{"id":8450,"date":"2021-07-06T18:09:07","date_gmt":"2021-07-06T21:09:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/?p=8450"},"modified":"2021-07-06T18:10:24","modified_gmt":"2021-07-06T21:10:24","slug":"leia-o-ultimo-folego-do-dia-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/2021\/07\/06\/leia-o-ultimo-folego-do-dia-texto-da-escritora-cearense-zelia-sales\/","title":{"rendered":"Leia &#8220;O \u00faltimo f\u00f4lego do dia&#8221;, texto da escritora cearense Z\u00e9lia Sales"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Z\u00e9lia Sales<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_8451\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8451\" class=\"size-large wp-image-8451\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-740x740.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"740\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-740x740.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-768x768.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-2048x2048.jpg 2048w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2021\/07\/12-120x120.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-8451\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Raisa Christina<\/p><\/div>\n<p><em><span style=\"text-decoration: underline\">Para Antonio Miranda<\/span><\/em><\/p>\n<p>Na estrada que leva pra Santana, depois da ladeira do cajueir\u00e3o, depois dos tanques, do lado direito, assentada sobre uma parte alta do terreno, havia uma casa.<\/p>\n<p>Era a nossa casa.<\/p>\n<p>Em frente, do outro lado da estrada, tamb\u00e9m num patamar, havia um campo de terra onde meu pai e seus amigos jogavam futebol. Tinha as traves e tudo. E depois do campo limpo, al\u00e9m dos ro\u00e7ados de milho e feij\u00e3o, dentro do mato rude, havia um cemit\u00e9rio. O cemit\u00e9rio dos pag\u00e3os, criancinhas que haviam morrido sem ter sido batizadas, muitas delas antes de completar um ano de vida. De febres, diarreias, sarampo, mal dos sete dias, quebranto&#8230; Era um terreno \u00e1spero, cheio de pedras, ali nada poderia medrar, era o ro\u00e7ado da morte. N\u00e3o havia l\u00e1pides nem qualquer coisa que pudesse marcar a \u00e1rea como um campo santo, mas todas as m\u00e3es sabiam exatamente onde estava sepultado o filho morto.<\/p>\n<p>Eu tinha um irm\u00e3ozinho enterrado ali. Nascera prematuro e sete dias depois j\u00e1 estava no seu caix\u00e3ozinho de t\u00e1buas. Antes de ele dormir definitivamente, na urg\u00eancia da hora, minha av\u00f3 pediu uma vela. Com o polegar desenhou uma cruz sobre a testa inocente: \u201cEu te batizo por Luiz, em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u201d.<\/p>\n<p>Da janela daquela casa, eu, menina, contemplava o mundo: o campo, os ro\u00e7ados, a estrada de terra que leva pra Santana, os homens que passavam na estrada, os comboios de jumentos, algum cachorro indolente. E havia um momento, quando n\u00e3o era dia nem era noite, em que o mundo travava. Meu pai descia pela estrada e desaparecia no caminho que dava no rio, uma cuia na m\u00e3o, dentro um peda\u00e7o de sab\u00e3o, a toalha no ombro, ia tomar seu banho. Da cozinha, a voz da minha m\u00e3e que havia pouco cantava, destonava. N\u00e3o sei se era a casa, o campo, os ro\u00e7ados que se suspendiam, ou se era o c\u00e9u que descambava. Era um c\u00e9u pesado, de ferrugem e sangue. E tudo ficava distorcido e borrado.<\/p>\n<p>Era nessa hora em que eu ouvia chorar os anjinhos pag\u00e3os. \u00c0s vezes um ou dois, \u00e0s vezes um coro lamentoso e triste. S\u00f3 eu ouvia? N\u00e3o tinha medo, mas uma ang\u00fastia que n\u00e3o me cabia, que pesava como barro e impregnava o mundo justamente naquele momento, no \u00faltimo f\u00f4lego do dia.<\/p>\n<p>Mas enfim ca\u00eda a noite. Meu pai voltava, acendia as lamparinas. Sent\u00e1vamos \u00e0 mesa. No fog\u00e3o \u00e0 lenha, o chiado dos ovos na gordura tinha aspecto de chuva. Minha m\u00e3e trazia os pratos, o bai\u00e3o de dois, o queijo derretendo. N\u00e3o fal\u00e1vamos nada. Meu pai, minha m\u00e3e, meus irm\u00e3os, bocas satisfeitas mastigando a vida sem pressa.<\/p>\n<p>Os pag\u00e3os haviam se calado.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<h2><strong>Z\u00e9lia Sales<\/strong><\/h2>\n<p><strong>J\u00e1 fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas \u00e9 escrever, publicar, chegar ao leitor, que \u00e9 sua maior motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 formada em Letras e atua na forma\u00e7\u00e3o de leitores em escolas p\u00fablicas. Nas voltas que o mundo deu, virou tamb\u00e9m dona de casa, esposa, m\u00e3e, escritora. Enquanto escreve, corrige reda\u00e7\u00f5es, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever \u00e9 assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relic\u00e1rio \u2013 produ\u00e7\u00e3o comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&amp;Arte.<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/tag\/zelia-sales\/\">Clique aqui e leia outros textos de Z\u00e9lia Sales!<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Z\u00e9lia Sales Para Antonio Miranda Na estrada que leva pra Santana, depois da ladeira do cajueir\u00e3o, depois dos tanques, do lado direito, assentada sobre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":8451,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[1922,304,430,683,1704],"class_list":["post-8450","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-alias-editora","tag-conto","tag-escritora","tag-literatura","tag-zelia-sales"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8450"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8450\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8454,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8450\/revisions\/8454"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8451"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/leiturasdabel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}