{"id":1362,"date":"2009-07-09T07:01:54","date_gmt":"2009-07-09T12:01:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=1362"},"modified":"2009-07-09T07:01:54","modified_gmt":"2009-07-09T12:01:54","slug":"fortaleza-terra-de-ninguem-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/07\/09\/fortaleza-terra-de-ninguem-10\/","title":{"rendered":"Fortaleza, terra de ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>Com a se\u00e7\u00e3o, cujo t\u00edtulo est\u00e1 acima, tenho mostrado neste blog, com ajuda de alguns leitores, a vergonha que acontece em Fortaleza com os carros ocupando todos os espa\u00e7os poss\u00edveis, sejam nas ruas ou <strong>sobre as cal\u00e7adas<\/strong>.<\/p>\n<p>O carro, em Fortaleza, torrnou-se o dono aboluto de <strong>todos os espa\u00e7os<\/strong> <strong>p\u00fablicos<\/strong>, pondo em risco quem se atreve a usar o seu direito de caminhar pela cidade, seja a passeio ou a trabalho.<\/p>\n<p>Eu desafio a qualquer autoridade, municipal, estadual ou federal, a &#8211; pelo menos um dia &#8211; deixar o carro oficial em casa em tentar chegar ao seu trabalho <strong>caminhando<\/strong>.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o vergonhosa e insustent\u00e1vel, que vai contra qualquer propaganda de &#8220;Fortaleza bela&#8221; ou do objetivo de &#8221; cuidar das pessoas&#8221;, que nada mais s\u00e3o do que slogans &#8211; possivelmente assoprados por algun marqueteiro &#8211; para serem recitados em dia de festa ou de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 para apresentar um artigo  do soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins, professor em\u00e9rito da USP. [Universidade de S\u00e3o Paulo], publicado originalmente no caderno Ali\u00e1s, do jornal O Estado de S. Paulo, mas que eu reproduzi do blog <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/blogs.asp?id_blog=3&amp;id={91D76986-85DE-4F5B-8177-5ADF419623BF}\" target=\"_blank\">Verbo Solto<\/a>.<\/p>\n<p>Veja o artigo, que tem o t\u00edtulo-den\u00fancia &#8220;Uma sociedade sob rodas&#8221;, abordando a brutalidade do tr\u00e2nsito no Brasil. Vale para qualquer cidade brasileira, especiaimente para Fortaleza.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Uma sociedade sob as rodas<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Souza Martins<\/p>\n<p>Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de 2003, divulgados num estudo da Funda\u00e7\u00e3o Seade, indicam que a taxa de mortalidade por atropelamento no Brasil era de 5,6 \u00f3bitos por 100 mil habitantes, quase tr\u00eas vezes mais do que nos Estados Unidos, Inglaterra e Canad\u00e1. S\u00e3o pa\u00edses mais adaptados, regulamentados e punitivos no que se refere ao uso violento de ve\u00edculos. A taxa m\u00e9dia relativa \u00e0 mortalidade masculina em atropelamentos no Brasil mais que dobrava: 9 por 100 mil. Em v\u00e1rios Estados a taxa subia para 12 por 100 mil. Quanto \u00e0s mulheres, a taxa \u00e9 de 5 \u00f3bitos por 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o mais realista e dura, de 1997, e o novo C\u00f3digo Nacional de Tr\u00e2nsito, de 1998, produziram um decl\u00ednio significativo na mortalidade por atropelamento. Em S\u00e3o Paulo, essas ocorr\u00eancias ca\u00edram pela metade, entre 1996 e 2005, de 12 mortes por 100 mil habitantes para 5,1 mortes por 100 mil. O estudo mostra tamb\u00e9m que a curva estat\u00edstica das mortes por atropelamento cresce regularmente at\u00e9 os 40 anos de idade das v\u00edtimas, estabiliza nesse n\u00edvel at\u00e9 os 55 anos e volta a crescer, verticalmente, da\u00ed em diante, para homens e mulheres.<\/p>\n<p>Idosos s\u00e3o as grandes v\u00edtimas de atropelamentos, que constituem tamb\u00e9m a terceira causa da morte de crian\u00e7as. No caso dos idosos, as hip\u00f3teses mais prov\u00e1veis para maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 morte por atropelamento s\u00e3o as not\u00f3rias: diminui\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o, da audi\u00e7\u00e3o e da capacidade motora. Nessa perspectiva, corremos o s\u00e9rio risco de concluir que a culpa \u00e9 da v\u00edtima.<\/p>\n<p>A maior exposi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e idosos ao risco de morte por atropelamento sugere, na verdade, que esta sociedade n\u00e3o est\u00e1 preparada para assegurar lugar e vida a multid\u00f5es de desvalidos por idade. \u00c9 velha e infeliz caracter\u00edstica da sociedade brasileira considerar cidad\u00e3os unicamente os que est\u00e3o em idade produtiva, o chamado vigor da idade. Os sem\u00e1foros abrem para pedestres que podem atravessar a rua na velocidade conveniente para o carro. As faixas de pedestres n\u00e3o servem para proteg\u00ea-los. O \u00fanico verdadeiro cidad\u00e3o deste pa\u00eds \u00e9 o autom\u00f3vel, cheio de direitos. Aqui, o carro desempenha praticamente a mesma fun\u00e7\u00e3o que o rev\u00f3lver desempenhou no oeste americano no s\u00e9culo 19, quando cada um fazia valer a sua lei.