{"id":1007,"date":"2009-06-23T07:31:12","date_gmt":"2009-06-23T12:31:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=1007"},"modified":"2009-06-23T07:31:12","modified_gmt":"2009-06-23T12:31:12","slug":"eliane-brum-e-as-historias-da-vida-comum-no-congresso-da-abraji","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/06\/23\/eliane-brum-e-as-historias-da-vida-comum-no-congresso-da-abraji\/","title":{"rendered":"Eliane Brum e as hist\u00f3rias da vida comum, no congresso da Abraji"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eliane Brum<\/strong> \u00e9 uma das mais premiadas jornalistas brasileiras. Ganhou mais de 40 pr\u00eamios de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna e Sociedade Interamericana de Imprensa. Sua narrativa \u00e9 marcada pela presen\u00e7a de personagens an\u00f4nimos e por um estilo sens\u00edvel e intenso.<\/p>\n<p>&#8220;Ao escrever preferencialmente sobre pessoas an\u00f4nimas, tento tamb\u00e9m fazer uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa: por que isto e n\u00e3o aquilo \u00e9 not\u00edcia? Eu acredito profundamente que toda vida \u00e9 extraordin\u00e1ria. N\u00e3o existem vidas comuns, s\u00f3 olhos domesticados. \u00c0s vezes, os nossos&#8221;, diz a rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Ga\u00facha de Iju\u00ed, Eliane come\u00e7ou como rep\u00f3rter no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 1988. Desde 2000, \u00e9 rep\u00f3rter especial da revista \u00c9poca. \u00c9 autora de tr\u00eas livros de reportagem. Pelo primeiro, &#8220;Coluna prestes &#8211; o avesso da lenda&#8221;, no qual refez a marcha do ex\u00e9rcito rebelde pelo pa\u00eds entrevistando uma centena de testemunhas, recebeu o Pr\u00eamio A\u00e7orianos como autora-revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ganhou tamb\u00e9m o Pr\u00eamio Jabuti pelo livro reportagem &#8220;A vida que ningu\u00e9m v\u00ea&#8221;, uma colet\u00e2nea de hist\u00f3rias reais sobre a extraordin\u00e1ria vida das pessoas comuns.<\/p>\n<p>No 4\u00ba Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, Eliane Brum estar\u00e1 na mesa &#8220;O Olhar e a Escuta: jornalismo sobre a extraordin\u00e1ria vida comum&#8221;, contando hist\u00f3rias de 20 anos de reportagem.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea pretende abordar em sua palestra?<\/strong><br \/>\n<strong>Eliane Brum<\/strong> &#8211; Acho que todo rep\u00f3rter \u00e9 um contador de hist\u00f3rias reais. Na minha palestra, eu vou contar hist\u00f3rias reais, s\u00f3 que hist\u00f3rias dentro da hist\u00f3ria, como fiz no meu \u00faltimo livro, &#8220;O olho da rua&#8221;. Vou contar hist\u00f3rias dos meus 20 anos de reportagem, para que a gente possa refletir juntos sobre o que acho mais importante no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o: olhar para enxergar al\u00e9m do \u00f3bvio e escutar sem preconceitos.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a busca por personagens an\u00f4nimos, uma marca de suas reportagens?<\/strong><br \/>\nEu me interesso pela vida supostamente comum. Sempre me interessei. Acho curioso que o homem comum seja o material da literatura, mas quase nunca do jornalismo. Mesmo no caso de celebridades e gente importante, me interessa mais nelas o que as aproxima de todos n\u00f3s do que aquilo que as afasta. Sou mais uma rep\u00f3rter dos &#8220;desacontecimentos&#8221;. Acho mais interessante os pais que n\u00e3o jogam os filhos pela janela, por exemplo, do que aqueles que jogam. Meus personagens est\u00e3o em toda parte. Se voc\u00ea for analisar cada mat\u00e9ria minha, vai ver que a maioria fala do que sempre esteve ali, diante dos nossos olhos. Apenas tento olhar para o mundo e para as pessoas com um olhar de d\u00favida. Acho que duvidar deveria ser o verbo preferencial de cada rep\u00f3rter. Devemos come\u00e7ar cada mat\u00e9ria duvidando das nossas pr\u00f3prias certezas. Nesse sentido, ao escrever preferencialmente sobre pessoas an\u00f4nimas, tento tamb\u00e9m fazer uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa: o que \u00e9 not\u00edcia, por que isto e n\u00e3o aquilo \u00e9 not\u00edcia, e quem decide o que \u00e9 ou n\u00e3o not\u00edcia? Eu acredito profundamente que toda vida \u00e9 extraordin\u00e1ria. N\u00e3o existem vidas comuns, s\u00f3 olhos domesticados. \u00c0s vezes, os nossos.