{"id":10252,"date":"2010-10-10T21:51:23","date_gmt":"2010-10-11T00:51:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=10252"},"modified":"2010-10-10T21:51:23","modified_gmt":"2010-10-11T00:51:23","slug":"peixe-na-agua-uma-boa-sugestao-de-leitura-para-dilma-e-serra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/10\/10\/peixe-na-agua-uma-boa-sugestao-de-leitura-para-dilma-e-serra\/","title":{"rendered":"&#8220;Peixe na \u00e1gua&#8221;, de Mario Vargas Llosa: boa sugest\u00e3o de leitura para Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Serra"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/Mel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-10253\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/Mel-300x371.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"371\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/Mel-300x371.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/Mel-120x148.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/Mel.jpg 476w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ao tempo em que candidatos disputam para ver quem \u00e9 mais beato; quem \u00e9 mais contra a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto (pelo hist\u00f3rico, ambos s\u00e3o a favor, mais os dois candidatos negam); ao tempo em e que a religi\u00e3o assume papel preponderante na elei\u00e7\u00e3o presidencial brasileira \u2013 e aproveitando que Mario Vargas Llosa foi vencedor do Pr\u00eamio Nobel de Literatura reli <strong>Peixe na \u00e1gua<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um livro de mem\u00f3rias, talvez um dos menos comentados do  escritor, com justi\u00e7a laureado com o maior pr\u00eamio mundial de literatura.<\/p>\n<p>Nele, com a destreza habitual, Vargas Llosa conta como foi a sua candidatura, em 1990, \u00e0 Presid\u00eancia do Peru, que ele perdeu para Alberto Fujimori, de triste mem\u00f3ria (ele e alguns de seus assessores foram condenados e presos, acusados desde corrup\u00e7\u00e3o, passando por assassinatos e viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos).<\/p>\n<p><strong>Faria bem se Dilma Rousseff (PT) e Jos\u00e9 Serra (PSDB) lessem o livro. <\/strong><\/p>\n<p>Eles veriam com que dignidade Vargas Llosa se portou quando seu advers\u00e1rio foi acusado de ser menos peruano do que ele, pela ascend\u00eancia japonesa de Fujimori. Vargas Llosa deu declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e discursou contra a discrimina\u00e7\u00e3o que pesava contra Fujimori. Proibiu seus partid\u00e1rios de fazerem ataques racistas e discriminat\u00f3rios ao advers\u00e1rio, no que teve pouco sucesso, ele mesmo revela.<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es no Peru<\/strong><\/p>\n<p>Mostra como se portou quando quiserem transformar a elei\u00e7\u00e3o em uma guerra religiosa, com os advers\u00e1rios acusando-o de \u201cate\u00edsmo\u201d. (Estranhamente, ele, um agn\u00f3stico, era visto como a salva\u00e7\u00e3o pela hierarquia cat\u00f3lica peruana, acuada pelo avan\u00e7o dos evang\u00e9licos, que se perfilaram, em sua maioria com Fujimori.)<\/p>\n<p>E via, com horror, a disputa eleitoral \u201cadotando uma fisionomia de guerra religiosa, em que os ing\u00eanuos temores, os preconceitos e as armas limpas se misturavam aos sujos golpes baixos e \u00e0s mais p\u00e9rfidas manobras, de um e outro lado, a extremos que beiravam a farsa e o surrealismo\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele faz uma impiedosa an\u00e1lise do sistema pol\u00edtico peruano, que serve para toda a Am\u00e9rica Latina e tamb\u00e9m para pa\u00edses de outros continentes.<\/p>\n<p><strong>Liberdade<\/strong><\/p>\n<p>Vargas Llosa n\u00e3o poupa nem mesmo o Liberdade, movimento criado por ele e alguns partid\u00e1rios. O Movimento Liberdade era radicalmente liberal com um conjunto de propostas \u201cneoliberais\u201d.<\/p>\n<p>Relata como os oportunistas \u201ccom uma pequena corte ou s\u00e9quito de parentes, amigos e protegidos\u201d se apresentavam a ele \u201ccomo dirigentes populares\u201d, trocando de ideologia e partido como \u201cquem muda de camisa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEram sempre eles que, depois das manifesta\u00e7\u00f5es, tentavam carregar-me nos ombros \u2013 costume rid\u00edculo, imita\u00e7\u00e3o dos toureiros, de que cheguei a ser obrigado a defender-me a pontap\u00e9s (&#8230;) Lidar com caciques, tolerar os caciques, servir-me dos caciques, foi coisa que jamais soube fazer\u201d (p\u00e1g. 165)<\/p>\n<p>E viu, na campanha do segundo turno, \u201cos n\u00edveis de imund\u00edcies em que tanto os meus partid\u00e1rios como meus advers\u00e1rios haveriam de incorrer\u201d.<\/p>\n<p>De b\u00f4nus, intercalando cap\u00edtulos com o relato das elei\u00e7\u00f5es, suas mem\u00f3rias mais antigas.<\/p>\n<p>Vou transcrever alguns trechos do livro (edi\u00e7\u00e3o de 1993, da Companhia das Letras). Leia a seguir.