{"id":8115,"date":"2020-10-04T20:25:02","date_gmt":"2020-10-04T23:25:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=8115"},"modified":"2020-10-04T20:25:02","modified_gmt":"2020-10-04T23:25:02","slug":"leia-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2020\/10\/04\/leia-agora-e-na-hora-de-nossa-morte-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Agora e na hora de nossa morte&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>Agora e na hora de nossa morte<br \/>\n*Por Z\u00e9lia Sales<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Estava quieto, parado &#8211; h\u00e1 quantos dias? \u2013 debaixo do pau branco. A \u00e1rvore j\u00e1 meio pelada quase n\u00e3o lhe dava sombra. De olhos fechados, parecia que dormia em p\u00e9. \u201cEst\u00e1 doente\u201d, minha m\u00e3e me falou. Da janela eu via sua silhueta inerte no abafado do dia, no frio da noite. Fincara os cascos na areia onde antes corria um fio d\u00b4\u00e1gua que n\u00f3s de casa cham\u00e1vamos de grota. Ali por perto havia uma vegeta\u00e7\u00e3o rala, mas ele n\u00e3o se animava a dar dois passos, baixar o pesco\u00e7o, comer.<\/p>\n<div id=\"attachment_8116\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8116\" class=\"wp-image-8116 size-full\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/10\/SAO-FRANCISCO-poster-o-povo-carlus-campos-3.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"363\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/10\/SAO-FRANCISCO-poster-o-povo-carlus-campos-3.jpg 600w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/10\/SAO-FRANCISCO-poster-o-povo-carlus-campos-3-300x182.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/10\/SAO-FRANCISCO-poster-o-povo-carlus-campos-3-120x73.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-8116\" class=\"wp-caption-text\">Arte de Carlus Campos, publicada no Jornal O POVO em 2015<\/p><\/div>\n<p>No meio da tarde fui at\u00e9 l\u00e1, cheguei perto, passei a m\u00e3o na sua testa rija, brinquei com suas orelhas. \u201cT\u00e1 dodoi?\u201d Percorri com o indicador o desenho escuro no seu dorso. Todos os jumentos t\u00eam esse desenho nas costas. Minha av\u00f3 dizia que era a marca do mijo de Jesus Menino. Quando fugiam de Herodes, Maria Sant\u00edssima ia montada num jumentinho, o Menininho no colo, S\u00e3o Jos\u00e9 atr\u00e1s, a p\u00e9, tangendo. A\u00ed o Menino Deus fez um xixi. E desde ent\u00e3o todos os jumentos do mundo trazem nas costas a marca do mijo que escorreu.<\/p>\n<p>Na serra eu era acostumada com esses bichos, que meu tio T\u00f3 chamava de \u201cos brutos\u201d e tinha por eles grande considera\u00e7\u00e3o. Encontrava os comboios nas estradas, subindo ou descendo as ladeiras. Trabalhavam sem descanso carregando nas costas dois surr\u00f5es de bananas, de rapaduras, ou dois volumosos feixes de cana, de lenha, a cangalha dura sobre a esteira rala lhes ferindo o espinha\u00e7o, e o chicote cantando no lombo. E eram animais t\u00e3o d\u00f3ceis, neles eu podia montar, n\u00e3o precisava muita habilidade, n\u00e3o ofereciam perigo. Quando mor\u00e1vamos no S\u00e3o Jo\u00e3o, havia alguns no curral, bem do lado da casa. Me afei\u00e7oei a um deles que meu pai chamava de Card\u00e3o, \u201cPai, esse \u00e9 meu\u201d. Ele, calado, consentiu. Card\u00e3o tinha um diferencial, trazia no pesco\u00e7o um estranho colar. Um dia algu\u00e9m me disse que era uma corrente de bicicleta. Eu nunca tinha visto uma bicicleta.<\/p>\n<p>\u201cT\u00e1 com medo?\u201d Ainda conversei com ele sobre sua m\u00e3e, tadinha, t\u00e3o mo\u00e7a ainda, escambichada de tanto trabalhar, seus irm\u00e3os perdidos pelo mundo, seu anjo da guarda t\u00e3o distra\u00eddo&#8230; e sobre outros assuntos que s\u00f3 podiam interessar a uma menina e um jumento. Ele de olhos fechados, as ideias pausadas. Em casa, comuniquei a minha m\u00e3e:<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 vou buscar \u00e1gua pra ele.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vai matar esse jumento&#8230; &#8211; ela nem levantou os olhos da costura, mas tinha uma ponta de preocupa\u00e7\u00e3o na voz. &#8211; Faz quantos dias que ele n\u00e3o bebe? Na hora que beber, morre.<\/p>\n<p>&#8211; E se ele morrer de sede?<\/p>\n<p>&#8211; Ele vai morrer de qualquer jeito.<\/p>\n<p>E no outro dia ele estava l\u00e1, de pesco\u00e7o arriado. \u201cNa hora que ele beber, morre\u201d. J\u00e1 passava das quatro quando enfim decidi. Peguei uma lata, um balde, uma corda, na minha casa n\u00e3o havia \u00e1gua encanada, me dirigi pro s\u00edtio do outro lado da rodovia onde havia um cacimb\u00e3o. Joguei o balde uma, duas, tr\u00eas vezes. A lata j\u00e1 estava quase cheia. Sa\u00ed, um passinho atr\u00e1s do outro, a lata pesada na cabe\u00e7a, \u201cele vai morrer de qualquer jeito\u201d, a massa d\u2019\u00e1gua balan\u00e7ando, o vestido j\u00e1 todo molhado. Atravessei a pista, passei em frente a minha casa e fui depositar a lata d\u2019\u00e1gua ali perto do jumento. Em casa peguei a bacia grande de alum\u00ednio que minha m\u00e3e usava pra lavar roupa. Ela estava na cozinha, percebia meu vai e vem, mas n\u00e3o se intrometeu. O recado estava dado.<\/p>\n<p>Coloquei a bacia no ch\u00e3o, despejei ali a \u00e1gua; era de cacimb\u00e3o: grossa, pesada, salobra. Sentei do lado e esperei. Ele come\u00e7ou a beber. Bebeu, bebeu, bebeu. De olhos fechados, vagarosamente, como se lambesse a superf\u00edcie da \u00e1gua. Agora ele j\u00e1 n\u00e3o tinha medo. O sol desaparecera atr\u00e1s de uma nuvem, e um vento vindo n\u00e3o sei de onde moveu os galhos do velho pau branco, o mundo suspirava aliviado. Estiquei as pernas sobre a areia morna, eu tinha o resto da tarde para esperar, ele tinha toda a vida que lhe restava para beber toda aquela \u00e1gua.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Z\u00e9lia Sales<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte.<\/p>\n<p>https:\/\/open.spotify.com\/episode\/5p78Vht3ZYLv1DhmqQO94a?go=1&#038;utm_source=embed_v3&#038;t=0&#038;nd=1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora e na hora de nossa morte *Por Z\u00e9lia Sales Estava quieto, parado &#8211; h\u00e1 quantos dias? \u2013 debaixo do pau branco. 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