{"id":13945,"date":"2011-11-12T19:25:09","date_gmt":"2011-11-12T22:25:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=13945"},"modified":"2011-11-12T19:25:09","modified_gmt":"2011-11-12T22:25:09","slug":"jornalismo-literario-e-jornalismo-de-precisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/11\/12\/jornalismo-literario-e-jornalismo-de-precisao\/","title":{"rendered":"Jornalismo liter\u00e1rio e jornalismo de precis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O texto que se segue \u00e9 de autoria do jornalista americano <strong>Philip Meyer<\/strong>, autor do livro &#8220;Precision journalism: A reporter&#8217;s introduction to social science methods&#8221; &#8211; considerado um dos mais importantes livros sobre jornalismo e comunica\u00e7\u00e3o de massa no s\u00e9culo XX &#8211; e &#8220;Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era de informa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O artigo, uma palestra do autor, foi publicado no <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/_jornalismo_literario_e_jornalismo_de_precisao\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a>, de onde o recolhi, reproduzindo-o na \u00edntegra.\u00a0O texto \u00e9 bastante longo, mas jornalistas e aspirantes a, n\u00e3o podem deixar de l\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>Jornalismo liter\u00e1rio e jornalismo de precis\u00e3o<\/strong><br \/>\nPor Philip Meyer, em 08\/11\/2011, edi\u00e7\u00e3o 667 do OI.<\/p>\n<p><em>Em 3\/10\/2011, o veterano jornalista Philip Meyer, professor em\u00e9rito na Escola de Jornalismo e Comunica\u00e7\u00e3o de Massa da Universidade da Carolina do Norte, fez o discurso reproduzido abaixo na Academia Austr\u00edaca de Ci\u00eancias, como parte da Confer\u00eancia Hedy Lamarr. Tradu\u00e7\u00e3o: Leticia Nunes.<!--more--><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00cdntegra da palestra de Philip Meyer: &#8220;Jornalismo liter\u00e1rio e jornalismo de precis\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma honra estar aqui e compartilhar meus pensamentos sobre as mudan\u00e7as na ind\u00fastria das not\u00edcias. Eu contei a meu amigo Alvin Shuster, que foi correspondente do New York Times na Europa, \u201cEles querem que eu fa\u00e7a a Confer\u00eancia Hedy Lamarr\u201d. Ele ficou surpreso.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m\u201d, brincou, \u201cquer ouvir um conferencista de 80 anos que n\u00e3o se chama Einstein\u201d.<\/p>\n<p>Mas ser velho tem suas vantagens. \u00c9 mais f\u00e1cil compreender eventos que aconteceram h\u00e1 muito tempo. A idade nos permite ver as coisas de diferentes perspectivas. Como Steve Jobs falou em seu discurso na cerim\u00f4nia de formatura em Stanford, \u00e9 mais f\u00e1cil ligar os pontos olhando para tr\u00e1s. Eu tenho lido Viena Fin-De-Si\u00e8cle, de Carl E. Schorske, um relato das r\u00e1pidas mudan\u00e7as pol\u00edticas e culturais que a revolu\u00e7\u00e3o industrial trouxe a esta cidade no fim do s\u00e9culo 19. Para aqueles que viviam na \u00e9poca, ele diz, \u201cningu\u00e9m sabia muito como distinguir entre o que estava acima e abaixo, entre o que estava indo para frente e para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>E, hoje, tentando encontrar padr\u00f5es na atual confus\u00e3o em meu pr\u00f3prio pa\u00eds, vejo coisas estranhas acontecendo \u00e0 democracia. Imagino o quanto pode ser atribu\u00eddo ao modo como novas formas de m\u00eddia, especialmente a m\u00eddia social, permitem a jun\u00e7\u00e3o de pontos de vista polarizados. Seria isto uma aberra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria ou uma consequ\u00eancia permanente da tecnologia?<\/p>\n<p><strong>Fazer progn\u00f3sticos \u00e9 dif\u00edcil.<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Eu li o livro Forecasting the Telephone (Prevendo o Telefone), de Ithiel de Sola Pool, em que ele enumera as diferentes consequ\u00eancias que os especialistas previram quando o telefone estava em seu est\u00e1gio inicial, de 1876 a 1940. Algumas das previs\u00f5es eram bastante precisas. Por exemplo, uma feita em 1906 afirmava que o telefone facilitaria a administra\u00e7\u00e3o central de organiza\u00e7\u00f5es e campanhas pol\u00edticas. Uma que estava enganada, tamb\u00e9m feita em 1906, dizia que o bocal do telefone coletaria germes e espalharia doen\u00e7as, especialmente a tuberculose.<\/p>\n<p>Acad\u00eamicos hoje t\u00eam diferentes interpreta\u00e7\u00f5es para o que a tecnologia est\u00e1 fazendo ao jornalismo, e eu n\u00e3o posso ter certeza de que alguma delas esteja errada. Clay Shirky da Universidade de Nova York v\u00ea um per\u00edodo inevit\u00e1vel de caos. \u201cAs coisas velhas se quebram mais r\u00e1pido do que as coisas novas s\u00e3o postas no lugar\u201d, disse ele. \u201cA import\u00e2ncia de qualquer experimento n\u00e3o \u00e9 aparente no momento em que surge; grandes mudan\u00e7as paralisam, pequenas mudan\u00e7as se propagam\u201d.