{"id":12279,"date":"2011-04-29T09:40:02","date_gmt":"2011-04-29T12:40:02","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=12279"},"modified":"2011-04-29T09:40:02","modified_gmt":"2011-04-29T12:40:02","slug":"eliane-brum-vai-contar-suas-historias-no-congresso-da-abraji","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/04\/29\/eliane-brum-vai-contar-suas-historias-no-congresso-da-abraji\/","title":{"rendered":"Eliane Brum vai contar suas hist\u00f3rias no Congresso da Abraji"},"content":{"rendered":"<p>A Abraji (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo) faz seu sexto congresso no m\u00eas de julho, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Reproduzo abaixo entrevista que uma das palestrantes, Eliane Brum, das mais conhecidas jornalistas do pa\u00eds, deu ao portal da Abraji.<\/p>\n<p>\u00c9 um texto longo, mas vale a leitura, principalmente para os jornalistas que se filiam \u00e0 corrente dos &#8220;contadores de hist\u00f3ria&#8221; ou do chamado &#8220;jornalismo liter\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>A segunda parte da entrevista tem justamente o t\u00edtulo de: &#8220;Eliane Brum revela como prende a aten\u00e7\u00e3o do leitor com textos longos at\u00e9 na internet&#8221;.<\/p>\n<p><strong>6\u00ba Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo<\/strong><br \/>\nQuando: 30 de junho a 2 de julho de 2011<br \/>\nOnde: S\u00e3o Paulo &#8211; Universidade Anhembi Morumbi &#8211; campus Vila Ol\u00edmpia &#8211; unidade 7 (Rua Casa do Ator, 275)<br \/>\nInscri\u00e7\u00f5es: <a href=\"http:\/\/abraji.org.br\/?id=112\" target=\"_blank\">http:\/\/bit.ly\/6congresso<\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #888888\">Do portal da Abraji<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria recente do pa\u00eds contada atrav\u00e9s da trajet\u00f3ria de uma fam\u00edlia ser\u00e1 tema de palestra de Eliane Brum<\/strong><\/p>\n<p>Conhecida por suas reportagens especiais, Eliane Brum estar\u00e1 no 6\u00ba Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo para esmiu\u00e7ar uma delas: no painel \u201cUma Fam\u00edlia no Governo Lula&#8221; , ela falar\u00e1 sobre a experi\u00eancia de contar a hist\u00f3ria da fam\u00edlia Costa Pereira ap\u00f3s acompanh\u00e1-la por oito anos.  \u201cEspero que seja um bom encontro, um em que todos n\u00f3s possamos sair um pouquinho transformados (e transtornados) pela experi\u00eancia\u201d, afirma a jornalista.<\/p>\n<p>A reportagem que d\u00e1 nome ao painel aconteceu quase que por acaso. A fam\u00edlia Costa Pereira  foi encontrada como personagem para o texto de 2002 publicado na revista \u00c9poca \u201cO Homem-Estat\u00edstica\u201d, em que o pai, Hustene Alves Pereira, humanizava os n\u00fameros de desemprego daquele ano. Desde ent\u00e3o, Eliane passou a receber relatos por e-mail dos Costa Pereira, nos quais p\u00f4de acompanhar a trajet\u00f3ria da fam\u00edlia no decorrer dos anos. No ano passado, quando foi convidada a palestrar sobre o governo Lula no festival anual da revista italiana Internazionale, juntou todos os dados que tinha sobre a fam\u00edlia e percebeu que tinha um retrato da realidade da nova classe m\u00e9dia. Ap\u00f3s palestras em Ferrara e Madrid , surgiu a reportagem \u201cUma Fam\u00edlia no Governo Lula\u201d.<\/p>\n<p>Em sua vida profissional, Eliane Brum, trabalhou durante 11 anos como rep\u00f3rter do jornal &#8220;Zero Hora&#8221;, de Porto Alegre, e outros dez como rep\u00f3rter especial da revista \u00c9poca, em S\u00e3o Paulo. Desde 2010 trabalha como freelancer e garante que apesar de agora ganhar um quinto do antigo sal\u00e1rio, sente-se feliz com sua escolha e a liberdade que ela proporciona.