da necessidade de Elisa.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Lovatel<\/strong><br \/>\nMar\u00edlia Lovatel cursou letras na Uece e \u00e9 mestre em literatura pela UFC. \u00c9 professora da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Escrita Liter\u00e1ria no Centro Universit\u00e1rio Farias Brito. No intervalo de 6 anos publicou 10 livros infanto-juvenis, t\u00edtulos apresentados por Rachel de Queiroz, Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, Ana Miranda, Ant\u00f4nio Torres e Socorro Acioli. Em 2019, lan\u00e7ou um livro de poemas e aforismos em parceria com Marcelo Peloggio. Duas vezes integrou o Cat\u00e1logo de Bolonha e foi finalista do Pr\u00eamio Jabuti 2017.<\/p>\n<p><strong>Ezequiel<\/strong><br \/>\nEzequiel foi criado por uma fam\u00edlia matriarcal. No seio de mulheres fortes e independentes se viu incentivado para diferentes linguagens art\u00edsticas. Se entende como desenhista desde 2015, quando ilustrou o livro <strong>Cuidado! \u00c9 fr\u00e1gil?<\/strong> da poeta T\u00e2nia Castro (sua m\u00e3e). Cursa o ensino m\u00e9dio e, aos 16 anos, est\u00e1 mais disposto do que nunca a seguir como artista.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"8 LEITURAS PARA ENTENDER A LITERATURA DE FANTASIA | EPIS\u00d3DIO 01 - Letras&amp;Livros\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0hvLBHSF_MA?start=3&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma caixa para Elisa Mar\u00edlia Lovatel A primeira foi uma caixinha de m\u00fasica. 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