<\/p>\n<p>Eu tenho alguma experi\u00eancia para amparar esta observa\u00e7\u00e3o, tendo estado presente a uma grande mudan\u00e7a que acabou paralisada. De 1978 a 1981, ajudei a Knight Ridder a se preparar para seu empreendimento Viewtron. Meu trabalho era pesquisar o mercado e supervisionar a reda\u00e7\u00e3o do manual de usu\u00e1rio. Eu fiz discursos entusi\u00e1sticos alegando que esta nova tecnologia se provaria t\u00e3o revolucion\u00e1ria quanto a inven\u00e7\u00e3o do tipo m\u00f3vel. Mas ela ainda n\u00e3o havia chegado l\u00e1. Ainda que a informa\u00e7\u00e3o se movesse eletronicamente, movia-se lentamente, no fio telef\u00f4nico, \u00e0 taxa de velocidade de 300 pulsos por segundo. Seus gr\u00e1ficos eram exibidos em um aparelho de TV. Eles estavam crus. A parte que os usu\u00e1rios mais gostaram foi o e-mail, mas ele n\u00e3o despertou nosso interesse porque, pensamos, o e-mail n\u00e3o tinha nada a ver com jornais.<\/p>\n<p>Outros observadores focaram em interatividade como o principal valor criado pela nova tecnologia. Meu amigo Dan Gillmor nos deu o conceito de \u201ca ex-audi\u00eancia\u201d. A ind\u00fastria de not\u00edcias, disse ele, \u00e9 menos como uma confer\u00eancia e mais como um semin\u00e1rio. Isso me parece correto. E a diferen\u00e7a entre um semin\u00e1rio e uma confer\u00eancia \u00e9 que uma confer\u00eancia \u00e9 mais bem organizada. Se voc\u00eas j\u00e1 tiveram a experi\u00eancia de organizar a transcri\u00e7\u00e3o de um semin\u00e1rio em um produto coerente para ser publicado, sabem do que estou falando.<\/p>\n<p><strong>Organizando informa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Mas esta informa\u00e7\u00e3o precisa ser organizada para n\u00f3s? Jeff Jarvis, da Universidade da Cidade de Nova York, n\u00e3o tem tanta certeza. Ele acredita que a velocidade da informa\u00e7\u00e3o reduz a necessidade de uma composi\u00e7\u00e3o formal na forma de artigos. Hoje, diz ele, as not\u00edcias s\u00e3o mais um processo do que um produto. Em vez de ficar limitados a artigos, os consumidores podem penetrar no \u201cfluxo livre, sem in\u00edcio e sem fim, da corrente digital\u201d. Sob este ponto de vista, a manuten\u00e7\u00e3o do fluxo \u00e9 a principal tarefa do jornalismo, com artigos algumas vezes \u00fateis como um subproduto. Eu gosto da imagem da corrente sem in\u00edcio e sem fim. Mas acho que seus usu\u00e1rios v\u00e3o precisar de alguma ajuda para encontrar valor nela. Esta ajuda pode acabar se parecendo muito com \u201cartigos\u201d.<\/p>\n<p>Eu suspeito que todos n\u00f3s concordamos que as tecnologias da era da informa\u00e7\u00e3o produzem dados mais r\u00e1pido do que produzem conhecimento. Em vez de substituir o jornalismo, a Internet est\u00e1 criando uma nova necessidade de mercado: de s\u00edntese e interpreta\u00e7\u00e3o do crescente fluxo de fatos.<\/p>\n<p>Em Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informa\u00e7\u00e3o, eu comparei a era digital ao desenvolvimento da agricultura. Quando a ca\u00e7a e a colheita eram as principais fontes de alimento, poucos tinham o luxo de ser minucioso quanto a sua qualidade. Mas a agricultura criou tal abund\u00e2ncia que uma grande variedade de processamento tornou-se poss\u00edvel. Nos preocup\u00e1vamos menos com conseguir o bastante para comer e passamos a pensar sobre conte\u00fado vitam\u00ednico, fibra, gosto, textura, todos os tipos de vari\u00e1veis. E, nos EUA, atingimos um marco em 1983. Neste ano, a por\u00e7\u00e3o do produto interno bruto gasto na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, por exemplo, o processamento, come\u00e7ou a exceder a quantidade gasta na agricultura.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com a informa\u00e7\u00e3o. Agora que ela \u00e9 abundante, nosso interesse se volta ao processamento. Dois tipos s\u00e3o importantes economicamente. Um organiza a informa\u00e7\u00e3o para a recupera\u00e7\u00e3o eficiente pelo usu\u00e1rio final. Eu chamo isso de \u201cfacilidade de uso\u201d, e ela \u00e9 facilitada por artigos bem elaborados, ofertas multim\u00eddia, e arquitetura web. O outro processo acontece mais \u00e0 frente no sistema. Todos os fatos, na \u201ccorrente digital sem in\u00edcio e sem fim\u201d, precisam ser integrados em temas e conclus\u00f5es significativos. Fatos desorganizados n\u00e3o s\u00e3o o bastante.<\/p>\n<p><strong>Precisamos de estrutura para enxergar \u201ca verdade sobre os fatos\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>A verdade sobre os fatos: esta \u00e9 uma boa frase, mas n\u00e3o \u00e9 minha, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma redund\u00e2ncia. Vem de um relat\u00f3rio de 1947 da Comiss\u00e3o sobre a Liberdade de Imprensa liderada por Robert M. Hutchins. Com a tecnologia disponibilizando uma quantidade maior de fatos hoje, dizia ele seis d\u00e9cadas atr\u00e1s, encontrar a verdade sobre eles \u00e9 mais dif\u00edcil e mais importante.