{"id":823,"date":"2017-05-08T13:30:33","date_gmt":"2017-05-08T16:30:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=823"},"modified":"2018-01-13T13:54:25","modified_gmt":"2018-01-13T16:54:25","slug":"o-quarto-de-carolina-ou-sobre-um-livro-ainda-nao-suficientemente-lido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2017\/05\/08\/o-quarto-de-carolina-ou-sobre-um-livro-ainda-nao-suficientemente-lido\/","title":{"rendered":"O Quarto de Carolina Maria de Jesus ou sobre um livro ainda n\u00e3o suficientemente lido"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_824\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-824\" class=\"size-large wp-image-824\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/05\/carolina-maria-de-jesus-foto-624x468.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"413\" \/><p id=\"caption-attachment-824\" class=\"wp-caption-text\">Carolina Maria de Jesus<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cEu n\u00e3o sou indolente. H\u00e1 tempos que eu pretendia fazer o meu di\u00e1rio. Mas eu pensava que n\u00e3o tinha valor e achei que era perder tempo. \u201c<\/strong><br \/>\n<strong>Carolina Maria de Jesus, In Quarto de Despejo.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 diversas formas de ler um livro. Uma delas \u00e9 mergulhar recheado de paix\u00e3o, saborear cada uma das palavras escritas, chorar a cada p\u00e1gina, ou sorrir, ou se indignar, ou paralisar de t\u00e3o perplexo diante do cat\u00e1rtico produzido pela obra lida. Assim li <span style=\"color: #ff00ff\"><em><strong>Quarto de Despejo<\/strong><\/em><\/span>, um livro com muitos significados, um livro al\u00e9m de um simples livro. Primeiro, por <span style=\"color: #ff6600\"><strong>Carolina Maria de Jesus<\/strong><\/span> ser a primeira mulher negra a publicar um livro no Brasil &#8211; s\u00f3 esse fato seria importante para o livro ser lido, mas n\u00e3o fica apenas nisso..<!--more--><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina<\/span> <\/strong>&#8211; e sua primeira obra &#8211; foi e ainda \u00e9 alvo de persegui\u00e7\u00e3o de muitos cr\u00edticos, ligados a intelectualidade brasileira. Brancos e ricos, como quase sempre. O exemplo disso foi o recente caso ocorrido em uma solenidade na Academia Carioca de Letras para homenagear <strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina Maria de Jesus<\/span><\/strong>. O professor Ivan Cavalcanti Proen\u00e7a fez quest\u00e3o de afirmar que a escritora n\u00e3o deveria ser chamada de escritora, pois sua obra, <em><strong>Quarto de Despejo<\/strong><\/em>, \u00e9 um di\u00e1rio, n\u00e3o possuindo tra\u00e7os de fic\u00e7\u00e3o. Ele prosseguiu seguindo a cr\u00edtica, afirmou falta de habilidades no uso do idioma por <strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina<\/span><\/strong>, outra suposta caracter\u00edstica inviabilizante para a mesma n\u00e3o ser merecedora do status de artista das letras.<\/p>\n<p>Infelizmente, esse n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. O racismo, o machismo e a homofobia s\u00e3o capazes de interferir, e muito, na n\u00e3o publica\u00e7\u00e3o ou valida\u00e7\u00e3o de diversas escritoras e escritores &#8211; por quest\u00f5es de g\u00eanero, etnia ou coloca\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nessa pequena nota de leitura, rapidamente, vou tentar responder uma quest\u00e3o. Uma n\u00e3o, duas: Por que ler<em><strong> Quarto de Despejo<\/strong><\/em>? Vale a pena ler <strong><em>Quarto de Despejo<\/em><\/strong>?<\/p>\n<p>Para nos situar, o livro, publicado originalmente em 1960, \u00e9 escrito em forma de di\u00e1rio e tra\u00e7a o cotidiano de <strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina<\/span><\/strong>. O relato acontece em primeira pessoa e a linguagem utilizada, mesmo assumindo em diversas partes um tom confessional e denunciante, n\u00e3o perde em nenhum momento seu tom po\u00e9tico, l\u00edrico e liter\u00e1rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-825\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2017\/05\/carolina-maria-de-jesus-quarto-de-despejo-624x464.