{"id":15168,"date":"2012-06-03T19:28:12","date_gmt":"2012-06-03T22:28:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=15168"},"modified":"2012-06-03T19:28:12","modified_gmt":"2012-06-03T22:28:12","slug":"o-jornalista-que-anunciou-o-fim-da-2%c2%aa-guerra-antes-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2012\/06\/03\/o-jornalista-que-anunciou-o-fim-da-2%c2%aa-guerra-antes-de-todos\/","title":{"rendered":"O jornalista que anunciou o fim da 2\u00aa Guerra antes de todos"},"content":{"rendered":"<p>Jornal O Globo, 3 de junho, 2012<\/p>\n<p><strong>A maior not\u00edcia do s\u00e9culo<\/strong><br \/>\nDorrit Harazim<\/p>\n<p>Benito Mussolini havia sido enforcado dez dias antes e Adolf Hitler tinha se suicidado na semana anterior; os russos estavam em Berlim e as tropas nazistas j\u00e1 haviam se rendido em It\u00e1lia, Dinamarca, Noruega e Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p>A Segunda Guerra Mundial estava por um fio, com Winston Churchill, Josef Stalin e Harry Truman prontos para fazer seus discursos de vit\u00f3ria. Faltava, por\u00e9m, um comunicado oficial atestando o final da carnificina que j\u00e1 durava seis anos.<\/p>\n<p>Eram 3h24m da tarde de 7 de maio de 1945 quando o escrit\u00f3rio da ag\u00eancia de not\u00edcias Associated Press (AP) em Londres recebeu o telefonema que acabou com a guerra antes do combinado. A liga\u00e7\u00e3o chegara atrav\u00e9s de um canal militar n\u00e3o sujeito \u00e0 censura, e tinha o chefe do escrit\u00f3rio de Paris da AP no outro lado da linha. \u201cAqui \u00e9 Ed Kennedy. A Alemanha capitulou incondicionalmente. Repito, capitulou incondicionalmente. \u00c9 oficial. Coloque Reims, Fran\u00e7a, como proced\u00eancia e solte a not\u00edcia, j\u00e1.\u201d<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o discutiu sua decis\u00e3o com nenhum chefe. O texto tinha perto de 300 palavras. \u201cAgora \u00e9 esperar para ver o que acontece\u201d, comentou, ap\u00f3s desligar.<br \/>\nDois minutos mais tarde, Londres transmitia a bomba para a central em Nova York, que ainda segurou a not\u00edcia por oito minutos antes de coloc\u00e1-la no ar.<\/p>\n<p>Instantaneamente r\u00e1dios por toda a Am\u00e9rica interromperam suas programa\u00e7\u00f5es para dar a grande nova, edi\u00e7\u00f5es extras de jornais inundaram as ruas e o furo tinha tudo para ser o momento de maior triunfo profissional e pessoal de Edward Kennedy, j\u00e1 consagrado como um dos grandes nomes de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os fatos seguiram outro roteiro. Passadas menos de 24 horas, Kennedy fora suspenso por tempo indeterminado e seria demitido mais tarde, sem alarde. No mesmo dia, o presidente do Conselho da AP divulgava um comunicado lamentando \u201cprofundamente\u201d o monumental furo obtido pelo jornalista.<\/p>\n<p>Perto de 50 correspondentes de guerra do front europeu recomendaram a revoga\u00e7\u00e3o de sua credencial. Kennedy acabou expulso da Fran\u00e7a pelo Comando Supremo das For\u00e7as Aliadas e teve de retornar aos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cFaria tudo de novo\u201d, declarou apenas, ao desembarcar. Conseguiu emprego como redator-chefe num pequeno jornal da Calif\u00f3rnia, o \u201cSanta Barbara News-Press\u201d, fez uma tentativa como publisher do \u201cMonterrey Peninsula Herald\u201d e morreu num acidente de autom\u00f3vel aos 58 anos de idade. Seu pecado capital foi ter desafiado a censura e atropelado um embargo de not\u00edcia.<\/p>\n<p>Passaram-se 67 anos desde ent\u00e3o. Somente agora, tr\u00eas semanas atr\u00e1s, a Associated Press admitiu oficialmente que Edward Kennedy fizera o certo.<br \/>\n\u201cFoi um dia negro para a Associated Press, que administrou o fato da pior maneira poss\u00edvel\u201d, desculpou-se em nome da empresa Tom Curley, atual diretor executivo da ag\u00eancia noticiosa e coautor do pref\u00e1cio do livro, de onde foram tiradas as informa\u00e7\u00f5es para este artigo.