<\/p>\n<p><span style=\"color: #888888\"><strong>Leia a entrevista <\/strong>(ao fim da entrevista, indica\u00e7\u00e3o para o original na p\u00e1gina da Abraji, no qual a links para outros textos, incluindo para a reportagem &#8220;Uma fam\u00edlia no governo Lula&#8221;)<strong>.<!--more--><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Como foi o processo de realiza\u00e7\u00e3o da reportagem desde sua sugest\u00e3o at\u00e9 sua\u00a0publica\u00e7\u00e3o? Qual foi a fase mais dif\u00edcil?<\/p>\n<p><strong> Eliane Brum:<\/strong> Esta reportagem come\u00e7ou na virada de 2001 para 2002. Eu era rep\u00f3rter especial da \u00c9poca e estava em busca de um brasileiro da Grande S\u00e3o Paulo que desse carne \u00e0s estat\u00edsticas de um momento dif\u00edcil para o Brasil. Neste per\u00edodo, o pa\u00eds sofria com o desemprego, especialmente nas grandes cidades, onde filas de centenas de pessoas se formavam para uma vaga muito abaixo da qualifica\u00e7\u00e3o dos candidatos. Eu buscava um chefe de fam\u00edlia que, como tantos naquele contexto, tivesse perdido o emprego h\u00e1 tempo suficiente para compreender que seria muito dif\u00edcil conseguir outro: um homem no instante da percep\u00e7\u00e3o da queda. Depois de tentar v\u00e1rios caminhos, encontrei Hustene Alves Pereira, na periferia de Osasco. Ele estava no quarto m\u00eas de desemprego e sentia-se esmagado pelo discurso da exclus\u00e3o. Naquele momento, \u201cexclu\u00eddos\u201d era uma palavra muito em voga, muito mais do que hoje, na minha percep\u00e7\u00e3o. Ele descobriu-se, de repente, \u201cexclu\u00eddo\u201d do projeto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Acompanhei sua rotina \u2013 e a de sua fam\u00edlia \u2013 por v\u00e1rios dias. A reportagem, com o t\u00edtulo de \u201cO Homem-Estat\u00edstica\u201d, foi publicada na \u00c9poca em fevereiro de 2002, no \u00faltimo ano do governo FHC e tamb\u00e9m no ano em que Lula, depois de tr\u00eas tentativas, finalmente venceria a quarta elei\u00e7\u00e3o. Esta foi a primeira reportagem. E naquele momento eu n\u00e3o tinha a menor ideia de que haveria uma outra, nove anos depois.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Qual era sua rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia? Como se desenvolveu a apura\u00e7\u00e3o?<br \/>\nEliane Brum: H\u00e1 uma pergunta recorrente que estudantes de jornalismo costumam me fazer quando dou palestras em universidades: \u201cVoc\u00ea se envolve com as fontes?\u201d. Minha resposta \u00e9 sempre a mesma: \u201c\u00c9 claro que sim!\u201d. Se n\u00e3o me envolvesse, para que viveria? Deixando sempre bem claro que este envolvimento inclui um profundo respeito pela hist\u00f3ria que conto e que pertence ao outro \u2013 e isto significa escutar sem julgar e interferir o m\u00ednimo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Hustene e eu criamos um v\u00ednculo. E um que hoje, quando olho para tr\u00e1s, penso que era muito mais claro para ele do que para mim. Eu era a contadora de sua hist\u00f3ria. E foi assim que Hustene continuou me contando fatos e sentimentos mesmo depois da reportagem publicada. Segui acompanhando os principais acontecimentos da vida da fam\u00edlia, \u00e0s vezes mais de perto, em outras mais de longe. As contas de luz e \u00e1gua cortadas, os empregos e desempregos dos filhos, os Natais tristes, a volta da carteira assinada depois de Hustene amargar tr\u00eas anos e sete meses sem trabalho, a felicidade de ser o \u201cPorteiro Pereira\u201d, a doen\u00e7a de Hustene, o p\u00e9ssimo atendimento do SUS, a decep\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e, finalmente, a vida melhorando e as portas do consumo se abrindo. Perpassando tudo isso, a profunda identifica\u00e7\u00e3o com Lula, primeiro como decep\u00e7\u00e3o, depois com orgulho. E uma vis\u00e3o de mundo muito particular.