{"id":10494,"date":"2010-10-28T00:01:26","date_gmt":"2010-10-28T03:01:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=10494"},"modified":"2010-10-28T00:01:26","modified_gmt":"2010-10-28T03:01:26","slug":"senador-cristovam-buarque-defende-o-decrescimento-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/10\/28\/senador-cristovam-buarque-defende-o-decrescimento-feliz\/","title":{"rendered":"Senador Cristovam Buarque defende o &#8220;decrescimento feliz&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_10524\" style=\"width: 343px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a rel=\"attachment wp-att-10524\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/senador-cristovam-buarque-defende-o-decrescimento-feliz\/djoca-2\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10524\" class=\"size-full wp-image-10524\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/DJoca1.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"495\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/DJoca1.jpg 333w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/DJoca1-300x446.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/10\/DJoca1-120x178.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10524\" class=\"wp-caption-text\">*Foto de Drawlio Joca, da s\u00e9rie &quot;Periferia do C\u00edrio&quot;. Veja mais em http:\/\/www.flickr.com\/photos\/drawliojoca<\/p><\/div>\n<p>Meu artigo semanal publicado na edi\u00e7\u00e3o de 28\/10\/2010, no O POVO.<\/p>\n<p><strong>Decrescimento feliz<\/strong><\/p>\n<p>Pl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>\u00c9 interessante ser surpreendido por argumentos sobre o quais nunca se havia pensado. Aconteceu quando ouvi, pela R\u00e1dio Senado, um discurso do senador Cristovam Buarque (PDT-DF).<\/p>\n<p>Ele disse que estava na hora de se come\u00e7ar a debater o \u201cdecrescimento\u201d, pois, disse o senador, os maiores problemas que o mundo enfrenta hoje adv\u00eam do crescimento da economia. Segundo ele, nos c\u00edrculos intelectuais europeus j\u00e1 se espalha o conceito do \u201cdecrescimento feliz\u201d. \u201cA ideia de que \u00e9 poss\u00edvel, e at\u00e9 necess\u00e1rio, reduzir o crescimento da produ\u00e7\u00e3o material para que as pessoas possam viver mais felizes\u201d.<\/p>\n<p>Cristovam diz que o problema ambiental, o endividamento das pessoas, o aumento exagerado dos gastos p\u00fablicos s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancia do crescimento da economia a qualquer pre\u00e7o. E que essa \u201cbolha\u201d vai estourar.<br \/>\nPara ele, a grande pergunta n\u00e3o \u00e9 mais \u201ccomo crescer\u201d, mas \u201cqual (tipo) de crescimento\u201d queremos. Cristovam diz que a \u00e2nsia por crescimento tem de ser contestada, \u201cpelo menos no n\u00edvel do debate\u201d. O senador diz que \u201ca Europa inteira\u201d e os Estados Unidos est\u00e3o em crise, o que demonstraria  n\u00e3o apenas uma crise \u201cno modelo\u201d , mas a crise de \u201cum modelo\u201d de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ele d\u00e1 um exemplo para mostrar o \u201cabsurdo da irracionalidade\u201d, o fato de que toda vez que h\u00e1 um engarrafamento, aumenta o PIB.  \u201cCada litro queimado de gasolina, mesmo que n\u00e3o o leve de um lugar a outro, aumenta o PIB. Quanto mais desperd\u00edcio, mais aumenta o PIB. H\u00e1 alguma coisa errada nisso. E ningu\u00e9m v\u00ea.