<\/p>\n<p><strong>A seu ver, o jornalismo dos dias de hoje carece de sensibilidade?<br \/>\n<\/strong>Eu n\u00e3o gosto muito de falar &#8220;do jornalismo dos dias de hoje&#8221;. Porque eu ou\u00e7o isso desde os dias de ontem. Quando eu iniciei na profiss\u00e3o, h\u00e1 mais de 20 anos, j\u00e1 se falava isso. Numa an\u00e1lise um pouco mais hist\u00f3rica, \u00e9 claro que tivemos momentos piores e outros melhores. Casos emblem\u00e1ticos de melhor reportagem, como a revista Realidade, e epis\u00f3dios tristes, como os da censura no per\u00edodo da ditadura. Mas, de um modo geral, acho que sempre se fez mau e bom jornalismo, simultaneamente. Antes e hoje. E bom jornalismo, claro, \u00e9 aquele que requer sensibilidade, respeito e envolvimento. Sempre achamos que falta sensibilidade &#8211; e \u00e9 verdade, falta. Mas todas essas reflex\u00f5es, como a que o pr\u00f3prio congresso da Abraji proporciona, mostram que h\u00e1 muita gente preocupada em fazer um trabalho melhor, em contar melhor a hist\u00f3ria cotidiana do pa\u00eds, porque \u00e9 isso que fazemos. Eu sou uma otimista.<\/p>\n<p><strong>Qual reportagem de sua autoria voc\u00ea elegeria como aquela que mais lhe marcou? Por qu\u00ea?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 muito dif\u00edcil escolher. Sou o resultado de todas elas. Foram elas as minhas circunst\u00e2ncias. Minha primeira grande reportagem, que foi refazer a marcha da Coluna Prestes, em 1993, foi a grande escola. Nela, conheci o Brasil e conheci a mim mesma nesse caminho. Ao longo da minha trajet\u00f3ria, vivi experi\u00eancias incr\u00edveis com os ianom\u00e2mis e os macuxis de Roraima, com as popula\u00e7\u00f5es da Transamaz\u00f4nica, com os Raimundos da Terra do Meio, talvez a viagem mais inacredit\u00e1vel da minha vida. Tive grandes momentos com as parteiras da floresta, com os velhos num asilo, com a fam\u00edlia do Lula, com o pessoal da Cooperifa, com um morador de rua chamado Ti\u00e3o Nicomedes, com um desempregado chamado Pankinha. Quando fazia a coluna de reportagem chamada &#8220;A vida que ningu\u00e9m v\u00ea&#8221;, na Zero Hora, que depois virou livro, a experi\u00eancia me transformou. Me descobri atrav\u00e9s daqueles personagens, eles me ensinaram a olhar. A mat\u00e9ria em que acompanhei uma mulher extraordinariamente comum, nos \u00faltimos 115 dias da vida dela, foi um dos momentos mais radicais de reportagem que vivi. Mudou toda a minha rela\u00e7\u00e3o com a morte e, por conseq\u00fc\u00eancia, minha rela\u00e7\u00e3o com a vida. Eu sou visceral, intensa. Ser rep\u00f3rter para mim n\u00e3o \u00e9 apenas uma profiss\u00e3o, \u00e9 um jeito de estar no mundo. Ent\u00e3o, para mim, a reportagem s\u00f3 aconteceu, de verdade, se ela transforma, de algum modo, a mim e aos personagens.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre o 4\u00ba Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo,\u00a0nos dia\u00a09 a 11 de julho, em S\u00e3o Paulo, visite o site da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.abraji.org.br\/\" target=\"_blank\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo<\/a>, promotora do evento.<\/p>\n[Entrevista produzia pela assessoria da Abraji.]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eliane Brum \u00e9 uma das mais premiadas jornalistas brasileiras. 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