{"id":8204,"date":"2020-12-16T21:00:19","date_gmt":"2020-12-17T00:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=8204"},"modified":"2020-12-16T21:04:01","modified_gmt":"2020-12-17T00:04:01","slug":"leia-e-se-o-natal-emborcar-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2020\/12\/16\/leia-e-se-o-natal-emborcar-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;E se o Natal emborcar?&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>E se o Natal emborcar?<\/strong><br \/>\n<em>Por Z\u00e9lia Sales*<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_8205\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8205\" class=\"size-large wp-image-8205\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280-740x450.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"450\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280-740x450.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280-300x182.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280-768x467.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280-120x73.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2020\/12\/tumblr_ncdqq4aTK71tq6aaco1_1280.jpg 1280w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-8205\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p>L\u00e1 em casa nunca nos levaram a acreditar em Papai Noel. N\u00e3o havia \u00e1rvore iluminada, nem ceia, nem presentes.<br \/>\nHavia, sim, um vestido novo. E o pres\u00e9pio &#8211; a gente chamava de lapinha &#8211; montado no fundo da igreja, ao lado da sacristia. Todo ano estava l\u00e1 a estrela, os Reis Magos, S\u00e3o Jos\u00e9, Nossa Senhora e o Menino na manjedoura. A Madrinha nos contava a hist\u00f3ria do nascimento de Jesus, enfeitando um peda\u00e7o aqui, esquecendo uma parte acol\u00e1, ficava mais encantada do que n\u00f3s, para ela tudo era misterioso e sagrado, parecia n\u00e3o notar que aquele lago era um espelho margeado por um punhado de areia que algu\u00e9m colhera na beira do rio ali perto. Para n\u00f3s a gra\u00e7a maior estava na vaquinha, nos bezerrinhos, nos carneiros t\u00e3o pichototinhos, pareciam de verdade.<\/p>\n<p>Depois tinha a missa, que n\u00e3o acabava nunca, a Madrinha com os olhos pregados no altar, eu e minha irm\u00e3 bocejando impacientes. E depois da missa tinha a feira, uma feira noturna, imaginem! Sem as barracas de frutas, sem os sacos de feij\u00e3o, sem os porcos fedorentos, sem as galinhas barulhentas. A rua iluminada pelas l\u00e2mpadas fluorescentes das bancas de miudezas. Havia bonecas, bolas, carrinhos, espelhos, gigol\u00e9s, tubos de linha e at\u00e9 naftalina&#8230; s\u00f3 n\u00e3o havia dinheiro. Parte das minguadas c\u00e9dulas da Madrinha iam-se na barraca de abacaxis. O homem enfiava um palito na rodela dourada e botava na nossa m\u00e3o, a gente enfiava os dentes, e a Madrinha: \u201cSe abaixe!\u201d, a calda espirrando no vestido novo. Ali ao lado, outro que vendia refresco com p\u00e3o doce. As garrafas coloridas pelo vermelho do suco quase morno eram demais convidativas. E l\u00e1 se ia o dinheirinho da Madrinha&#8230;<\/p>\n<p>Foi num certo Natal. De barriga cheia, minha irm\u00e3 botou os olhos em cima de um brinquedo, \u201cEu quero, Madrinha, me d\u00e1, \u00e9 t\u00e3o bonitinha&#8230;\u201d Era uma pata com uma enfieira de patinhos, em tamanhos decrescentes, cada um de uma cor, interligados como se fosse um trenzinho, com rodinhas e tudo, a coisa mais linda do mundo. Mas eu sabia das impossibilidades da Madrinha. Minha irm\u00e3, mais nova do que eu, talvez n\u00e3o tivesse essa consci\u00eancia. E abriu o berreiro. Chorava e puxava a Madrinha pela saia e pedia e implorava. Eu tentei lhe dizer que tinha desistido de desejar a boneca de tran\u00e7a e que&#8230; Mas ela nem olhou pra mim, chorava alto, a cara toda lambuzada.<\/p>\n<p>Pegamos o caminho de casa.<\/p>\n<p>Agora, longe do brilho e do burburinho da feira, o Natal era escuro e silencioso. Pouca gente na rua, as pessoas haviam se recolhido para a ceia. No interior das grandes casas, havia pequenas luzes que piscavam, havia risos distantes. Minha irm\u00e3, tamb\u00e9m feliz, arrastava por um cord\u00e3o a enfieira de patos. Eu seguia um pouco mais atr\u00e1s, segurando na m\u00e3o da Madrinha. Aqui, acol\u00e1, numa irregularidade da cal\u00e7ada, um dos patinhos emborcava. Resignada, eu corria para desvirar.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Z\u00e9lia Sales<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/tag\/zelia-sales\/\">Clique aqui e leia outros textos de Z\u00e9lia Sales!<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E se o Natal emborcar? Por Z\u00e9lia Sales* L\u00e1 em casa nunca nos levaram a acreditar em Papai Noel. 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