<\/p>\n<p>Se esta presci\u00eancia \u00e9 not\u00e1vel, considere Walter Lippmann. Ele havia enxergado esta mesma necessidade 25 anos antes. Em 1922, ele publicou Opini\u00e3o P\u00fablica, um cl\u00e1ssico ainda impresso hoje. No primeiro cap\u00edtulo, ele alertava que \u201ca exposi\u00e7\u00e3o direta ao fluxo e refluxo de sensa\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o \u00e9 o bastante. Assim ele exp\u00f4s sua teoria:<\/p>\n<p>Para o ambiente real \u00e9, como um todo, muito grande, muito complexo, e muito fugaz para o conhecimento direto. N\u00e3o estamos equipados para lidar com tanta sutileza, tanta variedade, tantas trocas e combina\u00e7\u00f5es. E ainda que tenhamos que atuar neste ambiente, temos que reconstru\u00ed-lo em um modelo mais simples antes que possamos administr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Lippmann sugeria o uso do que chamou de \u201cfic\u00e7\u00f5es\u201d para manejar dados, e ofereceu, como exemplo, os modelos esquem\u00e1ticos da ci\u00eancia. \u201cUm trabalho de fic\u00e7\u00e3o pode ter quase qualquer grau de fidelidade\u201d, disse, \u201ce desde que o grau de fidelidade seja levado em considera\u00e7\u00e3o, a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 enganosa\u201d.<\/p>\n<p>Walter Lippmann ainda estava vivo na segunda metade do s\u00e9culo 20, quando jornalistas come\u00e7aram a experimentar com duas novas maneiras de tornar a busca pela verdade mais manej\u00e1vel. O jornalismo de precis\u00e3o emprestou as ferramentas da ci\u00eancia. O jornalismo liter\u00e1rio era baseado em arte. Em seus est\u00e1gios iniciais, estas duas abordagens pareciam estar em conflito. Meu argumento hoje \u00e9 que, no s\u00e9culo 21, n\u00f3s devemos considerar a possibilidade de precisarmos dos dois.<\/p>\n<p>O que eles t\u00eam em comum \u00e9 o reconhecimento de que dados brutos precisam de estrutura para que se tornem coerentes. A ci\u00eancia cria estrutura com o que Lippmann chamou de modelos esquem\u00e1ticos, que v\u00eam da teoria. A arte cria estrutura atrav\u00e9s do modo de contar hist\u00f3rias. \u00c9 poss\u00edvel que encontremos meios de fundir estas duas estrat\u00e9gias e contar hist\u00f3rias sobre dados baseados em uma teoria verific\u00e1vel? Antes que pensemos sobre esta possibilidade, vamos considerar uma pequena hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>O \u201cNovo Jornalismo\u201d encontra o \u201cJornalismo de Precis\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em 1974, ano em que Walter Lippmann morreu, Everette E. Dennis e William L. Rivers publicaram um livro intitulado Other Voices (Outras vozes). Ele classificava o que seu subt\u00edtulo chamou de \u201cO Novo Jornalismo na Am\u00e9rica\u201d. Eles rotularam uma de suas categorias de \u201ca nova n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o\u201d. Hoje ela \u00e9 conhecida como \u201cjornalismo liter\u00e1rio\u201d ou \u201cn\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o criativa\u201d. Em reconhecimento a ter se tornado uma t\u00e9cnica mainstream, a Funda\u00e7\u00e3o Nieman, da Universidade Harvard, organizou uma confer\u00eancia anual com bom p\u00fablicosobre jornalismo liter\u00e1rio de 2001 a 2009. O comparecimento chegou perto de 900 em 2008, antes que a recess\u00e3o viesse a desencorajar viagens discricion\u00e1rias. O g\u00eanero come\u00e7ou a aparecer nos anos 1960. Suas t\u00e9cnicas de fic\u00e7\u00e3o incluem mon\u00f3logo interno \u2013 o que o personagem da mat\u00e9ria estava pensando \u2013 e detalhes do desenvolvimento do personagem e da descri\u00e7\u00e3o do ambiente. Entre os primeiros praticantes est\u00e3o Gay Talese, Tom Wolfe e Jimmy Breslin. Alguns romancistas tentaram pratic\u00e1-lo pelo outro lado, criando o romance de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Havia A Can\u00e7\u00e3o do Carrasco, de Norman Mailer, e A Sangue Frio, de Truman Capote.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi nos anos 60 que alguns de n\u00f3s come\u00e7aram a aplicar m\u00e9todos de pesquisa de ci\u00eancias sociais \u2013 incluindo an\u00e1lises estat\u00edsticas e verifica\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses \u2013 \u00e0 pr\u00e1tica do jornalismo. O g\u00eanero costuma ser chamado de \u201cjornalismo de precis\u00e3o\u201d, termo cunhado por Dennis. Ele e Rivers enxergaram o conflito. Os jornalistas liter\u00e1rios, diziam, \u201cs\u00e3o subjetivos a tal n\u00edvel que incomodam os jornalistas convencionais e horrorizam os jornalistas de precis\u00e3o. Em ess\u00eancia, todos os outros novos jornalistas levam o jornalismo para o lado da arte. Os jornalistas de precis\u00e3o o levam para o lado da ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas proeminentes da ci\u00eancia \u00e9 que ela \u00e9 conduzida de tal forma que seus resultados possam ser verificados. Isso significa perguntar uma quest\u00e3o de natureza de uma forma que voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 enganado pela resposta. Eu participei de um dos primeiros exemplos.