<\/p>\n<p>Hustene e sua fam\u00edlia me colocaram no lugar de \u201cescutadeira\u201d de sua vida e seguiram fazendo a narrativa do cotidiano. E eu segui escutando com aten\u00e7\u00e3o e cuidado. Primeiro por telefone, depois por e-mail. Hustene escreve muito \u2013 sobre fatos, sobre sentimentos, sobre sua percep\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Tenho uma cole\u00e7\u00e3o de e-mails de uma riqueza extraordin\u00e1ria sobre sua vis\u00e3o do governo Lula e do Brasil \u2013 e de sua fam\u00edlia no governo Lula e no Brasil. Hustene organiza a sua vida escrevendo di\u00e1rios a Nossa Senhora e, antes, tamb\u00e9m escrevia a Che Guevara. A mim d\u00e1 o privil\u00e9gio de escrever sobre a trajet\u00f3ria de sua fam\u00edlia e sobre sua pr\u00f3pria escritura.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Como foi a experi\u00eancia de poder  contar com um tempo t\u00e3o longo de apura\u00e7\u00e3o?<br \/>\nEliane Brum: N\u00e3o contei com \u201cum tempo t\u00e3o longo de apura\u00e7\u00e3o\u201d. Esta foi uma experi\u00eancia minha. N\u00e3o uma decis\u00e3o da \u00c9poca, onde trabalhei at\u00e9 mar\u00e7o de 2010 como rep\u00f3rter especial e atualmente sou colunista do site, \u00e0s segundas-feiras. At\u00e9 porque pelo menos at\u00e9 2009 nem mesmo eu tinha consci\u00eancia de que um dia faria algo com o material que ia colecionando. Eu mantinha a rela\u00e7\u00e3o porque criamos um v\u00ednculo cujo esteio principal era o de que eu continuava escutando a hist\u00f3ria da fam\u00edlia \u2013 e a fam\u00edlia, e especialmente Hustene, continuava me contando seu cotidiano.<\/p>\n<p>Foi uma experi\u00eancia in\u00e9dita para mim tamb\u00e9m. Eu acredito profundamente no poder da narrativa. E seguir escutando a hist\u00f3ria da Fam\u00edlia Costa Pereira era irresist\u00edvel para mim como escutadeira\/contadora de hist\u00f3rias reais. Eu n\u00e3o precisava ser pautada para isso. Eu pauto a minha vida. E as minhas escolhas.<br \/>\nNo in\u00edcio de 2010 fui convidada para falar sobre o governo Lula no festival anual da Internazionale, uma das mais prestigiosas revistas italianas. Era a primeira vez na hist\u00f3ria do festival em que havia uma mesa sobre o Brasil \u2013 e sobre Lula. Bem, eu sou rep\u00f3rter, n\u00e3o analista pol\u00edtica. S\u00f3 sei contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Naquele momento, percebi que eu tinha uma grande hist\u00f3ria para contar sobre o Brasil de Lula \u2013 uma com todas as contradi\u00e7\u00f5es que a realidade sempre cont\u00e9m. Eu tinha acompanhado uma fam\u00edlia do \u00faltimo ano de FHC at\u00e9 aquele momento. E n\u00e3o como alguns chegaram a fazer, voltando oito anos depois. N\u00e3o, eu estive sempre l\u00e1, de alguma maneira. Eu tinha testemunhado uma das grandes mudan\u00e7as da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds \u2013 a nova classe m\u00e9dia \u2013 por uma fam\u00edlia, praticamente semana a semana, m\u00eas a m\u00eas.<br \/>\nEnt\u00e3o comecei a organizar o material que tinha colecionado por amor \u00e0 Hist\u00f3ria (eu aprendi com o meu pai o valor dos relatos de vida e guardo tudo o que escuto e registro, por isso estou com um grande problema de espa\u00e7o em casa&#8230; precisaria de pelo menos dois apartamentos). E comecei a fazer longas entrevistas com todos os membros da fam\u00edlia. Antes de publicar a reportagem na \u00c9poca, em janeiro deste ano, apresentei oralmente a hist\u00f3ria da fam\u00edlia Costa Pereira em Ferrara, na It\u00e1lia, e em Madri, na Espanha.