{"id":11455,"date":"2011-01-11T12:15:32","date_gmt":"2011-01-11T15:15:32","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=11455"},"modified":"2011-01-11T12:15:32","modified_gmt":"2011-01-11T15:15:32","slug":"o-pig-e-uma-fantasia-por-lucio-flavio-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/01\/11\/o-pig-e-uma-fantasia-por-lucio-flavio-pinto\/","title":{"rendered":"&#8220;O PIG \u00e9 uma fantasia&#8221;, por L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto"},"content":{"rendered":"<p>Pelo que pode ensinar sobre jornalismo &#8211; e algumas coisas mais &#8211; reproduzo abaixo o artigo do jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto, reproduzido do <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/index.asp\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0000ff\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/span><\/a> (n\u00ba 624), que por sua vez o reproduziu do Jornal Pessoal (n\u00ba 479).<\/p>\n<p>Quem quiser saber mais sobre L\u00facio Fl\u00e1vio, veja no perfil do <strong><a href=\"http:\/\/www.lucioflaviopinto.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0000ff\">Jornal Pessoal<\/span><\/a><\/strong>, editado pelo jornalista. O texto mas vale cada linha.<\/p>\n<p><strong>O PIG \u00e9 uma fantasia<\/strong><br \/>\nL\u00facio Fl\u00e1vio Pinto<\/p>\n<p>A express\u00e3o PIG (Partido da Imprensa Golpista), inventada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, circula h\u00e1 meses como dogma da verdade pela rede mundial de computadores. Seu efeito deve ter sido significativo. N\u00e3o entre pessoas mais maduras e mais bem informadas, mas entre os jovens e desavisados. Se muitos desses destinat\u00e1rios da mensagem ainda pensavam em ler jornais da grande imprensa, devem ter desistido. Os que continuam a freq\u00fcentar suas p\u00e1ginas devem l\u00ea-las agora com total ceticismo. Os cr\u00edticos e advers\u00e1rios das empresas jornal\u00edsticas radicalizaram suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que a imprensa escrita convencional sofre a concorr\u00eancia de m\u00eddias mais r\u00e1pidas e acess\u00edveis, o dano pode ser profundo, agravando o preju\u00edzo econ\u00f4mico (os anunciantes dos Estados Unidos pela primeira vez, neste ano, colocaram mais dinheiro na internet do que nos impressos). A perda maior \u00e9 para a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, para a maior circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es com qualidade para fundamentar posi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e gerar verdadeiros cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Mesmo jornais ruins devem ser lidos. Estimular ou induzir que sejam ignorados \u00e9 desservir a democracia, a pretexto de fomentar a cr\u00edtica e combater as elites. A sociedade est\u00e1 cada vez mais repleta de cr\u00edticos, que n\u00e3o vacilam quando expressam opini\u00f5es ou emitem ju\u00edzos definitivos, verdadeiras senten\u00e7as. Mas que n\u00e3o sabem explicar por que s\u00e3o contra. Principalmente por desconhecerem o conte\u00fado do que criticam ou rejeitam. S\u00e3o personagens pat\u00e9ticos de Oswald de Andrade: n\u00e3o leram e n\u00e3o gostaram.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Biombos invis\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Para que se interessar pelo autor fulano de tal se ele \u00e9 reacion\u00e1rio? Por que dar aten\u00e7\u00e3o ao jornal de sicrano se ele representa a burguesia? Como crer nesses ve\u00edculos de express\u00e3o se seus donos est\u00e3o comprometidos com a perversa classe dominante, da qual fazem parte \u2013 e parte extremamente ativa? S\u00e3o os inimigos do povo, como os que L\u00eanin estigmatizou num panfleto famoso.<\/p>\n<p>Desde os bancos escolares, gra\u00e7as \u00e0 nova geografia, \u00e0 nova sociologia e outras formas reducionistas do saber, novas gera\u00e7\u00f5es se tornam auto-suficientes gra\u00e7as ao estoque de conceitos fechados que lhes s\u00e3o repassados, sobretudo por professores progressistas. T\u00eam defini\u00e7\u00f5es para cada situa\u00e7\u00e3o ou personagem, rapidamente rotulado de reacion\u00e1rio ou de revolucion\u00e1rio, de elemento do progresso ou do status quo, de bisonho ou instigante.