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o de 1967, a Knight Newspapers enviou-me para ajudar o Detroit Free Press e sua equipe sobrecarregada a cobrir um dist\u00farbio por quest\u00f5es raciais na cidade. Eu havia acabado de completar um ano como bolsista da Funda\u00e7\u00e3o Nieman, da Universidade Harvard,e estava imerso no m\u00e9todo cient\u00edfico, particularmente o praticado por cientistas sociais. As ci\u00eancias sociais estavam na imin\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o. M\u00e9todos quantitativos, antes um subconjunto ex\u00f3tico, eram possibilitados pela queda r\u00e1pida no pre\u00e7o da pot\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o e pelo desenvolvimento de linguagens estat\u00edsticas de alto n\u00edvel. Harvard me ensinou a usar uma destas linguagens, chamada DATA-TEXT, escrita em Harvard para o IBM 7090.<\/p>\n<p>Enquanto o tumulto estava em progresso, no Free Press n\u00f3s cobr\u00edamos o evento com entrevistas e observa\u00e7\u00e3o direta. Mas se voc\u00ea seguir a l\u00f3gica de Lippmann, ver\u00e1 que as not\u00edcias s\u00e3o mais do que sobre os eventos. S\u00e3o tamb\u00e9m sobre padr\u00f5es e a estrutura fundamental que produz estes padr\u00f5es.<\/p>\n<p>Era com a estrutura fundamental que n\u00f3s est\u00e1vamos preocupados em nossa cobertura ap\u00f3s os conflitos em Detroit. Detroit tinha uma reputa\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es interraciais relativamente boas. O que mudou para causar o tumulto? Precis\u00e1vamos de algumas hip\u00f3teses. Em 1967, havia v\u00e1rias delas. A sabedoria convencional, como expressada por jornalistase cientistas sociais, oferecia algumas:<\/p>\n<p>** A teoria \u201criff-raff\u201d (ou teoria da ral\u00e9) \u2013 Dizia que os manifestantes vinham da base da escala s\u00f3cio-econ\u00f4mica e eram simplesmente incapazes de subir na vida por outros meios. (Voc\u00eas devem ter ouvido ecos desta teoria nos debates sobre os recentes dist\u00farbios na Inglaterra)<\/p>\n<p>** A teoria da n\u00e3o-assimila\u00e7\u00e3o \u2013 Uma por\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o afro-americana de Detroit consistia de migrantes do sul rural. Eles tinham dificuldade na socializa\u00e7\u00e3o no ambiente urbano do norte, com suas condi\u00e7\u00f5es de vida diversas, e ent\u00e3o recorriam \u00e0 rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>** A teoria das aspira\u00e7\u00f5es de ascens\u00e3o \u2013 Quanto mais se chega perto de um objetivo desejado, a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o atingi-lo aumenta. A priva\u00e7\u00e3o por compara\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dolorosa do que a priva\u00e7\u00e3o absoluta, e os dist\u00farbios eram uma express\u00e3o desta dor.<\/p>\n<p>No Free Press, contratamos consultores da Universidade de Michigan e organizamos uma pesquisa com uma amostra das resid\u00eancias na \u00e1rea dos conflitos, usando entrevistas pessoais. As quest\u00f5es eram designadas a testar aquelas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Descobrimos que os residentes que eram criados no norte eram mais suscet\u00edveis a participar dos tumultos do que seus vizinhos do sul. Tr\u00eas vezes mais, de fato. E l\u00e1 se foi a teoria da n\u00e3o-assimila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Descobrimos que educa\u00e7\u00e3o e status econ\u00f4mico n\u00e3o eram determinantesde um comportamento turbulento. Isso tornava falsa a teoria \u201criff-raff\u201d.<\/p>\n<p>Por elimina\u00e7\u00e3o, fomos deixados com a teoria das aspira\u00e7\u00f5es de ascens\u00e3o. A relativa priva\u00e7\u00e3o estava por tr\u00e1s da estrutura que levou ao padr\u00e3o que levou ao dist\u00farbio, o evento. Se n\u00e3o tivessemos entrado naquele projeto com teorias espec\u00edficas para testar, nossas hist\u00f3rias teriam sido compila\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas de fatos frouxamente relacionados.<\/p>\n<p>O movimento dos direitos civis e o movimento anti-guerra do fim dos anos 60 e dos anos 70 eram t\u00f3picos ideais para a aplica\u00e7\u00e3o do jornalismo de precis\u00e3o, e ele desde ent\u00e3o se tornou uma ferramenta padr\u00e3o para rep\u00f3rteres investigativos.<\/p>\n<p>Outro meio de reportar padr\u00e3o e estrutura \u00e9 atrav\u00e9s da narrativa. \u00c9 a\u00ed que os jornalistas liter\u00e1rios se sobressaem. Sua n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o criativa tem uma voz mais pessoal do que a escrita tradicional de not\u00edcias. Alguns acreditam que ela tem o potencial para tornar os jornais mais amistosos a seus leitores.