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Foi dif\u00edcil manter a distancia na rela\u00e7\u00e3o com as fontes?<br \/>\nEliane Brum: Sempre tive clareza do meu lugar na casa da fam\u00edlia Costa Pereira. E tento estar \u00e0 altura do meu posto de \u201cescutadeira\u201d de uma hist\u00f3ria de vida. Mas este tamb\u00e9m \u00e9 um lugar amoroso. E foi muito dif\u00edcil v\u00ea-los passar Natais de pen\u00faria, como aquele em que Estela serviu apenas farinha com cebola, sem interferir. Foi Hustene, mais do que eu, que teve a sabedoria de riscar os limites e assim manter o mais importante a salvo. Como quando fiquei \u2013 e fico \u2013 muito angustiada com a deteriora\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o por uma doen\u00e7a degenerativa causada pela diabetes. Ele n\u00e3o recebeu at\u00e9 hoje nenhum tratamento. A (des)assist\u00eancia do SUS \u00e9 desesperadora.  Me ofereci para pagar um tratamento privado. N\u00e3o consigo imagin\u00e1-lo cego \u2013 n\u00e3o por falta de assist\u00eancia. Ele recusou na hora, enfaticamente. Entre n\u00f3s, n\u00e3o pode existir dinheiro nem favores.<\/p>\n<p>Nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito clara. A fam\u00edlia \u2013 e especialmente Hustene \u2013 me conta seu cotidiano. E eu escuto, guardo, registro. At\u00e9 hoje. Nada mudou depois de a segunda reportagem ter sido publicada. N\u00e3o \u00e9 a l\u00f3gica da pauta, epis\u00f3dica e com prazo, que prevalece aqui. O que me pauta \u00e9 o registro hist\u00f3rico \u2013 e este v\u00ednculo privilegiado que se estabeleceu entre n\u00f3s. Acredito que n\u00f3s, jornalistas, produzimos documentos sobre a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. Busco fazer meu trabalho com a responsabilidade que este compromisso exige e pauto minha vida por isso. N\u00e3o sei se haver\u00e1 outra reportagem. O que existe \u00e9 a vida da fam\u00edlia Costa Pereira em movimento \u2013 e o meu movimento de registr\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>Eliane Brum revela como prende a aten\u00e7\u00e3o do leitor com textos longos at\u00e9 na internet<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea conseguir agarrar seu leitor pelo pesco\u00e7o no primeiro par\u00e1grafo, h\u00e1 grandes chances de voc\u00ea mant\u00ea-lo cativo at\u00e9 o final. Desde que voc\u00ea mantenha o ritmo do texto. Acho que n\u00e3o \u00e9 o tamanho que afasta ou atrai o leitor, mas a seriedade e a verdade com que voc\u00ea escreve. O respeito que tem por ele.\u201d A dica acima \u00e9 dada por Eliane Brum, que ir\u00e1 ao 6\u00ba Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo para compartilhar sua experi\u00eancia acumulada em mais de 20 anos de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela relata que depois de assistir ao filme &#8220;A Rede Social&#8221; ficou horas sentada em casa &#8220;cabisbaixa&#8221; por perceber que n\u00e3o faz parte do universo digital (ou virtual). &#8220;Circulo por este mundo, escrevo na internet, uso as redes sociais, mas n\u00e3o perten\u00e7o a este mundo\u201d. Embora se sinta assim, faz muito sucesso na internet que reverbera pelas m\u00eddias sociais seu trabalho. Provando que textos longos (sua \u00faltima coluna no site da Revista \u00c9poca contava com mais de 60 mil caracteres) tamb\u00e9m t\u00eam seu espa\u00e7o no mundo digital.<\/p>\n<p>Apesar de todas as mudan\u00e7as que a internet trouxe para o jornalismo, a rep\u00f3rter acredita que a reportagem ainda deva ser feita da mesma maneira de antes. \u201cVoc\u00ea continua indo ao mundo real para contar uma hist\u00f3ria. Ou melhor, acho que o mais correto seria dizer que a gente continua tendo que ir ao `mundo encarnado\u00b4, porque o virtual tamb\u00e9m \u00e9 real\u201d, diz.