{"id":7013,"date":"2019-10-11T06:00:37","date_gmt":"2019-10-11T09:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=7013"},"modified":"2019-09-21T15:01:02","modified_gmt":"2019-09-21T18:01:02","slug":"leia-entrevista-com-a-escritora-brasileira-maria-valeria-rezende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2019\/10\/11\/leia-entrevista-com-a-escritora-brasileira-maria-valeria-rezende\/","title":{"rendered":"Leia entrevista com a escritora brasileira Maria Val\u00e9ria Rezende"},"content":{"rendered":"<p>Ela enxerga por um buraco de fechadura. As dificuldades com a vis\u00e3o fazem Maria Val\u00e9ria Rezende, escritora brasileira nascida em 1942, em Santos, litoral de S\u00e3o Paulo, ler apenas nos suportes digitais. Ela diz que j\u00e1 habitava o mundo antes de existir a Penicilina ou da Bomba de Hiroshima ter sido detonada. Adaptou-se, ent\u00e3o a todas as transforma\u00e7\u00f5es, conheceu muitos continentes, falou muitos idiomas, usou a internet antes de muitos. Autora de livros com Vasto Mundo e O voo da Guar\u00e1 Vermelha, ela conquistou leitores e seguidores desde quando come\u00e7ou a publicar fic\u00e7\u00e3o, em 2001. J\u00e1 contabilizava 60 anos de idade e possu\u00eda consolidado trabalho no campo da educa\u00e7\u00e3o popular. Ao O POVO, em entrevista realizada durante a XIII Bienal Internacional do Livro do Cear\u00e1, ela falou sobre essas e outras quest\u00f5es. &#8220;A impress\u00e3o que eu tinha, quando era crian\u00e7a, era de que em certa idade todo mundo escreve um livro&#8221;, diz Maria Val\u00e9ria.<\/p>\n<div id=\"attachment_7014\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7014\" class=\"size-large wp-image-7014\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende-740x494.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"494\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende-740x494.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende-120x80.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2019\/09\/maria-val\u00e9ria-rezende.jpg 1024w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-7014\" class=\"wp-caption-text\">Maria Val\u00e9ria Rezende<\/p><\/div>\n<h2>Entrevista com Maria Val\u00e9ria Rezende<\/h2>\n<h3><strong>Leituras da Bel -A senhora j\u00e1 recebeu muitas honrarias &#8211; incluindo o Pr\u00eamio Jabuti e o Pr\u00eamio Casa de Las Am\u00e9ricas. Pensa nisso quando est\u00e1 escrevendo?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o penso nisso. Eu penso s\u00f3 \u201cquem ser\u00e1 que vai ler isso?\u201d. Desde a primeira linha, eu estou dialogando com algu\u00e9m. E muitas vezes j\u00e1 me perguntaram quem \u00e9 o meu leitor imaginaram. \u00c9 o meu personagem. Pessoas sobre aquelas que eu estou escrevendo. Isso \u00e9 o que me importa. Recebo todo dia mensagem, pelo Facebook, de algu\u00e9m que leu espontaneamente e quer falar sobre o livro. Isso para mim \u00e9 mais importante do que os pr\u00eamios. Os pr\u00eamios acho que \u00e9 uma sorte. Se mudar uma pessoa no j\u00fari, muda o resultado.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe fita m\u00e9trica para medir a qualidade liter\u00e1ria. Hoje com a liberdade de estilo que se t\u00eam, a variedade de coisas que se produz, muito maior do que parece. Todo dia levo o susto de descobrir um novo escritor e uma nova escritora. \u00c0s vezes, novo para mim, pois j\u00e1 est\u00e1 publicando faz tempo, mas \u00e9 de outra regi\u00e3o e n\u00e3o tem a veicula\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada a n\u00edvel nacional. Eu acho que os pr\u00eamios acontecem, por acaso. Um dos meus livros que \u00e9 mais lido, mais comentado, que tenho mais penetra\u00e7\u00e3o entre os leitores \u00e9 O Voo da Guar\u00e1 Vermelha &#8211; que nunca foi premiado. Mais do que os meus livros premiados! \u00c9 sorte. Claro que fico contente ao receber o pr\u00eamio, pois vai me conquistar mais alguns leitores. Quando eu escrevo n\u00e3o estou pensando em ganhar pr\u00eamio. Ali\u00e1s, quando comecei a escrever nem tinha tanto pr\u00eamio.