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, como um jornalista de precis\u00e3o eu considerei os jornalistas liter\u00e1rios meus inimigos naturais. N\u00e3o ajudou que os primeiros praticantes por vezes foram pegos inventando coisas. Por exemplo, Gail Sheehy escreveu um artigo para a revista New York em 1973 que descrevia com grandes detalhes as escapadas sexuais e financeiras de uma prostituta em Nova York que foi chamada de \u201cRedpants\u201d. A\u00ed o Wall Street Journal revelou que n\u00e3o havia nenhuma \u201cRedpants\u201d. Sheehy havia usado uma combina\u00e7\u00e3o de diversas prostitutas para criar a compress\u00e3o dram\u00e1tica necess\u00e1ria para dar a sua hist\u00f3ria o ritmo e a profundidade da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1980, uma rep\u00f3rter do Washington Post, Janet Cook, escreveu um artigo liter\u00e1rio de cortar o cora\u00e7\u00e3o sobre um viciado em hero\u00edna de 13 anos chamado Jimmy. Infelizmente para ela, a mat\u00e9ria ganhou o Pr\u00eamio Pulitzer de Reportagem Especial em 1981, e isso levou a quest\u00f5es sobre Jimmy e pedidos de uma sequ\u00eancia. No fim das contas, ele n\u00e3o existia. Cook perdeu o emprego, e o pr\u00eamio foi anulado.<\/p>\n<p>A defesa daqueles que usam muito da fic\u00e7\u00e3o para produzir as not\u00edcias \u00e9 que eles est\u00e3o buscando \u201cuma verdade maior\u201d. De fato, a fic\u00e7\u00e3o far\u00e1 isso. Mas o leitor merece saber quando a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 o ve\u00edculo para a suposta verdade.<\/p>\n<p>O jornalismo liter\u00e1rio, como o jornalismo de precis\u00e3o, \u00e9 muito trabalhoso. Para reportar a rica e criativa estrutura da fic\u00e7\u00e3o, o escritor precisa primeiro montar um enorme conjunto de fatos, e a partir da\u00ed escolher aqueles que se adequam a uma estrutura narrativa. Jimmy Breslin, meu redator favorito, publicou um artigo na revista New York em 1968 que eu gostava de usar em minhas aulas de escrita jornal\u00edstica \u2013 como um exemplo excelente de escrita \u2013 e em minhas aulas de \u00e9tica como um exemplo de reportagem pobre.<\/p>\n<p>Breslin cobriu uma parte da campanha de Robert Kennedy pela nomea\u00e7\u00e3o Democrata para presidente e estava com ele quando o pol\u00edtico falou a estudantes no est\u00e1dio da Universidade Estadual do Kansas. Meses mais tarde, depois de Kennedy ter sido assassinado, Breslin voltou \u00e0 Universidade como palestrante convidado. Ele andou pelo campus com um grupo de alunos que continuava a falar sobre Kennedy.<\/p>\n<p>Sua narrativa lembrava a paix\u00e3o daqueles estudantes do meio-oeste e como Kennedy havia estimulado seu ativismo pol\u00edtico latente com sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra do Vietn\u00e3. Enquanto os ouvia lembrar do discurso, Breslin avistou um pr\u00e9dio de pedra calc\u00e1ria, suas paredes chamuscadas e seu interior devastado pelo fogo.<\/p>\n<p><strong>\u201cO que tinha naquele pr\u00e9dio\u201d, perguntou aos alunos.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO ROTC\u201d.<\/p>\n<p>ROTC, \u00e9 claro, \u00e9 o Reserve Officer Training Corps (Centro de Prepara\u00e7\u00e3o de Oficiais da Reserva), um programa de quatro anos que permitia que um estudante tivesse treinamento militar ao mesmo tempo em que recebia o t\u00edtulo de bacharel. O sentimento anti-guerra nos anos 60 levou algumas universidades, incluindo Harvard, a bani-lo de seus campi.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o tema da narrativa de Breslin era que o radicalismo anti-guerra havia chegado \u00e0 conservadora Kansas no meio do continente, e ele voltou para casa com a hist\u00f3ria final para a mat\u00e9ria pronta, o que os jornalistas chamam de \u201cthe kicker\u201d. Alunos manifestantes haviam queimado o pr\u00e9dio do ROTC.<\/p>\n<p>Mas na verdade eles n\u00e3o queimaram. Eu estudei na Universidade Estadual do Kansas. O ROTC estava naquela \u00e9poca, e continua, do outro lado do campus. O pr\u00e9dio queimado era o Gin\u00e1sio Nichols. Ele continha um gin\u00e1sio, uma piscina, e a esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio estudantil. O incendi\u00e1rio era um alunoperturbado emocionalmente cujo descontentamento n\u00e3o tinha nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a guerra no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou acusando Breslin de inventar a parte sobre o ROTC. Talvez ele estivesse desinformado. O ROTC guardava seus rifles no Gin\u00e1sio Nichols at\u00e9 1942, quando o Departamento de Ci\u00eancia Militar ganhou seu pr\u00f3prio pr\u00e9dio. Talvez algu\u00e9m tenha mencionado isso, e ele chegou \u00e0 conclus\u00e3o errada. O problema com o jornalismo liter\u00e1rio \u00e9 que os escritores ficam tentados a evitar a checagem de fatos por medo de que os fatos estraguem uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 devem ter notado que todos os meus exemplos de erros no jornalismo liter\u00e1rio s\u00e3o antigos. Talvez seus praticantes estejam melhorando.