<\/p>\n<p>Diante de todas essas reflex\u00f5es, Eliane v\u00ea no Congresso da Abraji uma oportunidade \u00fanica para os jornalistas trocarem experi\u00eancias. &#8220;\u00c9 talvez o \u00fanico congresso brasileiro que traz pessoas de todas as partes do pa\u00eds \u2013 e de fora dele \u2013 para contar suas experi\u00eancias e para ouvir experi\u00eancias. \u00c9 um grande encontro, de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de jornalistas, inclusive. E, portanto, uma grande troca. Acho important\u00edssimo, um espa\u00e7o muito privilegiado.  E me sinto muito honrada por ter sido convidada como palestrante nos \u00faltimos tr\u00eas anos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Quais as principais dicas para quem quer fazer um jornalismo diferente, reportagens mais profundas e com diferentes abordagens?<\/p>\n<p><strong> Eliane Brum:<\/strong> O jornalismo n\u00e3o mudou. N\u00e3o no sentido do jeito de fazer reportagem, que me parece ser o mesmo de sempre. Rep\u00f3rter continua indo ao mundo, \u00e0s ruas, com a responsabilidade de contar a hist\u00f3ria cotidiana do seu pa\u00eds, de uma rua, de uma pessoa. Documentar o contempor\u00e2neo. E isso se faz ao vivo, apurando com muita precis\u00e3o e nenhuma licen\u00e7a po\u00e9tica n\u00e3o apenas o que \u00e9 dito, mas o n\u00e3o dito (\u00e0s vezes mais importante) e o sil\u00eancio. Os gestos, os sons, os cheiros, as manias, a sonoridade da palavra exata, as contradi\u00e7\u00f5es, enfim, a enorme complexidade do real.<\/p>\n<p>Fazer reportagem \u00e9 permanecer na zona cinzenta, consciente de que n\u00e3o existe uma verdade \u00fanica, mas v\u00e1rias. E, se trabalharmos muito e com muita seriedade, seremos capazes de chegar perto de algumas delas. Para isso, o principal instrumento \u00e9 se tornar capaz de escutar sem julgar ou interferir. E olhar para aquela realidade disposto a enxergar al\u00e9m do \u00f3bvio.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Muito se diz sobre a diminui\u00e7\u00e3o do tamanho do texto jornal\u00edstico em fun\u00e7\u00e3o da relut\u00e2ncia dos leitores em se prender a longas reportagens. Como voc\u00ea v\u00ea esse fen\u00f4meno?<br \/>\nEliane Brum: Ningu\u00e9m nunca me provou isso. E eu n\u00e3o acredito. Sempre escrevi mat\u00e9rias longas. E n\u00e3o me consta que seja menos lida por isso. Hoje escrevo na internet e minhas colunas s\u00e3o enormes. E sou lida. Minhas entrevistas na coluna chegam a passar dos 40 mil caracteres. E s\u00e3o lidas. Acho que as pessoas l\u00eaem o que interessa a elas, independentemente do tamanho. Se voc\u00ea conseguir agarrar seu leitor pelo pesco\u00e7o no primeiro par\u00e1grafo, h\u00e1 grandes chances de voc\u00ea mant\u00ea-lo cativo at\u00e9 o final. Desde que voc\u00ea mantenha o ritmo do texto. Desde que voc\u00ea n\u00e3o o enrole. Acho que n\u00e3o \u00e9 o tamanho que afasta ou atrai o leitor, mas a seriedade e a verdade com que voc\u00ea escreve. O respeito que tem por ele.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Voc\u00ea acredita que deve haver uma mudan\u00e7a dos meios jornal\u00edsticos em fun\u00e7\u00e3o da Era Digital?