\u201d<\/p>\n<p>Cristovam levanta o assunto para dar um pux\u00e3o de orelha (ele tem autoridade para isso) nos candidatos a presidente, que se abstiveram do debate sobre quest\u00f5es ess\u00eancias para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quanto ao m\u00e9rito do que prop\u00f5e Cristovam, sobre o \u201cdecrescimento feliz\u201d, confesso n\u00e3o saber como isso seria poss\u00edvel, e nem ele disse no discurso. Mas que \u00e9 um debate estimulante, isso \u00e9.]\n<p><span style=\"color: #888888\">[*At\u00e9 o dia 30\/10\/10\/2010, 21h23min, por um equivoco cometido por mim mantive uma foto de Guga Pimentel como se fosse de Drawlio Joca, pelo que pe\u00e7o desculpas ao autor. O pr\u00f3prio Drawlio alertou-me do equ\u00edvoco.]<\/span><\/p>\n<p><strong>Veja o discurso completo do senador Cristovam Buarque.<\/strong><!--more--><\/p>\n<p><strong>[25\/10\/2010]<\/strong> O SR. <strong>CRISTOVAM BUARQUE (PDT \u2013 DF)<\/strong>. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revis\u00e3o do orador) \u2013  Sr. Presidente, Senador Acir Gurgacz, Senador Pedro Simon, Senadoras e Senadores, dentro de mais algumas horas, estar\u00e1 terminando o debate entre os dois candidatos a Presidente [ele se refere ao fim da campanha eleitoral], dois candidatos, \u00e9 preciso reconhecer, que s\u00e3o personalidades com hist\u00f3rias marcantes: hist\u00f3ria de luta contra o regime militar, os dois \u2013 um presente aqui, o outro, desde o primeiro momento, embora tenha ficado um tempo obrigado, for\u00e7ado no ex\u00edlio. Ambos tiveram posi\u00e7\u00f5es ativas em governos: um, Governador, Prefeito; a outra, Chefe da Casa Civil durante anos, Ministra durante anos.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos duas personalidades que v\u00eam, os dois, do bloco democr\u00e1tico, e eu at\u00e9 diria que v\u00eam do bloco das for\u00e7as progressistas no Brasil.<\/p>\n<p>Mas, lamentavelmente, a gente n\u00e3o est\u00e1 vendo o debate que deveria provocar o povo brasileiro a repensar o seu futuro: para onde vamos? O debate, no m\u00e1ximo, discute como avan\u00e7amos mais r\u00e1pido, mas n\u00e3o para onde avan\u00e7amos.<\/p>\n<p>E um dos exemplos disso, Senador Acir, \u00e9 como n\u00e3o se viu o debate a respeito dos aspectos de pol\u00edtica internacional. N\u00e3o se viu o debate sobre o Brasil no mundo global, que \u00e9 onde vamos estar nos pr\u00f3ximos anos e d\u00e9cadas. N\u00e3o houve esse debate. N\u00e3o houve o debate de qual \u00e9 o tipo de crescimento que vamos ter. Debateu-se como crescer mais. N\u00e3o houve o debate, por exemplo, da crise que vive o mundo de hoje. E \u00e9 sobre o que eu queria falar aqui.<\/p>\n<p>Quem leu os jornais nesses \u00faltimos dias percebe, como disse um jornalista hoje, que o mundo est\u00e1 em chamas: Portugal, Espanha, a Fran\u00e7a cheia de greves, a Gr\u00e9cia com manifesta\u00e7\u00f5es quase di\u00e1rias, a Alemanha em crise, a Inglaterra com o maior corte de gastos que j\u00e1 se viu na hist\u00f3ria. A Europa inteira est\u00e1 em crise. Os Estados Unidos j\u00e1 v\u00eam nessa crise desde 2008. A China ocupa um espa\u00e7o que ningu\u00e9m imaginava h\u00e1 vinte anos ou mesmo h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>Como disse o Ministro Mantega, numa express\u00e3o muito feliz que virou express\u00e3o internacional: n\u00f3s vivemos uma guerra cambial. Dependendo do que cada pa\u00eds faz com a sua moeda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, o Brasil sofre ou n\u00e3o sofre.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o entrou no debate.