{"id":8304,"date":"2021-03-26T15:29:40","date_gmt":"2021-03-26T18:29:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=8304"},"modified":"2021-03-26T15:30:02","modified_gmt":"2021-03-26T18:30:02","slug":"leia-um-menino-um-caderno-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2021\/03\/26\/leia-um-menino-um-caderno-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;Um menino, um caderno&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>Um menino, um caderno<\/strong><\/p>\n<p>Por Z\u00e9lia Sales*<\/p>\n<p>Quando mor\u00e1vamos no S\u00e3o Jo\u00e3o, eu n\u00e3o ia \u00e0 escola, porque era ainda muito pequena. S\u00f3 minha irm\u00e3 mais velha ia, devia ter uns nove anos. N\u00e3o era uma escola convencional, era a casa da professora, em cuja sala havia uma grande mesa, onde ficavam todos os alunos e alunas, de idades e n\u00edveis diferentes, todo mundo junto.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o gostava de estudar. Talvez porque as aulas fossem no per\u00edodo da tarde, quando ela j\u00e1 estava cansada dos servi\u00e7os l\u00e1 de casa. Trabalhava feito um trator ajudando no preparo da comida, na limpeza da casa, nos cuidados com os irm\u00e3os menores. E ainda tomava conta da cabra.<\/p>\n<div id=\"attachment_5001\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5001\" class=\"size-large wp-image-5001\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n-740x704.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"704\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n-740x704.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n-300x285.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n-768x730.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n-120x114.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2018\/07\/13255994_903175726475168_5275773432444786046_n.jpg 960w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-5001\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: J\u00e9ssica Gabrielle Lima<\/p><\/div>\n<p>Minha irm\u00e3 sa\u00eda quebrada de casa, o sol tinindo, a estrada de poeira, cad\u00ea o \u00e2nimo pra estudar? O feij\u00e3o do almo\u00e7o no esfor\u00e7o da digest\u00e3o, a tarde inteira amassando a bunda em um banco duro. Depois de um certo tempo, ela come\u00e7ou a voltar cedo pra casa, minha m\u00e3e estranhava: \u201cJ\u00e1!?\u201d Todo dia alegava um motivo diferente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o revelou-se o mist\u00e9rio, pela boca de um senhor que tinha um ro\u00e7ado extremado com o caminho da escola. Ali por perto, no meio dos arbustos, minha irm\u00e3 ficava escorada \u00e0 pouca sombra de uma grande pedra. Algu\u00e9m que passasse na estrada n\u00e3o poderia v\u00ea-la. Era muito estranho aquela menina toda tarde, debaixo daquele sol, a pedra pegando fogo&#8230; Ela esclareceu, a voz embargada pelo medo da surra: \u201cNo come\u00e7o eu ficava l\u00e1 na pedra a tarde todinha. Quando eu via os alunos voltando pra casa, eu acompanhava eles. Depois fui cansando de esperar e vinha me embora&#8230;\u201d E completou enfadada: \u201c Ah!\u201d<\/p>\n<p>E por qu\u00ea? Porque mal ela botava o p\u00e9 na sala de aula, a professora lhe colocava no colo a sua nen\u00ea de quase um ano, gorda como um peba, \u201cSegure aqui, depois voc\u00ea faz sua c\u00f3pia, viu?\u201d Sempre havia uma aluna varrendo a casa, enxugando os pratos&#8230; A mulher tinha um monte de filhos e filhas que poderiam fazer essas tarefas, mas era sobre alguns alunos que ca\u00eda a responsabilidade. Sobrava pouco tempo para os estudos. E ainda havia a maldita palmat\u00f3ria caso n\u00e3o se fizesse a li\u00e7\u00e3o, \u201cAbra a m\u00e3o! Abra!\u201d<\/p>\n<p>Havia alguns que n\u00e3o se sujeitavam, mas com meu primo n\u00e3o foi diferente. Era um menin\u00e3o magrela, acostumado a ser subserviente. Em casa, come\u00e7ava o dia carregando \u00e1gua para encher os potes, depois ia ajudar o pai no ro\u00e7ado, ou ia lachar lenha, alguma coisa assim. Chegava na escola estropiado. E qual era a primeira li\u00e7\u00e3o? Mal ele entrava, a professora vinha com as duas latas, o pau: \u201cAluisinho, meu filho, tome, v\u00e1 ligeiro. Depois que voc\u00ea encher os potes, eu tomo sua li\u00e7\u00e3o, viu?\u201d E o filho dela, um galalau, solto no meio do terreiro, com uma baladeira, fazendo mira nos passarinhos.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, em um encontro com a fam\u00edlia, lembraram-se dessa hist\u00f3ria, todo mundo \u00e0s gargalhadas, porque o tempo faz c\u00f4micas todas as trag\u00e9dias. Minha irm\u00e3, meu primo e outras crian\u00e7as n\u00e3o sabiam dizer n\u00e3o, ali\u00e1s as crian\u00e7as de modo geral n\u00e3o eram ensinadas a contestar, a fazer valer seus direitos, nem sei se tinham direitos. L\u00e1 em casa, a obedi\u00eancia era um valor indiscut\u00edvel. Levei muita porrada porque ousava abrir a boca.<\/p>\n<p>A professora tamb\u00e9m cortava um dobrado. Bem ou mal, ela mantinha a escola aberta, a \u00fanica que havia na serra. E isso, anos a fio. Considerando que ela tinha sido professora da minha m\u00e3e, talvez fosse ainda uma mocinha quando come\u00e7ou a lecionar. No come\u00e7o da carreira o pai, e mais tarde o marido, reclamando da casa cheia de culumins pregui\u00e7osos, catinguentos, desaforados. No final de cada m\u00eas, descia a serra a p\u00e9, vencia as l\u00e9guas no sol e na poeira; ou debaixo de chuva, atolando-se no barro, para receber o m\u00edsero sal\u00e1rio que a prefeitura pagava. Tudo isso para um catarrento aprender a escrever e registrar no caderno seboso, com a letra tosca: professora fela da puta.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes penso em pegar esse menino e puxar-lhe as orelhas, dar-lhe uns cascudos, meter-lhe a palmat\u00f3ria; \u00e0s vezes penso em fazer-lhe um carinho na cabe\u00e7a, dar-lhe um tapinha no ombro, p\u00f4r uma estrelinha em seu caderno, preg\u00e1-lo na parede, nos muros, fazer dele um estandarte, uma bandeira. Esse menino confunde meus conceitos.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Z\u00e9lia Sales<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/tag\/zelia-sales\/\">Clique aqui e leia outros textos de Z\u00e9lia Sales!<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um menino, um caderno Por Z\u00e9lia Sales* Quando mor\u00e1vamos no S\u00e3o Jo\u00e3o, eu n\u00e3o ia \u00e0 escola, porque era ainda muito pequena. 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