<\/p>\n<p>O pedido p\u00f3stumo de desculpas veio junto com a chegada \u00e0s livrarias do livro de mem\u00f3rias do jornalista \u2014 \u201cEd Kennedy\u2019s War: V-E Day, Censorship and the Associated Press\u201d, dispon\u00edvel na Amazon. Recomenda-se a leitura a todo jornalista, uma vez que o dilema que se apresentou para Kennedy, al\u00e9m de universal, \u00e9 atual\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea d\u00e1 a algu\u00e9m uma caneta e a autoridade de um censor, estranhas coisas acontecem\u201d, costumava dizer Kennedy, que seguiu \u00e0 risca a demarcat\u00f3ria definida por Franklin D. Roosevelt: a censura s\u00f3 \u00e9 justificada se estiver a servi\u00e7o da prote\u00e7\u00e3o das for\u00e7as aliadas em combate.<\/p>\n<p>Na noite da rendi\u00e7\u00e3o, Kennedy integrava o grupo de 17 correspondentes de guerra reunidos \u00e0s pressas pelo comando aliado para testemunhar o momento. Todos tiveram de assinar um termo de sigilo a bordo do avi\u00e3o militar que os levou de Paris para Reims, no nordeste da Fran\u00e7a, onde o general Dwight Eisenhower havia instalado seu QG avan\u00e7ado. S\u00f3 divulgariam o que veriam quando autorizados pelo comando Aliado.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, o embargo acordado duraria apenas algumas horas, mas logo os jornalistas foram informados de que ao fim da Segunda Guerra Mundial s\u00f3 poderia ser noticiado 36 horas depois, \u00e0s tr\u00eas da tarde do dia seguinte.<\/p>\n<p>S\u00f3 que passadas doze horas da capitula\u00e7\u00e3o, uma pequena r\u00e1dio alem\u00e3 da cidade de Flensburg vazara a informa\u00e7\u00e3o e Kennedy procurou dobrar os censores americanos. Nada feito.<\/p>\n<p>\u201cO general Eisenhower at\u00e9 desejaria que a not\u00edcia seja divulgada de imediato para que vidas sejam salvas, mas suas m\u00e3os est\u00e3o atadas por esferas pol\u00edticas superiores\u201d, respondeu-lhe \u00e0 \u00e9poca o porta-voz do comandante.<\/p>\n<p>As esferas pol\u00edticas superiores chamavam-se Stalin, Truman e Winston Churchill. Os tr\u00eas haviam concordado em bloquear a not\u00edcia da capitula\u00e7\u00e3o por um dia para dar tempo ao marechal russo de tamb\u00e9m preparar a cerim\u00f4nia de rendi\u00e7\u00e3o que presidiria em Berlim.<\/p>\n<p>Assim, todos fariam comunicados simult\u00e2neos a seus povos, pontualmente \u00e0s 3 horas da tarde do dia 8 de maio de 1945.<br \/>\nKennedy tomou a decis\u00e3o de furar unilateralmente o acordo ao constatar que n\u00e3o estaria colocando em risco a vida de nenhum soldado. Pelo contr\u00e1rio, abreviaria a matan\u00e7a em algumas horas, o que j\u00e1 era muito.<\/p>\n<p>De fato, naquele mesmo 7 de maio, um submarino alem\u00e3o afundara duas embarca\u00e7\u00f5es na costa da Esc\u00f3cia e os combates prosseguiram na Checoslov\u00e1quia e na Iugosl\u00e1via. Ademais, com a assinatura da rendi\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o dos censores militares perdia validade, a seu ver.<\/p>\n<p>Duas vozes contundentes sa\u00edram em sua defesa \u00e0 \u00e9poca. A primeira foi a de A. J. Liebling, na revista \u201cNew Yorker\u201d, em artigo intitulado \u201cA rendi\u00e7\u00e3o da AP\u201d. A segunda foi a de Wes Gallagher, despachado pela Associated Press para substituir Kennedy no escrit\u00f3rio de Paris.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o de seu primeiro encontro com Eisenhower, o rep\u00f3rter comentou com o general que no lugar do antecessor teria feito a mesma coisa,<br \/>\nacrescentando: \u201cApenas teria lhe telefonado antes.\u201d<\/p>\n<p>Ike retorquiu que, nessa hip\u00f3tese, teria ordenado sua pris\u00e3o. Resposta de Gallagher: \u201cMas isso n\u00e3o teria abortado a not\u00edcia.\u201d<\/p>\n<p>Dorrit Harazim \u00e9 jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornal O Globo, 3 de junho, 2012 A maior not\u00edcia do s\u00e9culo Dorrit Harazim Benito Mussolini havia sido enforcado dez dias antes e Adolf Hitler&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1291,2171],"class_list":["post-15168","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-jornalismo","tag-segunda-guerra"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15168"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15168\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}