<\/p>\n<p>E n\u00e3o entrou, sobretudo, com a profundidade com que deveria, porque hoje esses pa\u00edses que est\u00e3o em crise est\u00e3o em crise de um modelo. N\u00e3o \u00e9 crise no modelo, n\u00e3o \u00e9 crise da taxa de c\u00e2mbio apenas, da taxa de juros apenas, do desemprego apenas: n\u00e3o \u00e9 uma crise de taxas, \u00e9 uma crise de concep\u00e7\u00e3o do modelo socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>Por exemplo, a crise, quando arrebentou nos Estados Unidos, era um problema de endividamento, era um problema financeiro. As pessoas endividadas n\u00e3o pagaram aos bancos e os bancos come\u00e7aram a quebrar. A\u00ed dizem: n\u00e3o, n\u00e3o foi porque as pessoas se endividaram, \u00e9 porque os bancos alavancaram empr\u00e9stimos mais do que o risco, sob controle, permitia. A\u00ed, vamos resolver essa crise financeira: vamos amarrar os bancos! S\u00f3 que, quando amarram os bancos, impedem a alavancagem, impedem que eles emprestem muito, impedem que as pessoas se endividem, a\u00ed, a economia cai, a produ\u00e7\u00e3o se reduz, o crescimento se estanca. Por qu\u00ea? Porque o motor do crescimento \u00e9 o endividamento.<\/p>\n<p>Um dos jornais de ontem dizia que 28 milh\u00f5es de brasileiros devem pelo menos R$5 mil. \u00c9 muito! Se a gente considera que o Brasil tem uma economia muito concentrada na renda, R$5 mil \u00e9 muito para 28 milh\u00f5es de pessoas! Isso pode quebrar em qualquer momento. Quando alguns come\u00e7arem a n\u00e3o pagar, outros n\u00e3o pagar\u00e3o, os bancos quebrar\u00e3o. \u00c9 uma bolha, como se chama atualmente, uma bolha que qualquer coisa estoura.<\/p>\n<p>Agora, vamos supor que a gente controle os bancos: a\u00ed, a venda de autom\u00f3veis cair\u00e1, porque n\u00e3o se compra carro sem financiamento.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 carro: \u00e9 casa, s\u00e3o alguns objetos dom\u00e9sticos. Os produtos que dinamizam a ind\u00fastria exigem financiamento. E financiamento for\u00e7a endividamento, e endividamento \u00e9 arriscado, muito arriscado, na vida de uma pessoa, de uma fam\u00edlia, e na vida de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ontem, provoquei um debate sobre isso e as pessoas disseram: \u201cMas n\u00e3o temos mais d\u00edvida externa.\u201d Temos uma imensa d\u00edvida interna do Governo, mas n\u00e3o \u00e9 essa a que mais me preocupa hoje: \u00e9 a d\u00edvida privada das fam\u00edlias brasileiras, para manterem o padr\u00e3o de consumo necess\u00e1rio para dinamizar a produ\u00e7\u00e3o. Veja a ordem que eu coloquei: o endividamento das fam\u00edlias para consumirem e, com isso, dinamizar a produ\u00e7\u00e3o, gerar emprego e voltar a provocar o consumo. Ent\u00e3o, quando a gente controla a crise financeira, a gente gera uma crise de crescimento.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A gente tem a conta dos gastos p\u00fablicos, de que na Inglaterra hoje se est\u00e1 cuidando. A Inglaterra decidiu resolver o problema dos gastos p\u00fablicos, que geram endividamento do Estado, que terminam gerando infla\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a, redu\u00e7\u00e3o no investimento. A\u00ed eles decidiram fazer um corte: cortaram tudo, at\u00e9 15% do dinheiro que financia a fam\u00edlia real. At\u00e9 a rainha Elizabeth est\u00e1 perdendo 15%! S\u00f3 n\u00e3o cortaram educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois bem, cortaram os gastos, o que vai acontecer? O crescimento vai diminuir, porque uma parte substancial do consumo \u00e9 o consumo do Estado, o Estado gastando para dinamizar a economia. Inclusive esta foi  a solu\u00e7\u00e3o s\u00e1bia do Brasil, em curto prazo, no Governo Lula, para n\u00e3o entrar na crise: gastar mais dinheiro p\u00fablico, aumentar o financiamento pelos bancos estatais. Com isso, dinamizaram-se as compras, as vendas e, portanto, a produ\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que, ao cortar os gastos p\u00fablicos, voc\u00ea reduz o crescimento. E \u00e9 isto que vai acontecer agora na Inglaterra ao controlar os gastos p\u00fablicos: vai haver, provavelmente, uma redu\u00e7\u00e3o na taxa de crescimento. O aumento da confian\u00e7a do investidor talvez n\u00e3o seja suficiente para aumentar investimentos e produ\u00e7\u00e3o se n\u00e3o h\u00e1 quem compre. Ent\u00e3o, o problema cai no crescimento.