{"id":7988,"date":"2020-08-03T19:16:23","date_gmt":"2020-08-03T22:16:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=7988"},"modified":"2020-08-03T19:19:03","modified_gmt":"2020-08-03T22:19:03","slug":"leia-mada-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2020\/08\/03\/leia-mada-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Mad\u00e1&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mad\u00e1<\/strong><br \/>\n*Por Z\u00e9lia Sales<\/p>\n<div id=\"attachment_7990\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7990\" class=\"size-full wp-image-7990\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/08\/tumblr_oa64skNWO61tq6aaco1_500.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"447\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/08\/tumblr_oa64skNWO61tq6aaco1_500.jpg 500w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/08\/tumblr_oa64skNWO61tq6aaco1_500-300x268.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/08\/tumblr_oa64skNWO61tq6aaco1_500-120x107.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-7990\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p>Pela minha rua passava uma mo\u00e7a de rosto anguloso, cabelo comprido sempre preso num rabo de cavalo. N\u00e3o sabia que nome tinha, se Ana, Raquel, Jennyfer ou \u00c1gatha. Usava vestidos de alegres estampas e saias soltas, talvez para lhe alargar os passos, pois parecia estar sempre com pressa. Tinha os ombros largos, onde carregava sem nenhum esfor\u00e7o uma grande bolsa, parecida com essas que se levam pra praia. Imagino quantos sonhos carregasse ali, pois vinha sempre cantando, cantando alto. E ia interrompendo a cantiga e cumprimentando as pessoas que estavam nas cal\u00e7adas, pois onde moro a rua \u00e9 uma extens\u00e3o das pequenas casas, \u00e9 onde se lava e se estende roupa, se banha cachorro, se cata menino. Falava sem deter os passos, sem esperar resposta, acho que s\u00f3 pra anunciar \u201cestou passando\u201d. Voltava pra casa sempre no mesmo hor\u00e1rio, no come\u00e7o da manh\u00e3. Pelo que me consta, morava na favela que come\u00e7a do outro lado do canal.<\/p>\n<p>Ocupada nos meus afazeres, ouvia sua voz na cantiga, n\u00e3o muito afinada eu diria, mas que me contagiava. Eu corria at\u00e9 a janela. \u00c0s vezes, meu filho, que, como eu, tinha gosto de v\u00ea-la passar, me chamava, \u201cCorre, m\u00e3e, l\u00e1 vem aquela mulher que canta\u201d. Nem sempre dava tempo, e eu a via desaparecer no fim da rua.<\/p>\n<p>Certa vez parou em frente \u00e0 casa amarela, ali tem uma bomba d\u2019\u00e1gua na cal\u00e7ada. N\u00e3o pediu licen\u00e7a, movimentou a manivela, a \u00e1gua brotou farta. Ela lavou os p\u00e9s, os grandes p\u00e9s, metidos numas alpercatas, e seguiu. A rua era sua, o mundo era seu.<\/p>\n<p>As pessoas falam que havia alguns anos ela j\u00e1 passava na rua. Nesse tempo n\u00e3o cantava. Entregava \u00e1gua numa bicicleta cargueira. Tinha o cabelo curto, usava bermuda, um bon\u00e9 desbotado e se chamava Euclides.<\/p>\n<p>Na semana passada, depois de uma certa aus\u00eancia, eu a vi. Durante tr\u00eas dias esteve nos notici\u00e1rios do meio-dia. Traumatismo craniano, fraturas expostas nos bra\u00e7os, as costas lanhadas. Dizem que foram quatro homens contra ela, que na verdade atendia pelo nome de Madalena, mas os amigos a chamavam de Mad\u00e1.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<h2>Z\u00e9lia Sales<\/h2>\n<p>J\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 <strong><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/5p78Vht3ZYLv1DhmqQO94a\">produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mad\u00e1 *Por Z\u00e9lia Sales Pela minha rua passava uma mo\u00e7a de rosto anguloso, cabelo comprido sempre preso num rabo de cavalo. 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