<\/p>\n<p>O r\u00f3tulo \u00e9 afixado sem a necessidade de se conhecer o produto. \u00c9 como se uma iman\u00eancia superficial dissesse tudo sobre o que est\u00e1 por dentro \u2013 da pessoa ou do acontecimento \u2013 prescindindo a penetra\u00e7\u00e3o no estofo da coisa.<\/p>\n<p>Esse antiintelectualismo, forjado como sendo a pedra de toque da verdade, \u00e9 erigido em nome da hist\u00f3ria. Na verdade, por\u00e9m, \u00e9 a complexidade da hist\u00f3ria, enquanto sucess\u00e3o de eventos, e dos homens como realidades espec\u00edficas, complexas e inesgot\u00e1veis, o que esse novo milenarismo nega.<\/p>\n<p>O conceito de PIG se insere nessa onda de barb\u00e1rie intelectual com apar\u00eancia de causa justa e her\u00f3ica. Por quase toda vida tenho sido jornalista. Passei por algumas das maiores empresas jornal\u00edsticas do pa\u00eds. Nunca fui demitido. Sa\u00ed de todas voluntariamente. Em todas armei confus\u00e3o, briguei, fiz inimizades, sa\u00ed, voltei. At\u00e9 1989 sempre houve espa\u00e7o para esses conflitos e para a volta.<\/p>\n<p>Naquele ano decidi que o espa\u00e7o que me cabia na grande imprensa j\u00e1 n\u00e3o me satisfazia, depois de 21 anos de trabalho cont\u00ednuo nos ditos jornal\u00f5es. Armei minha trincheira no Jornal Pessoal, de onde miro na dire\u00e7\u00e3o das empresas jornal\u00edsticas, mostrando seus bastidores, os biombos invis\u00edveis dos seus interesses, as hist\u00f3rias que n\u00e3o contam, manipulam ou ocultam. Mas continuo lendo com algum prazer e bastante proveito o que produzem. Sem essa produ\u00e7\u00e3o o meu conhecimento se empobreceria. E eu me veria privado de um dos temas que me \u00e9 mais caro.<\/p>\n<p><strong>Amigo \u00edntimo<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m dos sal\u00e1rios quase sempre baixos (embora, pessoalmente, a partir de certo momento, n\u00e3o tivesse mais do que me queixar), o maior problema com que me defrontei nas empresas jornal\u00edsticas era a interfer\u00eancia dos donos, uma inconveni\u00eancia que persiste. Este \u00e9 um ponto cr\u00edtico e grave, sobre o qual todas as luzes s\u00e3o necess\u00e1rias. Houve uma degeneresc\u00eancia no comando das organiza\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas.<\/p>\n<p>No caso das empresas familiares, quase por conta da gen\u00e9tica. O sucessor do fundador, ou do filho do fundador, sucede-o por conta da genealogia, mas nem sempre est\u00e1 preparado para assumir a fun\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o tem a menor afinidade com o jornalismo. Alguns nem mesmo sabem se expressar, tornando-se intelig\u00edveis \u2013 por escrito ou oralmente.<\/p>\n<p>Para eles, a quest\u00e3o editorial \u00e9 um neg\u00f3cio como outro qualquer. Est\u00e3o dispostos a vender opini\u00e3o como se vende salsicha, ou banana. Aos seus olhos, uma reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que uma quitanda. N\u00e3o se pode esperar deles que tenham uma atitude compat\u00edvel com o car\u00e1ter muito especial do empreendimento que chefiam. Por isso, devem ser muito bem rastreados.<\/p>\n<p>Sempre que se desviarem da fun\u00e7\u00e3o que lhes cabe na sociedade ou sujeitarem a natureza da atividade editorial ao neg\u00f3cio comercial, \u00e0 conveni\u00eancia pol\u00edtica ou ao interesse meramente pessoal, devem ser submetidos \u00e0 controv\u00e9rsia. \u00c9 o que eles mais temem e rejeitam: ter que se explicar, ser expostos em pra\u00e7a p\u00fablica, descer do pedestal, tomar consci\u00eancia de que seu poder n\u00e3o \u00e9 absoluto nem seu umbigo \u00e9 o v\u00e9rtice do mundo.<\/p>\n<p>Quando decai minha cren\u00e7a na import\u00e2ncia do jornal impresso, mesmo na sociedade digital do nosso tempo, remexo os arquivos em busca de momentos que criaram essa convic\u00e7\u00e3o mais \u00edntima na for\u00e7a da palavra bem escrita, no seu estilo e no seu conte\u00fado. Algumas pe\u00e7as do passado continuam a servir de inspira\u00e7\u00e3o para nossos atos de hoje.