<\/p>\n<p>Tomemos um outro problema: o problema ambiental. Todo mundo sabe que temos uma crise ambiental, que estamos caminhando para o aquecimento global, para a depreda\u00e7\u00e3o da natureza, que vai afetar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, o pre\u00e7o dos alimentos, at\u00e9 mesmo podendo gerar fome. Vamos controlar a produ\u00e7\u00e3o para garantir o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Quem vai pagar o pato? O crescimento.<\/p>\n<p>Por isso, quero dizer \u2013 e a gente n\u00e3o v\u00ea esse debate entre os candidatos \u2013 que o problema est\u00e1 no crescimento. \u00c9 o crescimento que provoca, porque exige o endividamento, \u00e9 o crescimento que provoca a crise ambiental. \u00c9 o crescimento que, para ocorrer, exige gastos p\u00fablicos desde a \u00e9poca de Keynes, 70, 80 anos atr\u00e1s. Est\u00e1 no crescimento, mas ningu\u00e9m ouve falar que o crescimento \u00e9 um problema. A gente s\u00f3 ouve dizer que o crescimento \u00e9 uma necessidade e que temos de ampliar, aumentar a taxa de crescimento. Ningu\u00e9m diz que o crescimento \u00e9 o problema, porque isso levaria a defender a posi\u00e7\u00e3o que certamente \u00e9 um desastre eleitoral: a ideia, que come\u00e7a a tomar conta de diversos grupos intelectuais europeus, ainda n\u00e3o grupos pol\u00edticos, da defesa de decrescimento feliz. \u00c9 assim que eles chamam: decrescimento feliz. A ideia de que \u00e9 poss\u00edvel, e at\u00e9 necess\u00e1rio, reduzir o crescimento da produ\u00e7\u00e3o material para que as pessoas possam viver mais felizes, Senador Pedro Simon.<\/p>\n<p>O problema do endividamento est\u00e1 no crescimento. O problema ambiental est\u00e1 no crescimento. O problema dos gastos p\u00fablicos est\u00e1 no crescimento. Sem o crescimento, isso n\u00e3o ocorreria. Mas ningu\u00e9m debate o crescimento. Ningu\u00e9m discute que o crescimento precisa ser contestado pelo menos no n\u00edvel do debate, o que \u00e9 o mesmo que dizer \u201cqual crescimento\u201d e n\u00e3o \u201ccomo crescer\u201d. A pergunta \u00e9 como crescer e n\u00e3o a que deveria: qual o crescimento.<\/p>\n<p>E volto a dizer: n\u00e3o vi um candidato que seja tocar, nem de leve, em tema perigoso eleitoralmente, mas necess\u00e1rio, do ponto de vista do futuro do Brasil: essa ideia que toma conta da Europa aos poucos, nos meios intelectuais, de decrescimento como objetivo, decrescimento ampliando o bem-estar, decrescimento da produ\u00e7\u00e3o, aumentando a satisfa\u00e7\u00e3o das pessoas, aumentando a felicidade.<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo: a ind\u00fastria automobil\u00edstica. N\u00f3s comemoramos quando aumenta a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3vel privado. Vamos analisar o que isto significa: primeiro, endividamento, porque n\u00e3o se vende autom\u00f3vel sem d\u00edvida; segundo, engarrafamentos, porque n\u00e3o h\u00e1 como aumentar o n\u00famero de carros sem engarrafamentos. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro que chegue para mudar a infraestrutura de um pa\u00eds, de uma cidade, na velocidade com que aumenta o n\u00famero de carros.