<\/p>\n<p><strong>\u201cNarrativa baseada em evid\u00eancias\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ambos os g\u00eaneros, o jornalismo liter\u00e1rio e o jornalismo de precis\u00e3o, s\u00e3o formas especiais que precisam de habilidades especiais. Se f\u00f4ssemos misturar os dois, como chamar\u00edamos esta mistura? Eu gosto do termo \u201cnarrativa baseada em evid\u00eancias\u201d. Ele sugere uma boa forma de contar hist\u00f3rias com base em evid\u00eancias verific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Sim, esta seria uma especialidade esot\u00e9rica. Mas eu acredito que h\u00e1 um mercado em desenvolvimento para ela. O mercado da informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 nos levando inexoravelmente para uma cada vez maior especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o jornalismo vem evoluindo de um modelo de produ\u00e7\u00e3o em massa para uma comunica\u00e7\u00e3o mais \u00edntima. A m\u00eddia tradicional estava fabricando produtos. Eles precisavam de economias de escala para justificar os custos de seus meios de produ\u00e7\u00e3o\u2013 uma m\u00e1quina de impress\u00e3o ou equipamentos de transmiss\u00e3o. E assim o jornalismo se tratava de criar algumas mensagens destinadas a alcan\u00e7ar muitas pessoas. Mas com o aumento do n\u00famero de canais pela tecnologia, a nova economia da informa\u00e7\u00e3o suporta mais conte\u00fado especializado \u2013 muitas mensagens, cada uma atingindo um n\u00famero menor de pessoas. Isso significa que, como p\u00fablico, n\u00f3s temos menos experi\u00eancias comuns que constroem valores comuns.<\/p>\n<p>Eu costumava chocar meus alunos declarando, \u201ceu lembro [pausa dram\u00e1tica] de quando n\u00e3o havia televis\u00e3o!\u201d. E de um tempo em que n\u00e3o havia r\u00e1dio FM. Nas noites de domingo nos EUA quando eu tinha 11 anos de idade, 75% da audi\u00eancia de r\u00e1dio ouvia o mesmo programa transmitido nacionalmente na r\u00e1dio AM: o Programa Jack Benny, 30 minutos de m\u00fasica e com\u00e9dia. Quando o presidente Franklin D. Roosevelt concorria a seu quarto mandato em 1944, um de seus discursos chegou a 83% daqueles que ouviam r\u00e1dio. Eram cotas de audi\u00eancia muito grandes, e sua dimens\u00e3o as tornava imensamente valiosas para os anunciantes. De fato, o valor de um meio de comunica\u00e7\u00e3o para os anunciantes era julgado pelo que os vendedores de an\u00fancios chamavam de CPM, que significa o custo por mil consumidores atingidos.<\/p>\n<p>Este c\u00e1lculo dava a todos os membros da audi\u00eancia pesos iguais. A transi\u00e7\u00e3o para mensagens de m\u00eddia mais especializadas tornou poss\u00edvel considerar as caracter\u00edsticas da audi\u00eancia, e permitiu que os anunciantes voltassem suas mensagens a grupos especializados. O CPM \u00e9 menos importante hoje como uma medida de valor publicit\u00e1rio. A qualidade da audi\u00eancia \u00e9 mais importante que sua quantidade.<\/p>\n<p>Agora transporte esta tend\u00eancia \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o aos dias de hoje, e o que voc\u00ea encontra? Twitter e mensagens de texto. Muitas mensagens curtas, cada uma destinada por suas fontes a indiv\u00edduos ou grupos pequenos que escolhem segui-las. Esta \u00e9 a por\u00e7\u00e3o mais precisa e especializada do que Jarvis chamou de \u201ccorrente sem fim\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio que um ambiente que premia a especializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limite \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o do assunto. Ele pode tamb\u00e9m construir uma especializa\u00e7\u00e3o baseada em metodologia. Ambos jornalismo de precis\u00e3o e jornalismo liter\u00e1rio interessam a uma audi\u00eancia sofisticada, que aprecia a necessidade de que a informa\u00e7\u00e3o seja estruturada de um modo que o foco da aten\u00e7\u00e3o esteja na verdade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que n\u00e3o \u00e9 um sonho t\u00e3o extravagante que o jornalismo com base em evid\u00eancias, incorporando precis\u00e3o e narrativa, possa preencher a necessidade por interpreta\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel e sele\u00e7\u00e3o da verdade relevante do fluxo eterno de dados.<\/p>\n<p>As previs\u00f5es tecnol\u00f3gicas de maior sucesso, como Ithiel Pool descobriu, foram aquelas que combinaram o estudo de possibilidades t\u00e9cnicas com an\u00e1lise de mercado. Os empreendedores bem sucedidos v\u00e3o analisar a necessidade de mercado e trabalhar a partir da\u00ed, construindo um sistema para chegar a uma necessidade comprovada, e n\u00e3o uma necessidade imaginada. N\u00f3s dever\u00edamos ter pensado nisso quando construimos o servi\u00e7o Viewtron.