<br \/>\nEliane Brum: A internet ampliou o n\u00famero de narradores, diversificou as vozes. Hoje cada um pode contar a sua hist\u00f3ria. O que n\u00e3o \u00e9 contado pelos jornais e revistas, por exemplo, vai ser contado de outro modo, em blogs e redes sociais. \u00c9 diferente do passado recente, quando o que n\u00e3o era contado era como se n\u00e3o existisse, o que deixava grande parte da popula\u00e7\u00e3o e as regi\u00f5es mais distantes do pa\u00eds de fora da hist\u00f3ria cotidiana registrada do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas, com ou sem internet, a reportagem continua sendo feita do mesmo jeito. A internet \u00e9 apenas um instrumento a mais, no que diz respeito \u00e0 reportagem. No sentido da veicula\u00e7\u00e3o e no sentido de instrumento mesmo: e-mails, fonte de pesquisa etc. Mas voc\u00ea continua indo ao mundo real para contar uma hist\u00f3ria. Ou melhor, acho que o mais correto seria dizer que a gente continua tendo que ir ao \u201cmundo encarnado\u201d, porque o virtual tamb\u00e9m \u00e9 real. Enfim, vivemos uma \u00e9poca fascinante e n\u00e3o tenho a menor ideia do que vai acontecer, mas estou muito feliz de estar viva para testemunhar pelo menos o come\u00e7o dela.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o sei como ser\u00e1 resolvido, por exemplo, \u00e9 o financiamento das reportagens. Sim, todo mundo pode escrever. Mas reportagem \u00e9 algo caro e que exige tempo. H\u00e1 muitos pontos de interroga\u00e7\u00e3o. E eu tenho muitas perguntas, mas poucas ou nenhuma resposta.<\/p>\n<p>Fui assistir ao filme \u201cRede Social\u201d, que conta a hist\u00f3ria do Facebook e gostei muito. Mas entrei com 44 anos, minha idade atual, e sa\u00ed do cinema com 70 e poucos. Fiquei horas sentada em casa, bastante cabisbaixa, por perceber que eu circulo por este mundo, escrevo na internet, uso as redes sociais, mas n\u00e3o perten\u00e7o a este mundo. Isso minha gera\u00e7\u00e3o perdeu. E at\u00e9 a gera\u00e7\u00e3o da minha filha, que est\u00e1 com 29 anos, perdeu. Pertencer \u00e9 de outra ordem.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Como \u00e9 trabalhar como freelancer?<br \/>\nEliane Brum: Acho que sou uma freelancer muito at\u00edpica. Fiquei anos construindo esta alternativa de vida para ser totalmente dona do meu tempo e s\u00f3 fazer o que quero. Para isso, fiz uma grande mudan\u00e7a na minha vida e aprendi a viver com pouco dinheiro \u2013 hoje ganho mais ou menos um quinto do que ganhava. Foi uma escolha. E estou muito satisfeita com ela. Tenho convic\u00e7\u00e3o de que a liberdade exige uma vida simples, do ponto de vista financeiro. Quando sa\u00ed da [revista] \u00c9poca, tinha apartamento quitado, filha criada e nenhuma d\u00edvida. E me mantenho assim.<\/p>\n<p>S\u00f3 fa\u00e7o o que quero, o que me imp\u00f5e algum desafio novo. Detesto me repetir e morro de medo de virar personagem de mim mesma. Tenho uma coluna fixa no site da \u00c9poca, \u00e0s segundas-feiras. E fa\u00e7o uma cr\u00f4nica semanal, \u00e0s ter\u00e7as, no site vidabreve.com. Estes s\u00e3o meus compromissos fixos.<\/p>\n<p>No ano passado lancei um document\u00e1rio, em co-dire\u00e7\u00e3o com Paschoal Samora, &#8211; \u201cGretchen Filme Estrada \u2013 a \u00faltima turn\u00ea e a primeira campanha pol\u00edtica da rainha do rebolado\u201d. Em mar\u00e7o deste ano iniciei um novo document\u00e1rio. Tenho feito muitas palestras e oficinas de reportagem pelo Brasil afora, especialmente no projeto Rumos, do Ita\u00fa Cultural. E lan\u00e7o meu primeiro romance em junho, pela editora Leya. E este foi um grande, um enorme desafio.<\/p>\n<p>Estou sempre testando novos jeitos de contar hist\u00f3rias, que \u00e9 o que d\u00e1 sentido \u00e0 minha vida.  