<\/p>\n<p>Em qual jornal encontrar\u00edamos, por exemplo, esta nota, publicada no Correio da Manh\u00e3 de 1957:<\/p>\n<p>&#8220;Solicitado pelo Correio da Manh\u00e3, por telefone, para dar informa\u00e7\u00e3o sobre assunto da Petrobr\u00e1s, o cel. Janari Nunes respondeu ao rep\u00f3rter em termos possessos. Gerente dos dinheiros p\u00fablicos, como presidente que \u00e9 de uma companhia estatal, em grande parte alimentada por capital subscrito compulsoriamente, o Sr. Janari Nunes tem obriga\u00e7\u00e3o de responder ao que lhe perguntar a imprensa, e responder como homem p\u00fablico. Vamos process\u00e1-lo por inj\u00faria e cal\u00fania. Esperamos que o pte. da Petrobr\u00e1s repita em ju\u00edzo \u2013 para em seguida prov\u00e1-las \u2013 as inf\u00e2mias que disse ao rep\u00f3rter do Correio da Manh\u00e3&#8221;.<\/p>\n<p>Antes, em 1949 (no mesmo ano em que vim ao mundo), o dono do Correio, Paulo Bittencourt, teve que demitir Carlos Lacerda, que escrevia uma coluna de grande apelo, a Tribuna da Imprensa (t\u00edtulo que o futuro governador da ent\u00e3o Guanabara levaria para seu pr\u00f3prio jornal). O filho do fundador do jornal, Edmundo Bittencourt, descansava em Arax\u00e1 (uma das est\u00e2ncias minerais preferidas dos ricos), quando leu duas colunas de Lacerda denunciando o favorecimento da fam\u00edlia Soares Sampaio pelo presidente Dutra. Paulo vetou a continua\u00e7\u00e3o dos artigos porque Sampaio era seu amigo \u00edntimo de longa data. Lacerda n\u00e3o concordou em interromper a s\u00e9rie e se demitiu.<\/p>\n<p><strong>Lembran\u00e7a necess\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Quantas vezes isso n\u00e3o ocorre numa reda\u00e7\u00e3o? S\u00f3 que no Correio da Manh\u00e3 mesmo a vontade do dono n\u00e3o era absoluta. Ele devia dar explica\u00e7\u00f5es ao leitor e ao jornalista atingido. Carlos Lacerda pediu que o jornal publicasse uma nota no dia seguinte e Paulo Bittencourt o atendeu. A nota come\u00e7a anunciando:<\/p>\n<p>&#8220;M\u00e1 not\u00edcia: Carlos Lacerda deixou de colaborar neste jornal. Que nos far\u00e1 falta sua colabora\u00e7\u00e3o \u2013 ardente, pessoal, um pouco rom\u00e2ntica e subjetiva, mas sempre corajosa e honesta \u2013 n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida&#8221;.<\/p>\n<p>O dono do jornal informava que decidira suspender a s\u00e9rie de artigos de Lacerda porque prejudicavam &#8220;amigos meus que eram descritos nas colunas do meu jornal de um modo inteiramente oposto ao ju\u00edzo que eu pessoalmente fa\u00e7o deles. Justo? Injusto? N\u00e3o sei e n\u00e3o importa. Carlos Lacerda magoou-se comigo, e dentro do seu ponto de vista, n\u00e3o lhe nego raz\u00e3o. Ele, por\u00e9m, no meu lugar, faria o mesmo. Perdemos ambos, creio eu&#8221;.<\/p>\n<p>Bittencourt exerceu a sua condi\u00e7\u00e3o de dono do jornal, mas levou na devida considera\u00e7\u00e3o o fato de que o Correio da Manh\u00e3 era um jornal \u2013 e dos melhores que j\u00e1 houve no Brasil, o mais influente de 1901, quando surgiu, at\u00e9 poucos anos antes de ser assassinado, em 1974 \u2013 e n\u00e3o uma quitanda. Imp\u00f4s a sua vontade, mas pagou a prenda: dividiu o assunto com os leitores.<\/p>\n<p>Lembro o epis\u00f3dio para que os justiceiros do PIG tenham uma refer\u00eancia melhor sobre o jornalismo do que a realidade que combatem agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo que pode ensinar sobre jornalismo &#8211; e algumas coisas mais &#8211; reproduzo abaixo o artigo do jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto, reproduzido do Observat\u00f3rio da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1288,1428,1804],"class_list":["post-11455","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-jornal-pessoal","tag-lucio-flavio-pinto","tag-pig"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11455","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11455"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11455\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}