{"id":12220,"date":"2011-04-20T16:36:29","date_gmt":"2011-04-20T19:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=12220"},"modified":"2011-04-20T16:36:29","modified_gmt":"2011-04-20T19:36:29","slug":"reporteres-ou-animadores-de-auditorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/04\/20\/reporteres-ou-animadores-de-auditorio\/","title":{"rendered":"Rep\u00f3rteres ou animadores de audit\u00f3rio?"},"content":{"rendered":"<p>Ouvindo tempo atr\u00e1s o debochado programa P\u00e2nico (no r\u00e1dio), discutia-se &#8211; naquela balb\u00fardia caracter\u00edstica &#8211; se determinada evento mostrado em uma emissora de TV era &#8220;verdade&#8221; ou n\u00e3o. O apresentador do programa Em\u00edlio Surita, interveio para decretar: &#8220;Nada do que aparece na televis\u00e3o \u00e9 verdade&#8221;, e ele ainda ampliou a ironia(?): &#8220;Nem no nosso programa&#8221;. (Cito de mem\u00f3ria)<\/p>\n<p><strong>TV muda a cena<\/strong><\/p>\n<p>Bom, quem j\u00e1 fez algum tipo de cobertura jornal\u00edstica sabe mais ou menos como a banda toca: o jornalista pede para o entrevistado repetir uma fala; sugere que ele refa\u00e7a determinada pose, se o fot\u00f3grafo chegou atrasado, etc. At\u00e9 a\u00ed \u00e9 algo que se pode considerar mais ou menos normal.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria presen\u00e7a de jornalistas &#8211; principalmente a TV &#8211; \u00a0j\u00e1 \u00e9 suficiente para &#8220;contaminar&#8221; o local do evento. Se \u00e9 um ato &#8211; e os manifestantes est\u00e3o jururus &#8211; eles logo se animam a gritar palavras de ordem (para as c\u00e2meras); se \u00e9 um grupo torcedores de futebol, eles come\u00e7ar a agitar freneticamente as suas bandeiras &#8211; e por a\u00ed vai. Muitas vezes o rep\u00f3rter pede para que se grite o nome do &#8220;\u00eddolo&#8221; do momento ou faz alguma outra &#8220;sugest\u00e3o&#8221;, de acordo com o seu gosto ou suas idiossincrasias.<\/p>\n<p><strong>Avan\u00e7ando o sinal<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 assim que, em muitos casos &#8211; e cada vez mais &#8211; avan\u00e7a-se o sinal. Alguns rep\u00f3rteres assemelham-se a animadores de audit\u00f3rio, induzindo ao riso, ao choro ou ao desespero: tudo para colher uma &#8220;boa imagem&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 de dar engulhos o h\u00e1bito que se adquiriu de provocar o choro de entrevistados. O &#8220;jornalista&#8221; ficar repisando algo doloroso, fazendo sil\u00eancios, o microfone em riste, at\u00e9 escorrer uma l\u00e1grima ou um choro aberto. Para o &#8220;rep\u00f3rter&#8221; deve ser uma esp\u00e9cie de gozo. (E, creio esses devem ser considerados os &#8220;bons&#8221; rep\u00f3rteres pelo crit\u00e9rio de algumas emissoras.)<\/p>\n<p><strong>Animando a crian\u00e7ada<\/strong><\/p>\n<p>Creio que foi ontem mesmo (19\/4\/2011) vi uma mat\u00e9ria na TV em que se falava do uso de legumes produzidos pela Embrapa na merenda escolar. No fim da mat\u00e9ria, as crian\u00e7as &#8211; creio que em torno de seis, sete anos &#8211; nessas mesas t\u00edpicas de refeit\u00f3rio escolar, e a animadora, quer dizer, a rep\u00f3rter, lan\u00e7a o repto: &#8220;Quem gostou da merenda levanta a m\u00e3o&#8221;. Meio a contragosto algumas delas levantaram os bracinhos. E animad&#8230;, digo, a rep\u00f3rter: &#8220;Est\u00e1 aprovado&#8221;. Ent\u00e3o t\u00e1.<\/p>\n<p>Quem fez um bom resumo desses expedientes, reunidos na cobertura da trag\u00e9dia da Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio, foi o jornalista, Maur\u00edcio Stycer, que esteve no local dos acontecimentos.<\/p>\n<p>A leitura do relato de Stycer leva a se pensar na assertiva de Em\u00edlio Surita. Tudo o que a televis\u00e3o mostra \u00e9 mentira? Ou seria uma esp\u00e9cie de hiperverdade?<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #888888\">Veja o post de Stycer<!