<\/p>\n<p>No tr\u00e2nsito, diariamente, testemunhamos a agressividade de motoristas que fazem suas pr\u00f3prias regras de tr\u00e2nsito e tornam-se violentos, simplesmente porque est\u00e3o dentro de um carro. A lei pune os alcoolizados, mas n\u00e3o pune os que est\u00e3o b\u00eabados de poder na dire\u00e7\u00e3o. Cometem abusos de toda ordem, n\u00e3o raro com inocentes v\u00edtimas fatais. Para n\u00e3o falar nos mutilados, que carregar\u00e3o para o resto da vida as sequelas da irresponsabilidade alheia, das fam\u00edlias \u00f3rf\u00e3s, pais e filhos.<\/p>\n<p>A facilidade com que se paga fian\u00e7a ap\u00f3s um mortic\u00ednio para sair leve e lampeiro e aguardar julgamento em liberdade deveria ser reexaminada \u00e0 luz da experi\u00eancia positiva da legisla\u00e7\u00e3o mais dura de 1997 e 1998, que reduziu pela metade as ocorr\u00eancias fatais. Esse tipo de delinquente potencial n\u00e3o sente no cora\u00e7\u00e3o os sofrimentos que causa, mas sente-o no bolso e nas grades. Logo, \u00e9 no bolso e na priva\u00e7\u00e3o imediata de liberdade que, nos casos de comprovado dolo, deveria incidir a pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de mortes por atropelamento. Enquanto se achar que morrer ou ficar mutilado num acidente de tr\u00e2nsito \u00e9 uma fatalidade, ficaremos no marco da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 uma imprud\u00eancia de pedestres que concorre para os acidentes. Andar pela rua e n\u00e3o pela cal\u00e7ada, \u00e0 noite, com roupas escuras \u00e9 pedir para ser atropelado. Uma campanha educativa nos reeducaria para o fato de que o mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 dos pedestres e que eles tamb\u00e9m t\u00eam de estar informados sobre regras e perigos de tr\u00e2nsito. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 preciso estar na rua para ser atropelado. Ainda nestes dias pessoas foram atropeladas na cal\u00e7ada e h\u00e1 os que s\u00e3o atropelados dentro de casa! \u00c9 verdade que pedestres s\u00e3o obrigados a caminhar pelas ruas, especialmente velhos e crian\u00e7as, porque as cal\u00e7adas convertidas em rampas de acesso a garagens t\u00eam degraus que podem chegar a meio metro de altura, tornando-as in\u00fateis.<\/p>\n<p>Nos atropelamentos mais graves, sobretudo envolvendo \u00f4nibus e caminh\u00f5es, \u00e9 comum o argumento de que foi falha de freios. Falha de freios \u00e9 falta de revis\u00e3o e cuidado, responsabilidade do motorista, mas tamb\u00e9m do dono.<\/p>\n<p>Atropelamentos ocorridos em diferentes lugares do Brasil durante o m\u00eas de junho podem ser vistos numa perspectiva que acrescenta indica\u00e7\u00f5es aos fatores dessas ocorr\u00eancias letais. Em Pilar, na regi\u00e3o metropolitana de Macei\u00f3, no dia de S\u00e3o Pedro, um \u00f4nibus arrastou cinco caminh\u00f5es que transportavam festeiros na ca\u00e7amba, atropelou e matou 6 cavalos, tamb\u00e9m de festeiros, atropelou um grande n\u00famero de pedestres de um cortejo junino e deixou 5 mortos e 77 feridos. Na Rua da Feira, em Bangu (RJ), na v\u00e9spera de S\u00e3o Pedro, um comerciante, conhecido no bairro por ser contumaz na bebida e dirigir em alta velocidade, com a carteira vencida, atropelou os participantes de outra festa junina, derrubou um muro e um poste e matou 5 pessoas. Tentou fugir sem prestar socorro. Foi agarrado e quase linchado pelas testemunhas. Pagou R$ 800 de fian\u00e7a e foi para casa.<\/p>\n<p>Esses dois casos, como muitos outros, demonstram que existe no Brasil uma guerra de culturas, com v\u00edtimas fatais. No uso civilizado da rua em ocasi\u00f5es festivas da tradi\u00e7\u00e3o, o verdadeiro cidad\u00e3o recupera seus direitos sobre o espa\u00e7o p\u00fablico. Mas motoristas irrespons\u00e1veis avan\u00e7am sobre eles armados com seus ve\u00edculos e sua cacha\u00e7a para impor-lhes a nova ordem da m\u00e1quina mortal. Somos um pa\u00eds an\u00f4malo. Chegamos \u00e0 modernidade do ve\u00edculo automotor sem termos chegado \u00e0 civilidade da compet\u00eancia profissional para ter o direito de us\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a se\u00e7\u00e3o, cujo t\u00edtulo est\u00e1 acima, tenho mostrado neste blog, com ajuda de alguns leitores, a vergonha que acontece em Fortaleza com os carros&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[1009,2418],"class_list":["post-1362","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fortaleza-terra-de-ninguem","tag-fortaleza-terra-de-ninguem","tag-verbo-solto"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1362"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1362\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}