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"409\" \/><\/p>\n<p><em><strong>\u201cEstou come\u00e7ando a perder o interesse pela exist\u00eancia. Come\u00e7o a revoltar. E minha revolta \u00e9 justa\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600\"><strong>Carolina<\/strong> <\/span>nos apresenta diversas personagens, principalmente apresenta a si e seus filhos. Vamos acompanhando o processo de crescimento deles, dores, anseios, sonhos, os modos como se desvencilham das agruras cotidianas, ou n\u00e3o. Por\u00e9m, uma outra personagem muito importante nos \u00e9 apresentado pela escritora: a <strong>favela<\/strong>. A\u00ed reside uma das grandezas do livro, lemos o in\u00edcio desse fen\u00f4meno social, o maior motivado para o t\u00edtulo do livro, a favela de <strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina<\/span> <\/strong>\u00e9 um grande <strong><em>Quarto de Despejo<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 uma grande inova\u00e7\u00e3o na escrita de <strong><span style=\"color: #ff6600\">Carolina<\/span><\/strong>, n\u00e3o estamos em um espa\u00e7o romantizado, ou nem nos deparamos com personagens \u201cque vai levando\u201d como na letra do samba do Chico Buarque, muito pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 enfeites, a <strong>Favela<\/strong> \u00e9 a <strong>Favela<\/strong>. Cada morador \u00e9 um ser humano &#8211; com suas ambi\u00e7\u00f5es, desist\u00eancias e resist\u00eancias.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesse livro a descri\u00e7\u00e3o de uma S\u00e3o Paulo in\u00e9dita, passando por uma grande revolu\u00e7\u00e3o, moderniza\u00e7\u00e3o, enriquecendo cada vez mais. S\u00e3o Paulo e sua ind\u00fastria nos s\u00e3o mostradas sempre por outros escritores como imponente, espl\u00eandida. Mas nem toda a cidade era ou \u00e9 assim, o livro nos mostra isso.<\/p>\n<p><em><strong>\u201cEu classifico S\u00e3o Paulo Assim: O Pal\u00e1cio, \u00e9 a sala de visita. A prefeitura \u00e9 a sala de jantar e a cidade \u00e9 o jardim. E a favela \u00e9 o quintal onde jogam os lixos\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma outra cidade, uma outra vida, uma outra hist\u00f3ria contada de uma outra perspectiva. Ler<em><strong> Quarto de Despejo<\/strong><\/em> \u00e9 ler os relatos e acontecimentos da hist\u00f3ria a partir do olhar de quem mais sofre com os tais acontecimentos.<\/p>\n<p>Entretanto, existe uma grande preocupa\u00e7\u00e3o dos leitores comuns de literatura ao pensar na possibilidade de debru\u00e7arem-se sobre esta obra. A de que o livro \u00e9 um simples relat\u00f3rio do real. N\u00e3o \u00e9. Potente em met\u00e1fora e em poesia, esse livro \u00e9 cheio de subvers\u00f5es po\u00e9ticas da escritora. \u201cQuando digo casa, penso que estou ofendendo as casas de tijolos\u201d, \u201cDeve ser \u00f3timo ir para o c\u00e9u, mas ser\u00e1 que l\u00e1 tem favela?\u201d. Para citar alguns l\u00edricos trechos da obra.<\/p>\n<p>Retomando as perguntas, caso a essa altura voc\u00ea ainda n\u00e3o tenha se convencido. Sim, O <em><strong>Quarto de Despejo<\/strong><\/em> \u00e9 uma excelente obra da literatura, vale cada segundo de tempo investido por voc\u00ea, leitora\/leitor. Por ser uma experi\u00eancia est\u00e9tica, hist\u00f3rica e pol\u00edtica. Sem contar no horizonte da diversidade leitora que h\u00e1 de abrir para voc\u00ea ap\u00f3s a experi\u00eancia dessa leitura.<\/p>\n<p>Leiamos <span style=\"color: #ff6600\"><strong>Carolina<\/strong><\/span>; Leiamos o <em><strong>Quarto de Despejo<\/strong><\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Talles Azigon (da p\u00e1gina Poesia Brasileira) \u201cEu n\u00e3o sou indolente. H\u00e1 tempos que eu pretendia fazer o meu di\u00e1rio. Mas eu pensava que n\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":3997,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[235,468,708,983,1006,1101],"class_list":["post-823","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-carolina-maria-de-jesus","tag-favela","tag-livro","tag-quarto-de-despejo","tag-resenha","tag-talles-azigon"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/823","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=823"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/823\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3998,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/823\/revisions\/3998"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3997"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=823"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}