<\/p>\n<p><strong>Sobrecarga de informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A necessidade por sistemas que sintetizem e processem dados em conhecimento compartilhado vai, eu prevejo, se tornar \u00f3bvia. Dado n\u00e3o processado \u00e9 indistingu\u00edvel de ru\u00eddo. Enquanto o fluxo sem fim de dados cresce, o mesmo ocorre com a demanda por institui\u00e7\u00f5es e m\u00e9todos melhores para process\u00e1-los.<\/p>\n<p>Como eles ser\u00e3o formados? Na primavera passada, a ag\u00eancia que regula o fluxo de informa\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica nos EUA, a Comiss\u00e3o Federal de Comunica\u00e7\u00f5es, divulgou um relat\u00f3rio sobre as necessidades de informa\u00e7\u00e3o de comunidades em um mundo banda larga. Eu sugeri que as institui\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ser\u00e3o o resultado espont\u00e2neo das for\u00e7as do mercado. A velha e a nova m\u00eddia v\u00e3o aperfei\u00e7oar a efetividade uma da outra, falei.<\/p>\n<p>Multid\u00f5es podem analisar documentos brutos, e rep\u00f3rteres podem encontrar a fonte no \u00f3rg\u00e3o para descrever sua import\u00e2ncia ou revelar que documentos foram sonegados. Cidad\u00e3os podem fornecer atualiza\u00e7\u00f5es via Twitter de um acontecimento, e rep\u00f3rteres podem buscar padr\u00f5es e determinar quais tu\u00edtes devem ser interesseiros ou fraudulentos.<\/p>\n<p>Pode ser. Mas eu n\u00e3o acho que ser\u00e1 assim t\u00e3o f\u00e1cil. Os padr\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o sempre t\u00e3o \u00f3bvios. Maiores habilidades anal\u00edticas e narrativas ser\u00e3o necess\u00e1rias. N\u00e3o ser\u00e1 com frequ\u00eancia que as duas habilidades, anal\u00edtica e narrativa, poder\u00e3o ser combinadas em um rep\u00f3rter, ent\u00e3o precisaremos de mais reportagem de equipe e editores capazes de recrutar e coordenar o talento necess\u00e1rio. Em outras palavras, a velha m\u00eddia ter\u00e1 que mudar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O caso do Detroit Free Press em 1967 foi um progn\u00f3stico deste desenvolvimento. O Pr\u00eamio Pulitzer foi concedido \u00e0 equipe do jornal pela totalidade de seu trabalho, a cobertura local, as interpreta\u00e7\u00f5es narrativas, as investiga\u00e7\u00e3o das 43 mortes, e a pesquisa. Na \u00e9poca, o comit\u00ea do Pulitzer preferia reconhecer esfor\u00e7o individual, mas pr\u00eamios de equipe se tornaram mais comuns \u00e0 medida que organiza\u00e7\u00f5es de not\u00edcias bem administradas passaram a usar uma variedade de habilidades para produzir grandes pautas.<\/p>\n<p>Eu vejo isso acontecendo recentemente em alguns ve\u00edculos de m\u00eddia investigativos sem fins lucrativos que come\u00e7aram a preencher o v\u00e1cuo deixado por jornais moribundos. A ProPublica, sediada em Nova York, juntou-se ao Seattle Times em dezembro \u00faltimo para reportar sobre a crise das hipotecas nos EUA. A ProPublica forneceu uma especialista em inform\u00e1tica, Jennifer Lefluer, para fazer o levantamento pesado da an\u00e1lise de dados, e o Times forneceu um rep\u00f3rter, Sanjay Bhatt. Eles reuniram uma amostra de probabilidade de cerca de 400 execu\u00e7\u00f5es hipotec\u00e1rias em tr\u00eas \u00e1reas metropolitanas, Seattle, Baltimore e Phoenix. Sua mat\u00e9ria escrita em conjunto combinava an\u00e1lise quantitativa com reportagem de interesse humano, e mostrava vividamente como a combina\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es frouxos de empr\u00e9stimos e pre\u00e7os inflados de im\u00f3veis havia causado a crise. E demonstrava que se reguladores governamentais tivessem conservado melhor os registros poderiam ter fornecido algum alerta antecipado.<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es como a ProPublica t\u00eam uma oportunidade imensa. Elas podem se destacar t\u00e3o claramente do ru\u00eddo confuso da sobrecarga de informa\u00e7\u00e3o, seu valor pode ser t\u00e3o extraordin\u00e1rio, que todos v\u00e3o querer prestar aten\u00e7\u00e3o nelas. Voc\u00eas veem um padr\u00e3o aqui? Mais uma vez, n\u00f3s talvez possamos ser capazes de enviar poucas mensagens a muitas pessoas, em uma revers\u00e3o da desmassifica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. Seria poss\u00edvel novamente prestar aten\u00e7\u00e3o a interesses comuns.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou o primeiro a sugerir isso. W. Russell Neuman, o cientista pol\u00edtico americano, levantou a mesma quest\u00e3o em 1991 quando publicou The Future of the Mass Audience (O futuro da audi\u00eancia de massa). Jornais eram poderosos porque seus gastos com a produ\u00e7\u00e3o criaram um gargalo que levou a um monop\u00f3lio natural. A nova m\u00eddia, ainda que a produ\u00e7\u00e3o seja barata, poderia criar um valor incomum ao melhorar a qualidade mais \u00e0 frente no processo, no fim criativo. \u00c9 a\u00ed que estar\u00e1 o gargalo.