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Mobiliza\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDepois, em janeiro de 1990, quando dever\u00edamos ter retomado a campanha de id\u00e9ias, vimo-nos a bra\u00e7os com a formid\u00e1vel mobiliza\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria de descr\u00e9dito voltada para a desvirtua\u00e7\u00e3o de nossas propostas com ataques \u00e0 minha pessoa, apresentando-me como porn\u00f3grafo, incestuoso, c\u00famplice dos assassinos de Uchuraccay, sonegador de impostos e v\u00e1rios horrores mais.\u201d (p\u00e1g. 364)<\/p>\n<p><strong>Porn\u00f3grafo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cUm delas [as manobras dos advers\u00e1rios] me apresentava como pervertido e porn\u00f3grafo: a prova disso seria meu romance Elogio da Madrasta, que foi lido inteiro, \u00e0 raz\u00e3o de um cap\u00edtulo por dia, pelo canal 7, do Estado, no hor\u00e1rio de audi\u00eancia m\u00e1xima.\u201d (p\u00e1g. 408)<\/p>\n<p><strong>Cavalo de batalha<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOutro cavalo de batalha da Apra [partido do governo] era meu \u2018ate\u00edsmo\u2019. \u2018Peruano! Voc\u00ea quer um ateu na presid\u00eancia do Peru?\u2019, interrogava uma clipe exibido pela televis\u00e3o onde aparecia um rosto semimonstruoso \u2013 o meu&#8230;\u201d (p\u00e1g. 409)<\/p>\n<p><strong>Peruanos<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1vamos discutindo [no comit\u00ea que funcionava em sua pr\u00f3pria casa] quando ouvi, na rua, que os manifestantes haviam come\u00e7ado a gritar slogans de colora\u00e7\u00e3o racista e nacionalista \u2013 \u2018M\u00e1rio sim \u00e9 peruano\u2019. \u2018Queremos um peruano\u2019, al\u00e9m de outros insultantes \u2013 e, indignado, sa\u00ed para falar com eles do terra\u00e7o de minha casa, com a ajuda de um megafone. Era inconceb\u00edvel que as pessoas que me apoiavam fizessem discrimina\u00e7\u00e3o entre os peruanos em raz\u00e3o da pele. [&#8230;] Era poss\u00edvel ser peruano sendo branco, \u00edndio, chin\u00eas, negro ou japon\u00eas. O engenheiro Fujimori era t\u00e3o peruano quanto eu.\u201d (p\u00e1g. 466)<\/p>\n<p><strong>Campanha negativa<\/strong><\/p>\n<p>\u201c[Quando a sua assessoria tenta convenc\u00ea-lo de que seria preciso uma campanha negativa contra Fujimori] Eu disse que s\u00f3 daria a minha aprova\u00e7\u00e3o \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es comprov\u00e1veis. Mas daquela reuni\u00e3o em diante pude intuir os escabrosos n\u00edveis de imund\u00edcies em que tanto os meus partid\u00e1rios como meus advers\u00e1rios haveriam de incorrer nas semanas subseq\u00fcentes.\u201d (p\u00e1g. 477)<\/p>\n<p><strong>Guerra religiosa<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA partir desse momento a luta eleitoral foi adotando uma fisionomia de guerra religiosa, em que os ing\u00eanuos temores, os preconceitos e as armas limpas se misturavam aos sujos golpes baixos e \u00e0s mais p\u00e9rfidas manobras, de um e outro lado, a extremos que beiravam a farsa e o surrealismo\u201d. (p\u00e1g. 483)<\/p>\n<p><strong>Impulsos obscuros<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDurante os dois meses de campanha para o segundo turno tentei resumir nossa proposta em algumas id\u00e9ias, que repeti, incansavelmente, da maneira mais simples e direta, sob um inv\u00f3lucro de imagens populares. Mas as pesquisas semanais foram mostrando com clareza cada vez maior que a imensa maioria tomava sua decis\u00e3o de voto por causa das pessoas e de impulsos obscuros, nunca por programas.\u201d (p\u00e1g. 174)<\/p>\n<p><strong>Circe<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMas, naquele ponto da campanha, eu j\u00e1 sabia que no Peru s\u00e3o raros os pol\u00edticos a quem essa Circe [bruxa] que \u00e9 a pol\u00edtica n\u00e3o transforma em porcos.\u201d (p\u00e1g. 408)<\/p>\n<p><strong>Aprendizado<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMuita coisa aprendi no processo eleitoral, e a pior delas foi descobrir que a crise peruana n\u00e3o devia ser medida apenas em termos de contrates, derrocada da institui\u00e7\u00f5es, aumento acelerado da viol\u00eancia; ao mesmo tempo tudo isso somado criara determinadas condi\u00e7\u00f5es nas quais o funcionamento da democracia passava a ser uma esp\u00e9cie de par\u00f3dia na qual os mais c\u00ednicos e espertos sempre levavam a melhor.\u201d (p\u00e1g. 504)<\/p>\n[Entret\u00edtulos de minha responsabilidade.]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao tempo em que candidatos disputam para ver quem \u00e9 mais beato; quem \u00e9 mais contra a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto (pelo hist\u00f3rico, ambos s\u00e3o a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[1781,1827],"class_list":["post-10252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-peixe-na-agua","tag-politica"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10252\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}