<\/p>\n<p>E n\u00e3o esque\u00e7amos que, para aumentar o sistema vi\u00e1rio, para absorver o n\u00famero crescente de carros, aumenta-se o gasto p\u00fablico e diminui-se o investimento em \u00e1gua, em saneamento, em educa\u00e7\u00e3o, em sa\u00fade. N\u00e3o h\u00e1 como voc\u00ea fazer uma estrada e um hospital. Voc\u00ea s\u00f3 pode gastar um saco de cimento uma vez. N\u00e3o existe milagre de repeti\u00e7\u00e3o de sacos de cimento. J\u00e1 houve milagre de peixes, j\u00e1 houve milagre de p\u00e3o, mas de cimento \u00e9 imposs\u00edvel. N\u00f3s n\u00e3o temos como usar duas vezes um saco de cimento: ou estrada ou escola. A\u00ed dizem: \u201cN\u00e3o, vamos fazer as duas!\u201d A\u00ed gera-se o problema ambiental. Para fazer dois sacos, em vez de um de cimento, voc\u00ea gera uma crise ambiental, por causa da energia que \u00e9 necess\u00e1rio utilizar. Da\u00ed a ideia de que a gente pode fazer a popula\u00e7\u00e3o mais feliz com menos carros.<\/p>\n<p>Senador Pedro Simon, n\u00e3o h\u00e1 nenhum exemplo mais absurdo da irracionalidade em que a gente vive do que o fato de lembrar que, toda vez que a gente tem um engarrafamento monumental, o PIB aumenta. Cada litro queimado de gasolina, mesmo que n\u00e3o o leve de um lugar a outro, aumenta o PIB. Quanto mais desperd\u00edcio, mais aumenta o PIB. H\u00e1 alguma coisa errada nisso. E ningu\u00e9m v\u00ea esse debate entre os candidatos a Presidente.<\/p>\n<p>A Senadora Marina tangenciou um pouco isso, falou um pouco nisso; ela falou da necessidade de mudar o modelo, ela falou no que a gente precisava se ajustar e n\u00e3o mais ficar procurando s\u00f3 o crescimento, mas tamb\u00e9m procurando o bem-estar, a felicidade, que pode vir do aumento da produ\u00e7\u00e3o de bens imateriais que n\u00e3o poluem, que n\u00e3o geram a crise ambiental; do aumento da produ\u00e7\u00e3o de bens de interesse p\u00fablico, que n\u00e3o exigem o endividamento privado.<\/p>\n<p>O senhor mesmo entende bem disso. Um sistema de transporte p\u00fablico \u00e9 muito mais eficiente de que basear o transporte de pessoas no autom\u00f3vel privado. Mas fale isso e \u00e9 derrota certa, porque as pessoas n\u00e3o querem debater. E a n\u00e3o debater, a gente vai sequestrando o futuro do Pa\u00eds. O futuro do Pa\u00eds est\u00e1 sequestrado pela incapacidade do debate eleitoral colocar na pauta os grandes problemas de longo prazo e globais do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>E a\u00ed a grande trag\u00e9dia da democracia. A democracia, que \u00e9 o \u00fanico sistema que merece ser defendido, \u00e9 um sistema provinciano \u2013 o seu pa\u00eds, n\u00e3o o planeta \u2013 e de curto prazo: a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem como ganhar-se elei\u00e7\u00e3o falando para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vota; nem para o mundo inteiro, que tamb\u00e9m n\u00e3o vota dentro de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos amarrados \u2013 mais uma vez o verbo \u2013, sequestrados. N\u00f3s estamos sequestrados pelo curto prazo e pelo provincianismo ou nacionalismo, se quiser, do ponto de vista de olhar s\u00f3 aqui para dentro, sem perceber que a dimens\u00e3o dos nossos problemas \u00e9 maior do que n\u00f3s somos. \u00c9 o mundo inteiro que traz e que leva nossos problemas. A gente n\u00e3o v\u00ea o mundo no debate dos presidenci\u00e1veis.