Sou inquieta, para mim \u00e9 dif\u00edcil repetir as mesmas f\u00f3rmulas. Ent\u00e3o acabo trabalhando mais do que devia, porque \u00e9 sempre algo novo, que preciso encontrar um jeito de fazer, que me obriga a me perder antes de me achar. Minha vida \u00e9 meio vertiginosa e \u00e0s vezes eu fico bastante cansada. Mas acho que ainda estou aprendendo. Estou me lambuzando com a propriedade do meu tempo \u2013 e abusando dele e de mim. Se pudesse, eu nem dormia. Acho que ainda preciso encontrar um equil\u00edbrio. Mas mudar \u00e9 a tarefa mais dif\u00edcil de qualquer vida e eu estou trope\u00e7ando ainda, mas uma hora encontro um ponto menos ca\u00f3tico.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> Ao seu ver, qual a import\u00e2ncia do congresso da Abraji?<br \/>\n<strong> Eliane Brum:<\/strong> \u00c9 talvez o \u00fanico congresso brasileiro que traz pessoas de todas as partes do pa\u00eds \u2013 e de fora dele \u2013 para contar suas experi\u00eancias e para ouvir experi\u00eancias. \u00c9 um grande encontro, de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de jornalistas, inclusive. E, portanto, uma grande troca. Acho important\u00edssimo, um espa\u00e7o muito privilegiado.  E me sinto muito honrada por ter sido convidada como palestrante nos \u00faltimos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p><strong>Abraji:<\/strong> O que os participantes podem esperar de sua participa\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<strong> Eliane Brum:<\/strong> Uma hist\u00f3ria contada do meu jeito. Eu vou contar a hist\u00f3ria de uma reportagem. E vou tentar, desta vez, deixar mais espa\u00e7o para perguntas. No ano passado, falei tanto que quase n\u00e3o sobrou tempo. Percebo que as pessoas querem saber n\u00e3o de uma, mas de muitas reportagens. E \u00e9 importante manter um espa\u00e7o aberto para todas as d\u00favidas, para o debate.  Eu gosto muito desta parte, porque \u00e0s vezes surgem perguntas que ningu\u00e9m nunca me fez \u2013 e muito menos eu a mim mesma \u2013 e aprendo algo novo e muito importante.<\/p>\n<p>Tenho feito muitas palestras e percebido que s\u00e3o encontros. Depende tanto de mim como de quem foi l\u00e1 me escutar. Posso contar as mesmas hist\u00f3rias, mas o resultado \u00e9 sempre muito diferente. J\u00e1 falei para centenas de pessoas e me senti totalmente escutada e acolhida e sa\u00edmos todos de l\u00e1 com uma nova experi\u00eancia. E j\u00e1 falei para bem menos pessoas sem que realmente acontecesse algo. Depende muito da verdade da busca de quem vai ouvir\/participar. Eu posso garantir que sempre vou contar minhas hist\u00f3rias com muita verdade e vontade de alcan\u00e7ar quem est\u00e1 l\u00e1. Mas \u00e9 um encontro definido pela reciprocidade.<\/p>\n<p>No Congresso da Abraji, o p\u00fablico costuma ser muito bacana, realmente interessado. Espero que seja um bom encontro, um em que todos n\u00f3s possamos sair um pouquinho transformados (e transtornados) pela experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8230;..<\/p>\n<p>Link para o original da <a href=\"http:\/\/abraji.org.br\/?id=90&amp;id_noticia=1496\" target=\"_blank\">primeira parte<\/a> e para a <a href=\"http:\/\/abraji.org.br\/?id=90&amp;id_noticia=1520\" target=\"_blank\">segunda parte<\/a> da entrevista (onde h\u00e1 link para a mat\u00e9ria &#8220;Uma fam\u00edlia no governo Lula e outros links n\u00e3o mantidos nesta reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Abraji (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo) faz seu sexto congresso no m\u00eas de julho, em S\u00e3o Paulo. Reproduzo abaixo entrevista que uma das palestrantes,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[96,605,834],"class_list":["post-12279","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-abraji","tag-congresso","tag-eliane-brum"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12279"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12279\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}