{"id":14187,"date":"2011-12-25T17:57:48","date_gmt":"2011-12-25T20:57:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=14187"},"modified":"2011-12-25T17:57:48","modified_gmt":"2011-12-25T20:57:48","slug":"graciliano-retrato-fragmentado-a-precisao-como-metodo-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2011\/12\/25\/graciliano-retrato-fragmentado-a-precisao-como-metodo-de-trabalho\/","title":{"rendered":"&#8220;Graciliano &#8211; Retrato fragmentado&#8221;: a precis\u00e3o como m\u00e9todo de trabalho"},"content":{"rendered":"<p>Ler Graciliano Ramos deveria ser obrigat\u00f3rio em todas as escolas de jornalismo. Ele \u00e9 exemplo de concis\u00e3o; do uso preciso de cada palavra. Nada em seu texto \u00e9 ao acaso.<\/p>\n<p>Para quem quiser conhecer um pouco mais de seu m\u00e9todo de trabalho, sugiro a leitura de &#8220;Graciliano Ramos &#8211; Retrato fragmentado&#8221;, de autoria de Ricardo Ramos, seu filho mais novo. O livro foi lan\u00e7ado em 1992 e ganhou uma boa reedi\u00e7\u00e3o da editora Globo, com pref\u00e1cio de Rog\u00e9rio Ramos, neto de Graciliano, filho de Ricardo.<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/graciliano-retrato-fragmentado-a-precisao-como-metodo-de-trabalho\/graciliano\/\" rel=\"attachment wp-att-14188\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-14188\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2011\/12\/Graciliano.jpg\" width=\"267\" height=\"410\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2011\/12\/Graciliano.jpg 267w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2011\/12\/Graciliano-120x184.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Cavalo<\/strong><\/p>\n<p>Filiado ao PCB, stalinista, a ponto de chorar (o que foi uma surpresa para mim) quando morreu Joseph Stalin, Graciliano nunca se submeteu aos c\u00e2nones do &#8220;realismo socialista&#8221;. Para Jd\u00e2nov, encarregado pelo PCURSS de produzir informes sobre arte e literatura para orientar os escritores do partido, Graciliano tinha um substantivo (ele evitava adjetivos):<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um cavalo.<\/p>\n<p><strong>Que demais<\/strong><\/p>\n<p>De outra feita, pediu ao filho para revisar &#8220;Ang\u00fastia&#8221;, dizendo-lhe ter &#8220;que&#8221; demais. Ricardo releu a obra e diz ter achado apenas quatro &#8220;ques&#8221; pass\u00edveis de supress\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3timo, valeu a pena. S\u00e3o quatro pestes a menos.<\/p>\n<p><strong>Viagem<\/strong><\/p>\n<p>O melhor cap\u00edtulo \u00e9 o \u00faltimo, que come\u00e7a depois de morte de Graciliano (1953). Nele, Ricardo comenta a fortuna cr\u00edtica da obra do pai e mostra como ela come\u00e7a a ganhar vulto, fora do c\u00edrculo de escritores e cr\u00edticos liter\u00e1rios. Mostra tamb\u00e9m a luta que a fam\u00edlia teve com a dire\u00e7\u00e3o do PCB que queria ler &#8220;Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere&#8221; e &#8220;Viagem&#8221; (relato que Graciliano fez de sua visita \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) antes de serem publicados.<\/p>\n<p>O trecho mais conhecido do livro \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o que Ricardo faz das orienta\u00e7\u00f5es que recebe de Graciliano, quando ele (o filho) come\u00e7a na sua lida de escritor. Serve como uma pequena aula, principalmente para jornalistas. \u00a0Veja.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Ricardo Ramos<\/strong><br \/>\nno livro \u201cGraciliano &#8211; Retrato fragmentado\u201d<\/p>\n<p>Eu tinha pouco menos de 15 anos quando cheguei ao Rio e foi a\u00ed que praticamente conheci meu pai. Sua pris\u00e3o me deixara muito pequeno, l\u00e1 em Macei\u00f3, na casa de meu av\u00f4 materno. Umas f\u00e9rias ligeiras, dois meses corridos entre espantos cariocas, n\u00e3o haviam bastado para nos aproximar. Se dele quase n\u00e3o aguardara nem o rosto, quanto mais tra\u00e7os de temperamento. \u00c9 facil imaginar as surpresas que tive, no primeiro encontro, me oferecendo um cigarro (&#8220;Voc\u00ea fuma?&#8221;) ou nas muitas conversas continuadas.<\/p>\n<p>Logo eu trabalhava em jornal, fazia pol\u00edtica, estudava \u00e0 noite. Ele era inspetor de ensino na minha escola, acreditei piamente que s\u00f3 fiscalizava a mim. Depois eu come\u00e7ava a escrever, umas coisas que pareciam contos, e naturalmente foi meu primeiro leitor. Al\u00e9m do geral de pol\u00edtica e literatura, nosso terreno mais comum, passamos a falar daquilo em particular. Principiava meu aprendizado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o escreva &#8220;algo&#8221; &#8211; ele implicou<\/p>\n<p>Quis saber por qu\u00ea, me respondeu<br \/>\n&#8211; \u00c9 crime confesso de imprecis\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde eu estranhei:<br \/>\n&#8211; Por que voc\u00ea n\u00e3o usa retic\u00eancias e exclama\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou um segundo:<br \/>\n&#8211; Retic\u00eancias, porque \u00e9 melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclama\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o sou idiota para ficar me espantando \u00e0 toa.<\/p>\n<p>E certa vez, a prop\u00f3sito de um par\u00e1grafo que eu empregara diferentes tempos de um verbo (passado, presente, futuro), recomendou:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a isso.<\/p>\n<p>Resisti, Machado de Assis fazia, at\u00e9 numa frase. Estava certo. Era um erro sim. N\u00e3o gramatical, mas de pensamento. Ningu\u00e9m raciocina aos pulos. E arrematou:<br \/>\n&#8211; O importante \u00e9 escrever duas p\u00e1ginas no condicional sem ficar monoc\u00f3rdio, nem dar eco, sem que se perceba.<br \/>\nEsmoreci, confessando:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vou conseguir isso nunca.<br \/>\nEle me animou:<br \/>\n&#8211; Vai, sim. Com suor, paci\u00eancia, vai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ler Graciliano Ramos deveria ser obrigat\u00f3rio em todas as escolas de jornalismo. Ele \u00e9 exemplo de concis\u00e3o; do uso preciso de cada palavra. 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