<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o v\u00ea o aspecto da globaliza\u00e7\u00e3o sendo debatido neste processo eleitoral. A gente n\u00e3o v\u00ea o tema sobre o tipo de desenvolvimento que n\u00f3s queremos. Antigamente dizia-se: \u00e9 preciso desenvolvimento com distribui\u00e7\u00e3o de renda. N\u00e3o \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o de renda que vai mudar o modelo, apenas vai distribuir esse modelo mais, e a\u00ed vai trazer outros problemas, como meio ambiente, como endividamento crescente, sobre o qual aqui, ali\u00e1s, quem mais falou sempre foi o Senador M\u00e3o Santa. H\u00e1 cinco anos ele trazia o problema do endividamento dos brasileiros, que \u00e9 onde pode estourar a bolha do nosso crescimento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Senador, eu quero usar esta tribuna, como usei at\u00e9 aqui e n\u00e3o vou continuar, para dizer que \u00e9 uma pena que no debate presidencial que est\u00e1 terminando daqui a umas horas \u2013 72 horas, eu creio \u2013 tenhamos perdido a chance de debater grandes temas nacionais, tenhamos ficado at\u00e9 abaixo dos temas pequenos. N\u00f3s ficamos num debate t\u00e3o baixo que eu diria que foi subterr\u00e2neo, porque nem os problemas pequenos a gente debateu. A gente debateu n\u00e3o temas, porque n\u00e3o tem a ver com o Presidente da Rep\u00fablica, como \u00e9 o caso do aborto, que n\u00e3o tem a ver com todos os brasileiros, como o tema da religiosidade. \u00c9 um Pa\u00eds que tem tantas religi\u00f5es&#8230; N\u00f3s perdemos essa oportunidade.<\/p>\n<p>Falo hoje porque n\u00e3o h\u00e1 mais tempo de recuperar. O debate est\u00e1 terminando.<\/p>\n<p>Temos que esperar agora quatro anos para que, gra\u00e7as a esta maravilha que \u00e9 a democracia, com todos os seus problemas no mundo de hoje, se possa ter um debate mais profundo, mais amplo, mais consistente \u2013 e eu vou usar a express\u00e3o \u201cmais radical\u201d \u2013; um debate mais radical, de qual \u00e9 o Brasil que a gente quer para o futuro. O que est\u00e1 a\u00ed n\u00e3o \u00e9 o Brasil que a gente quer. O que est\u00e1 a\u00ed, mesmo que d\u00ea certo como se prop\u00f5e, o crescimento puro e simples, n\u00e3o vai ser bom, vai trazer problemas embutidos, como a Europa est\u00e1 vivendo. N\u00e3o esque\u00e7amos que a Europa \u00e9 o sonho da gente, e \u00e9 um sonho que n\u00e3o vale a pena repetir, porque \u00e9 um sonho que est\u00e1 em chamas, neste momento, na Inglaterra, em Portugal, na Fran\u00e7a, na Gr\u00e9cia. E n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o do capitalismo, porque a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m viveu at\u00e9 mais essa crise do que os pa\u00edses do Ocidente capitalista.<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos de um debate mais profundo. Quem sabe \u2013 e talvez seja um excesso de otimismo \u2013 a gente possa fazer esse debate aqui, Senador Pedro Simon, ao longo do pr\u00f3ximo ano. Quem sabe, talvez os candidatos a Presidente se negaram a fazer isso, ou por um sentido de oportunidade de que isso n\u00e3o importa na elei\u00e7\u00e3o, ou porque n\u00e3o estavam preparados para dar esse salto. Vamos n\u00f3s, pelo menos, tentarmos aqui. Porque se nem n\u00f3s fizermos, a\u00ed, sim, poderemos despertar um dia dizendo: agora, j\u00e1 n\u00e3o adianta mais debater porque o estrago est\u00e1 feito, como se diz vulgarmente.<\/p>\n<p>Era isso, Senador, que eu queria colocar e, apesar de tudo isso, o meu otimismo de que o novo Governo, qualquer que ele venha a ser, sempre \u00e9 uma grande oportunidade para o Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu artigo semanal publicado na edi\u00e7\u00e3o de 28\/10\/2010, no O POVO. 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