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; E a senhora come\u00e7ou a publicar fic\u00e7\u00e3o aos 60 anos&#8230;<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Minhas publica\u00e7\u00f5es de fic\u00e7\u00e3o, pois eu j\u00e1 havia escrito e publicado muita coisa antes no campo da hist\u00f3ria e da educa\u00e7\u00e3o popular. Eu sempre escrevi. N\u00e3o \u00e9 que comecei a escrever com 60 anos. Eu comecei a publicar fic\u00e7\u00e3o. E mesmo escrever fic\u00e7\u00e3o era um divertimento. Eu nasci em fam\u00edlias que tinham escritores, tanto do lado do meu pai quanto do lado da minha m\u00e3e. Escrever livro parecia uma coisa normal que iria acontecer na vida de todo mundo. A impress\u00e3o que eu tinha, quando era crian\u00e7a, era de que em certa idade todo mundo escreve um livro. Eu j\u00e1 fazia meus livrinhos. Toda a vida, escrevi. Mas n\u00e3o fiz disso profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Me dediquei \u00e0 educa\u00e7\u00e3o popular, que tamb\u00e9m implicava em escrever o tempo todo. Mas eu escrevia cordel para poder trabalhar com o pessoal. Tive que aprender e me entranhei pelo sert\u00e3o. J\u00e1 dizia que dia de feira n\u00e3o era para marcar reuni\u00e3o, pois passava o dia inteirinho atr\u00e1s dos cantadores e dos cordelistas &#8211; at\u00e9 aquilo entrar na gente. E voc\u00ea depois, sente. Tanto que o meu pr\u00f3prio livro O Voo da Guar\u00e1 Vermelha \u00e9 todo em ritmo de cordel. N\u00e3o tem rima necessariamente. Mas aquilo se tornou natural. Pois no fundo corresponde tamb\u00e9m \u00e0 respira\u00e7\u00e3o da gente. Eu sempre escrevo pensando: \u201cquero que os meus personagens possam ler e se encontrar\u201d. E como s\u00f3 escrevo sobre personagens populares e pessoas que existem. Nunca escrevo sobre uma pessoa determinada que se transforma em personagem. S\u00e3o s\u00ednteses de v\u00e1rias pessoas que encontrei, convivi e convivo.<\/p>\n<p><strong>Leituras da Bel &#8211; Falando sobre seu movimento de vinda para o Nordeste&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Foi um pouco mais comprido esse movimento. Sai de Santos e fui para S\u00e3o Paulo, para estudar. A\u00ed fui para o Rio de Janeiro. Fiquei viajando pelo Brasil inteiro durante tr\u00eas ou quatro anos. A\u00ed voltei para S\u00e3o Paulo e passei dez anos. Em certa altura tive que sair de S\u00e3o Paulo. Era em plena Ditadura Militar, 1971 e 1972. Fui para a Europa, pois a minha congrega\u00e7\u00e3o me chamou e me levou. Eu n\u00e3o quis ficar. Quis voltar. Fiz uma volta ao mundo para chegar aqui. Fui para os Estados Unidos, para o M\u00e9xico. E no fim de 1972 acabei chegando aqui no Nordeste.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; E a senhora se considera nordestina?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Absolutamente. Eu vivi mais da metade da minha vida em Pernambuco e na Para\u00edba. E pelo Nordeste todo. Depois, a gente criou uma escola de forma\u00e7\u00e3o para educadores populares. Eu vivia percorrendo do Maranh\u00e3o \u00e0 Bahia, para l\u00e1 e para c\u00e1, v\u00e1rios anos. \u00c9 a minha terra. E Santos \u00e9 mais parecido com o Nordeste do que S\u00e3o Paulo ou qualquer outra coisa. \u00c9 \u00e0 beira mar. Muita gente do mundo inteiro vive l\u00e1.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; A senhora se incomoda com a identifica\u00e7\u00e3o de \u201ca escritora freira\u201d?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Eu acho que esse neg\u00f3cio de ser freira me d\u00e1 um certo destaque, pois \u00e9 uma esquisitice. As pessoas prestam mais aten\u00e7\u00e3o, tem uma curiosidade maior para saber o que a freira escreve. A imprensa sempre diz que eu sou \u201cfreira\u201d ou \u201cex-freira\u201d. Tem gente que acha que freira \u00e9 uma pessoa bobinha. Como poderia escrever livro e ganhar pr\u00eamio? Acham que a freira \u00e9 um boboquinha que n\u00e3o conseguiu marido e foi pro convento se refugiar. O que n\u00e3o \u00e9 verdade. A gente fez uma op\u00e7\u00e3o por estar a disposi\u00e7\u00e3o dos apelos de Deus atrav\u00e9s dos pobres.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; A educa\u00e7\u00e3o popular \u00e9 a pauta que moveu seu processo est\u00e9tico?