{"id":7822,"date":"2020-05-16T14:33:24","date_gmt":"2020-05-16T17:33:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=7822"},"modified":"2020-05-16T14:36:07","modified_gmt":"2020-05-16T17:36:07","slug":"leia-nota-de-rodape-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2020\/05\/16\/leia-nota-de-rodape-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Nota de rodap\u00e9&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Z\u00e9lia Sales*<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_7823\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7823\" class=\"size-large wp-image-7823\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/05\/1__mg_1250-10197314-740x491.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"491\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/05\/1__mg_1250-10197314-740x491.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/05\/1__mg_1250-10197314-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/05\/1__mg_1250-10197314-120x80.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/05\/1__mg_1250-10197314.jpg 750w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-7823\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Aur\u00e9lio Alves<\/p><\/div>\n<p>Era maio. Minha m\u00e3e metia o pente no meu cabelo. Ela tinha um jeito especial de dominar a rebeldia dos meus fios. Colocou as presilhas, prendeu a tiara, que imitava uma coroa. Certificou-se de que estava firme. Talvez estivesse t\u00e3o feliz quanto eu, mas havia uma nuvenzinha nos seus olhos. Talvez porque n\u00e3o pudesse me acompanhar. A roupa de cetim azul-claro estava na sacola sobre a mesa.<\/p>\n<p>Eu fazia a quarta s\u00e9rie no Instituto Cora\u00e7\u00e3o Imaculado de Maria. Naquele dia haveria o encerramento do m\u00eas mariano. Seis meninas haviam sido escolhidas para participar da coroa\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora. Ana Am\u00e9lia, minha melhor amiga, era uma delas. Mas amanhecera abatida por uma de suas frequentes crises de asma. No meio da tarde bateu na nossa porta um rapaz trazendo uma sacola de papel e um bilhetinho. Minha amiga me pedia para substitu\u00ed-la. Na sacola a t\u00fanica, o tor\u00e7al, as asas, a tiara.<\/p>\n<p>A escola era ali pertinho, mas sa\u00ed com sobra de tempo. N\u00e3o andava, saltitava. J\u00e1 era quase noite, mas parecia que um sol generoso brilhava nos muros, na cara das pessoas.<\/p>\n<p>As cadeiras tinham sido arrumadas no p\u00e1tio, algumas pessoas iam chegando, se acomodando, se abanando, falando baixo umas com as outras. Na frente se achava uma mesa coberta de panos brancos que, armados, lembravam nuvens, um c\u00e9u de sedas, tules, estrelas de papel laminado. Num plano mais alto, a imagem da Santa. Tamb\u00e9m havia flores, velas, m\u00fasica&#8230; e anjos correndo de um lado pro outro numa feliz agita\u00e7\u00e3o. As m\u00e3es tentavam segurar as filhas nas cadeiras, cuidavam para que ningu\u00e9m, com um nariz ou uma asa quebrada, empanasse o brilho da festa.<\/p>\n<p>Dirigi-me para a parte de tr\u00e1s do altar. Ali fora improvisada uma escadinha por onde um dos anjos deveria subir para coroar a Santa. Irm\u00e3 Cibele dava instru\u00e7\u00f5es para outra freira, que tinha nas m\u00e3os um casti\u00e7al. Ocupada que estava, n\u00e3o deu por minha presen\u00e7a. \u201cIrm\u00e3 Cibele&#8230;\u201d Dei um pux\u00e3ozinho no seu h\u00e1bito, \u201cIrm\u00e3 Cibele&#8230;\u201d Ela virou-se \u201cO que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?\u201d Sei que gaguejei, mas ela entendeu tudo juntando o que expliquei sobre a asma da Ana Am\u00e9lia, sobre o bilhetinho. Levantei o bra\u00e7o mostrando-lhe a sacola, disse que ia ali, num instantinho estaria pronta. Ela me olhou l\u00e1 do alto da sua incredulidade, seus olhos se estreitavam, assim como fazem os m\u00edopes para ler as letras mais pequenas. Eu era uma nota de rodap\u00e9. \u201cMinha filha, me d\u00ea aqui esta sacola\u201d- a voz met\u00e1lica, contida -, j\u00e1 tirando a bolsa do meu bra\u00e7o magro. \u201cVoc\u00ea j\u00e1 viu anjo preto?\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o inferno se abriu debaixo dos meus p\u00e9s.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o achava ch\u00e3o. Tinha a impress\u00e3o de que todos os barulhos emudeceram, que tudo se movimentava em c\u00e2mara lenta, que todo mundo olhava pra mim. Meu instinto foi procurar o caminho de casa. Contornei o altar aos trope\u00e7os. Ainda pude ver, de frente, a Santa. Ela tamb\u00e9m me via? Estava l\u00e1, em cima do pedestal: branca, complacente, serena.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><span style=\"color: #cc99ff\"><strong>Leia mais<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/bonsventos\">Editora cearense formada por mulheres lan\u00e7a financiamento coletivo<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Z\u00e9lia Sales<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/5p78Vht3ZYLv1DhmqQO94a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Z\u00e9lia Sales* Era maio. Minha m\u00e3e metia o pente no meu cabelo. 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