<\/p>\n<p>Tal desenvolvimento pode nos salvar de uma maior fragmenta\u00e7\u00e3o do mercado de informa\u00e7\u00e3o. E esta fragmenta\u00e7\u00e3o, como eventos no meu pa\u00eds demonstram, pode ser perigosa.<\/p>\n<p>Psic\u00f3logos sociais h\u00e1 tempos se preocupam com o que ficou originalmente conhecido como \u201cs\u00edndrome de desvio para o risco\u201d. Um bacharel em 1961 descobriu que decis\u00f5es tomadas por grupos tendem a levar a a\u00e7\u00f5es mais perigosas do que decis\u00f5es tomadas por indiv\u00edduos. Mais recentemente, isso foi chamado de \u201cpolariza\u00e7\u00e3o de grupo\u201d, reconhecendo que a mudan\u00e7a pode levar tamb\u00e9m para o outro extremo, a in\u00e9rcia pelo medo. O prolongamento da guerra no Vietn\u00e3 foi atribu\u00eddo a este fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>A tecnologia da informa\u00e7\u00e3o de hoje, como voc\u00eas sabem, encoraja a forma\u00e7\u00e3o de grupos de pensamento igual. Tornou-se mais f\u00e1cil para membros se encontrarem quando a comunica\u00e7\u00e3o mudou de um modelo de um para muitos para um sistema de muitos para muitos. Redes sociais encorajam a polariza\u00e7\u00e3o ao confirmar e amplificar pontos de vista extremos.<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o a causa da atual pane no governo dos EUA? N\u00f3s temos base para especula\u00e7\u00e3o. Agora que a m\u00eddia \u00e9 \u201csocial, global, onipresente e barata\u201d, como diz Clay Shirky, n\u00f3s n\u00e3o podemos mais pensar no \u201cp\u00fablico\u201d da mesma maneira. Em vez disso, pol\u00edticos t\u00eam que lidar com grupos que focam em quest\u00f5es \u00fanicas. Talvez voc\u00eas tenham ouvido falar de Grover Norquist, um cidad\u00e3o americano que teve como miss\u00e3o seguirlegisladores e persuadi-los a assinar um compromisso contra o aumento de impostos. At\u00e9 o fim de setembro, a maioria da C\u00e2mara dos Representantes, 235 de 435, e quase metade do Senado, 41 de 100, haviam assinado o documento.<\/p>\n<p>Voc\u00eas veem o que isso faz para a democracia? Por defini\u00e7\u00e3o, a democracia representativa \u00e9 um processo deliberativo. Voc\u00ea n\u00e3o pode conduzir uma democracia por referendo, porque um referendo apresenta cada quest\u00e3o isoladamente. As pessoas querem coisas conflitantes. N\u00f3s queremos impostos mais baixos e mais servi\u00e7os. N\u00f3s queremos menos regula\u00e7\u00e3o, exceto onde a regula\u00e7\u00e3o protege nosso caso em especial. Resolver estes conflitos requer delibera\u00e7\u00e3o, e \u00e9 para isso que serve um \u00f3rg\u00e3o legislativo. Benjamin Franklin expressou bem esta ideia durante a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional de 1787.<\/p>\n<p>\u201cQuando uma mesa larga est\u00e1 para ser constru\u00edda, e as beiras da t\u00e1bua n\u00e3o encaixam\u201d, disse ele, \u201co artes\u00e3o tira um pouco de cada lado e faz um bom encaixe\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, desde os dias de Franklin, a velocidade e o volume de informa\u00e7\u00e3o aumentaram por ordem de grandeza. Quando a m\u00eddia \u00e9 \u201csocial, global, onipresente e barata\u201d, grupos de interesse \u00fanico podem focar com grande intensidade em pol\u00edticos e atar suas m\u00e3os antes mesmo de tentativas de aparar as arestas. Seria isso uma aberra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria ou uma barreira estrutural permanente que mudar\u00e1 o modo como funciona a democracia?<\/p>\n<p>Somente o tempo ir\u00e1 dizer, mas a informa\u00e7\u00e3o deve ajudar a democracia, n\u00e3o prejudic\u00e1-la. N\u00f3s precisamos de novas institui\u00e7\u00f5es para construir novas formas de m\u00eddia que deixar\u00e3o que a verdade se destaque da confus\u00e3o barulhenta e exijam aten\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o confi\u00e1veis e compreens\u00edveis. O jornalismo liter\u00e1rio combinado ao jornalismo de precis\u00e3o poderia fazer isso. Vamos come\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto que se segue \u00e9 de autoria do jornalista americano Philip Meyer, autor do livro &#8220;Precision journalism: A reporter&#8217;s introduction to social science methods&#8221;&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24,26],"tags":[1297,1304,1799],"class_list":["post-13945","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-livros","tag-jornalismo-de-precisao","tag-jornalismo-literario","tag-philip-meyer"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13945"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13945\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}