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> E continua movendo. No fundo, o tipo de literatura que eu escrevo \u00e9 consequ\u00eancia disso. Foi uma op\u00e7\u00e3o muito clara, da minha parte, desde a adolesc\u00eancia, de me dedicar a educa\u00e7\u00e3o popular. Eu tive a sorte bastante grande de ter contato com o Paulo Freire quando era estudante, antes dele ser exilado. Fui para o Chile e fiz um longo curso com ele, passei uns meses fazendo est\u00e1gio quando ele estava refugiado. Depois me encontrei v\u00e1rias vezes com ele pelo meio do mundo. Tive anos trabalhando no campo a partir da vis\u00e3o do Paulo Freire que me marcou desde o fim da minha adolesc\u00eancia &#8211; no tempo de faculdade. O pessoal fala muito do m\u00e9todo Paulo Freire muito ligado com alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata s\u00f3 disso. \u00c9 uma filosofia de educa\u00e7\u00e3o que vai muito mais longe do que um m\u00e9todo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 toda uma maneira de trabalhar o conhecimento popular e a partir dele fazer um di\u00e1logo quando for necess\u00e1rio e \u00fatil com o conhecimento acad\u00eamico. Foi isso que eu fiz a vida toda. E continuo fazendo muitas vezes.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; Seu discurso tamb\u00e9m \u00e9 permeado pelos per\u00edodos de ex\u00edlio e ditadura. A senhora tinha medo de morrer e de ver as pessoas morrendo?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o percebia que eu tinha medo. O que eu tinha era uma gastrite horrorosa. Parecia \u00falcera de est\u00f4mago, naqueles primeiros anos, de 1969 at\u00e9 1971. Foi o pior. Eu n\u00e3o percebia que eu tinha medo. Era muito tranquila. S\u00f3 percebi que aquela gastrite era o meu modo de expressar o medo quando eu fui para fora do Brasil. Depois de uma semana n\u00e3o tinha mais gastrite nenhuma. E aquilo ali era o meu medo. E a partir da\u00ed, eu nunca mais tive medo. Sabe aquilo de o cora\u00e7\u00e3o disparar e ficar paralisado? Nunca. Jamais.<\/p>\n<h3><strong>Leituras da Bel &#8211; Estamos vivendo um tempo turbulento e falamos muito em intoler\u00e2ncia religiosa. Como a senhora tem observado essa movimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Val\u00e9ria Rezende &#8211;<\/strong> Eu acho que isso tudo \u00e9 provocado. Um povo unido jamais ser\u00e1 vencido. \u00c9 uma estrat\u00e9gia dividir o povo. Al\u00e9m das estrat\u00e9gias particulares de enriquecimento que tem as diferentes lideran\u00e7as. Hoje cria-se uma empresa religiosa em duas horas. Vai no cart\u00f3rio, registrar um nome qualquer, aluga um espa\u00e7o, coloca um microfone e meia d\u00fazia de cadeiras. Faz uma igreja! N\u00e3o paga imposto! Como as pessoas est\u00e3o muito pressionadas por uma realidade dura, muito confusas e com vozes dissonantes que vem de todo lado, na hora que voc\u00ea oferece certezas e f\u00f3rmulas para resolver os problemas, voc\u00ea atrai muita gente. E adquire poder sobre essa gente. E tem de todas as tend\u00eancias religiosas. Existem os evang\u00e9licos, mas tamb\u00e9m dentro da Igreja Cat\u00f3lica h\u00e1 setores radicais que tamb\u00e9m fazem o mesmo tipo de influ\u00eancia e de construir coisas meio fora da realidade para a pessoa ter a ilus\u00e3o que ela t\u00e1 protegida, sempre em troca de muita doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acho que a dificuldade que se tem para ler o mundo hoje faz com que as pessoas tenha medo e procurem certezas. \u00c9 muito dif\u00edcil viver na incerteza fazendo escolhas arriscadas. Algumas pessoas procuram certezas, que n\u00e3o se podem ter. Quem estiver disposto a vender certezas, se d\u00e1 bem com uma parte das pessoas. Isso tamb\u00e9m acontece na base da compara\u00e7\u00e3o com os outros. A gente tem que lutar pela toler\u00e2ncia, pois a intoler\u00e2ncia vai rachar toda a popula\u00e7\u00e3o em pedacinhos fragmentados. O mundo est\u00e1 muito complexo para a gente querer resolver alguma coisa sozinho. N\u00f3s precisamos de todos n\u00f3s, precisamos da capacidade de sonhar, imaginar e criar de todo mundo. \u00c9 um desafio enorme. Mas eu sou otimista. Estou aqui desde antes da bomba de hiroshima, desde antes da penicilina. E eu ainda estou aqui.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode gostar de:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MAILSON FURTADO: VENCEDOR DO JABUTI ANALISA EVENTOS LITER\u00c1RIOS | EPIS\u00d3DIO 11 - Letras&amp;Livros\" width=\"668\" height=\"376\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jC84MmrdFZo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela enxerga por um buraco de fechadura. 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