--more--><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br\/2011\/04\/20\/em-busca-da-noticia-e-de-cenas-dramaticas-em-realengo\/\" target=\"_blank\">Em busca da not\u00edcia (e de cenas dram\u00e1ticas) em Realengo<\/a><\/strong><br \/>\nMaur\u00edcio Stycer (Uol)<\/p>\n<p>Escola Municipal Tasso da Silveira. Ter\u00e7a-feira, 19 de abril, 7h50 da manh\u00e3. Pr\u00f3ximo ao port\u00e3o, o rep\u00f3rter de uma emissora de televis\u00e3o entrevista um aluno que volta ao col\u00e9gio pela primeira vez desde o massacre de 7 de abril. Acompanhado da m\u00e3e, o garoto deve ter uns 10 anos e muito pouco a dizer. Ao final da entrevista, o jornalista os orienta a recuar 20 metros, para o c\u00e2mera poder film\u00e1-los chegando. Ele explica: \u201cVem de l\u00e1, a\u00ed quando estiver perto do port\u00e3o voc\u00ea se despede e d\u00e1 um beijinho nele\u201d. A m\u00e3e faz exatamente o que ele pediu.<\/p>\n<p>Enviado pelo UOL Not\u00edcias, passei dois dias diante do port\u00e3o da Tasso da Silveira. Na segunda-feira, houve o retorno \u00e0s aulas das crian\u00e7as no 9\u00ba ano. Na ter\u00e7a, de todas as demais. Fiquei impressionado com a tens\u00e3o e o desespero dos rep\u00f3rteres e c\u00e2meras de televis\u00e3o. Al\u00e9m do empurra-empurra para conseguir imagens banais, presenciei in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es como a descrita acima, em que os colegas agem como \u201cdiretores\u201d de cena, orientando os entrevistados, com o objetivo de conseguir imagens mais dram\u00e1ticas e falas mais fortes.<\/p>\n<p>Um dos momentos mais tristes foi ouvir Renata dos Reis Rocha, m\u00e3e das g\u00eameas Bianca e Brenda. A primeira morreu e a segunda ficou ferida no ataque. Revoltada, Renata decidiu pedir a transfer\u00eancia da menina sobrevivente da Tasso da Silveira. O seu desabafo aos rep\u00f3rteres foi muito forte. \u201cEu n\u00e3o podia nem levar merenda pra minha filha l\u00e1 em cima. E um estranho pode?\u201d<\/p>\n<p>Uma rep\u00f3rter de TV, por\u00e9m, perdeu o in\u00edcio da entrevista de Renata e n\u00e3o registrou o momento em que ela revelou ter decidido tirar a filha da escola. Aflita, na frente de todos os colegas, que continuavam conversando com a m\u00e3e, a rep\u00f3rter enfiou o microfone na cara de Renata e implorou: \u201cFala isso pra mim: \u2018Ela n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de estudar aqui\u2019. Entendeu? Fala pra mim\u201d.<\/p>\n<p>Os rep\u00f3rteres de TV sofrem press\u00e3o maior quando s\u00e3o convocados a entrar ao vivo, em programas de suas emissoras. Segurando o diretor da escola, Luis Marduk, a rep\u00f3rter de uma emissora aguardava o momento para entrevist\u00e1-lo ao vivo, mas o sinal n\u00e3o chegava. \u201cUm minuto, um minuto\u201d, dizia ela. Todos foram ficando impacientes, at\u00e9 que o diretor reclamou. \u201cQueria ter rel\u00f3gio de rep\u00f3rter. \u00c9 um inferno\u201d. Ao que a jornalista respons\u00e1vel pela situa\u00e7\u00e3o respondeu: \u201cMas eu esperei o senhor 25 minutos\u201d.<\/p>\n<p>Nem todo mundo \u00e0 porta da escola \u00e9 pai ou parente de aluno. A concentra\u00e7\u00e3o de jornalistas atrai muitos curiosos. Que tamb\u00e9m s\u00e3o entrevistados e d\u00e3o palpites sobre o massacre, sobre seguran\u00e7a nas escolas, sobre o que for. Ouvi uma senhora dando entrevista. A rep\u00f3rter tentou v\u00e1rias perguntas, sem conseguir tirar nada \u201cforte\u201d. At\u00e9 que mandou: \u201cA senhora acha que o massacre prejudicou a imagem do bairro?\u201d<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o, Claudia Costin, pediu aos jornalistas que n\u00e3o abordassem os alunos. O pedido, naturalmente, n\u00e3o foi acatado . Pior, vi uma rep\u00f3rter reclamando depois de entrevistar alunos. \u201cDuas crian\u00e7as que n\u00e3o falam absolutamente nada. N\u00e3o rendeu nada\u201d.<\/p>\n<p>Na expectativa de ouvir frases de efeito, dram\u00e1ticas, ela n\u00e3o atinou para a gra\u00e7a do di\u00e1logo que teve com um menino. \u201cComo foi esta volta \u00e0s aulas? Foi dif\u00edcil rever a escola? E encontrar os amigos? Como foi?\u201d, ela questionou. E o garoto, em uma palavra, disse tudo: \u201cManeiro\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvindo tempo atr\u00e1s o debochado programa P\u00e2nico (no r\u00e1dio), discutia-se &#8211; naquela balb\u00fardia caracter\u00edstica &#8211; se determinada evento mostrado em uma emissora de TV era&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[860,1291,2045,2257],"class_list":["post-12220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","tag-ensino","tag-jornalismo","tag-rio","tag-stycer"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}