{"id":11913,"date":"2011-03-07T00:47:36","date_gmt":"2011-03-07T03:47:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=11913"},"modified":"2011-03-07T00:47:36","modified_gmt":"2011-03-07T03:47:36","slug":"os-ratos-a-historia-de-um-pobre-homem-de-dyonelio-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/03\/07\/os-ratos-a-historia-de-um-pobre-homem-de-dyonelio-machado\/","title":{"rendered":"&#8220;Os ratos&#8221;, a hist\u00f3ria de um pobre homem, de Dyonelio Machado"},"content":{"rendered":"<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_11919\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2011\/03\/Os-ratos1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-11919\" class=\"size-medium wp-image-11919 \" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2011\/03\/Os-ratos1-300x208.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"208\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11919\" class=\"wp-caption-text\">Edi\u00e7\u00e3o de 1974 (esq) e a edi\u00e7\u00e3o de 2004 (clique para ampliar)<\/p><\/div>\n<p>I<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que me chamou a aten\u00e7\u00e3o a edi\u00e7\u00e3o barata de um livro, quando flanava por um sebo em S\u00e3o Paulo, no ano de 1979. A capa sofr\u00edvel n\u00e3o justificava uma folheada nas manchadas folhas de papel jornal, de uma edi\u00e7\u00e3o mal acabada. Mas uma r\u00e1pida olhada nas duas primeiras p\u00e1ginas indicava que eu descobrira algo interessante:<\/p>\n<p>\u00abNaziazeno encaminha-se ent\u00e3o para dentro de casa. Vai at\u00e9 ao quarto. A mulher ouve-lhe os passos, o barulho de abrir e fechar um que outro m\u00f3vel. Por fim, ele aparece no pequeno comedouro, o chap\u00e9u na m\u00e3o. Senta-se \u00e0 mesa, esperando. Ela lhe traz o alimento.<\/p>\n<p>&#8212; Ele n\u00e3o aceita mais desculpas&#8230;<\/p>\n<p>Naziazeno n\u00e3o fala. A mulher havia-se sentado defronte dele, olhando-o enquanto ele toma o caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; Vai nos deixar ainda sem leite&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>\u00c9 em torno desse motivo &#8211; a busca desesperada de um pequeno funcion\u00e1rio p\u00fablico para conseguir cinq\u00fcenta e tr\u00eas mil r\u00e9is para pagar o leiteiro &#8211; \u00e9 que vai se desenvolver o romance \u201cOs ratos\u201d, de 1934. O leiteiro lhe d\u00e1 um dia para quitar a d\u00edvida, ou o filho ficar\u00e1 sem leite. A a\u00e7\u00e3o do livro se passa em 24 opressivas e obsessivas horas. O autor de \u201cOs ratos\u201d \u00e9 o escritor ga\u00facho Dyonelio Machado (1895-1985), de quem, at\u00e9 aquele ano do s\u00e9culo passado, eu nunca ouvira falar.<\/p>\n<p>E, no passar dos anos, continuei ouvindo falar pouco de Dyonelio. Uma coisinha aqui, outra ali, bem pouco, pois acho que ele merecia lugar melhor na literatura, o que seria justo lhe garantir se ele houvesse escrito somente esse romance, ganhador do pr\u00eamio Machado de Assis de 1934. Mas ele fez mais, escreveu \u201cO louco do Cati\u201d e o livro de contos &#8220;A hist\u00f3ria de um pobre homem&#8221;, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Mar\u00e7o de 2011. Passeando por uma dessas modernas livrarias de shopping, dou de cara com uma nova edi\u00e7\u00e3o de \u201cOs ratos\u201d (Planeta). Uma edi\u00e7\u00e3o bem cuidada \u2013 de 2004, mas que s\u00f3 vim a conhecer agora -, com um estudo do cr\u00edtico liter\u00e1rio Davi Arrigucci Jr.<\/p>\n<p>\u00d3timo, penso, mais gente vai conhecer a obra de Dyonelio. De pre\u00e7o original de R$ 34,90, o livro est\u00e1 sendo vendido por R$ 14,90. Uma alegria e uma decep\u00e7\u00e3o. Alegria por ver um livro bem cuidado a pre\u00e7o razo\u00e1vel; a decep\u00e7\u00e3o: se o desconto \u00e9 t\u00e3o alto, \u00e9 porque est\u00e1 vendendo pouco.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Psiquiatra e jornalista, certamente Dyonelio usou dos conhecimentos obtidos nas duas profiss\u00f5es para escrever \u201cOs ratos\u201d. Sem cair no psicologismo barato, o autor nos oferece um estudo aprofundado dos dramas existenciais do modesto e humilhado Naziazeno (nome que, por sinal, assemelha-se a um zumbido, que parece nos acompanhar durante a leitura do livro).<\/p>\n<p>Mas o texto de Dyonelio n\u00e3o \u00e9 ma\u00e7ante, como uma tese acad\u00eamica, cada um dos curtos 28 cap\u00edtulos chama o seguinte, num suspense que por vezes corta a respira\u00e7\u00e3o. Fica evidente a influ\u00eancia do jornalismo: a descri\u00e7\u00e3o precisa; as frases r\u00e1pidas; o \u201clead\u201d no in\u00edcio de cada cap\u00edtulo; o \u201cgancho\u201d para o seguinte.<\/p>\n<p>O seu pleno dom\u00ednio da t\u00e9cnica do di\u00e1logo fica demonstrado no vigoroso cap\u00edtulo 9, um dos mais curtos, quando Naziazeno defronta-se com um homem que lhe pode arranjar os almejados cinq\u00fcenta e tr\u00eas mil r\u00e9is, uma conversa tensa, que lembra um desafio, no qual Naziazeno \u00e9 massacrado.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>O livro termina com um final \u201cfeliz\u201d. Naziazeno consegue o dinheiro para pagar a d\u00edvida, e o deixa ao lado da panela na qual o leiteiro deposita o leite a cada manh\u00e3; fica acordado a noite inteira, num estado de semivig\u00edlia, temendo que ratos (imagin\u00e1rios) roam o dinheiro conseguido ao pre\u00e7o de suor e dor.<\/p>\n<p>Mas o final tamb\u00e9m \u00e9 infeliz, pois essas 24 horas foram apenas uma fra\u00e7\u00e3o em uma exist\u00eancia de apertos e aperreios, que continuar\u00e1 vida afora. Mas hoje, depois do som tranq\u00fcilizador do leite sendo despejado na vasilha: \u201cO jorro \u00e9 forte e cantante [&#8230;], ele dorme\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I N\u00e3o sei por que me chamou a aten\u00e7\u00e3o a edi\u00e7\u00e3o barata de um livro, quando flanava por um sebo em S\u00e3o Paulo, no ano&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[810,1717],"class_list":["post-11913","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-dyonelio-machado","tag-os-ratos"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11913"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11913\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}