{"id":15283,"date":"2012-06-22T14:43:30","date_gmt":"2012-06-22T17:43:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=15283"},"modified":"2012-06-22T14:43:30","modified_gmt":"2012-06-22T17:43:30","slug":"alegorias-da-maldicao-a-escrita-fantastica-de-jose-alcides-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2012\/06\/22\/alegorias-da-maldicao-a-escrita-fantastica-de-jose-alcides-pinto\/","title":{"rendered":"&#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o, a escrita fant\u00e1stica de Jos\u00e9 Alcides Pinto&#8221; ser\u00e1 lan\u00e7ado na quinta"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15285\" style=\"width: 305px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/alegorias-da-maldicao-a-escrita-fantastica-de-jose-alcides-pinto\/alegorias-da-maldicao-jose-alcides-pinto\/\" rel=\"attachment wp-att-15285\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-15285\" class=\"size-full wp-image-15285\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2012\/06\/Alegorias-da-Maldi\u00e7\u00e3o-Jos\u00e9-Alcides-Pinto.jpg\" alt=\"\" width=\"295\" height=\"450\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2012\/06\/Alegorias-da-Maldi\u00e7\u00e3o-Jos\u00e9-Alcides-Pinto.jpg 295w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2012\/06\/Alegorias-da-Maldi\u00e7\u00e3o-Jos\u00e9-Alcides-Pinto-120x183.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15285\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Alcides Pinto pelo olhar de Francij\u00e9si Firmino<\/p><\/div>\n<p>O historiador e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, <strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong>, lan\u00e7a, na pr\u00f3xima quinta-feira, (<strong>28\/6\/2012<\/strong>), o livro &#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o, a escrita fant\u00e1stica de Jos\u00e9 Alcides Pinto e o Cear\u00e1&#8221; (Edi\u00e7\u00f5es Dem\u00f3crito Rocha, R$ 29.\u00a0O evento ser\u00e1 na Livraria Cultura, \u00e0s 19 horas.<\/p>\n<p>Um bate-papo entre o autor e o editor-adjunto da EDR, Raymundo Netto, no audit\u00f3rio da livraria, precede a noite de aut\u00f3grafos.<\/p>\n<p><strong>Pesquisa<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho de pesquisa do historiador Francij\u00e9si Firmino mergulha nos elementos fant\u00e1sticos\u00ac com os quais Jos\u00e9 Alcides Pinto traduz as tens\u00f5es entre o moderno e tradicional no Cear\u00e1. Resultado do seu trabalho de mestrado, o autor chegou a conviver com Jos\u00e9 Alcides Pinto &#8211; morto por causa de um acidente em 2008.<\/p>\n<p><strong>Impacto<\/strong><\/p>\n<p>Dos encontros, o pesquisador guarda o impacto que Jos\u00e9 Alcides teve sobre ele: \u201cEssa foi a melhor parte na feitura do trabalho e, tamb\u00e9m, uma das mais problem\u00e1ticas quando foi necess\u00e1rio dar um formato final ao texto. Jos\u00e9 Alcides \u00e9\/foi absurdamente, resguardando a ambiguidade da palavra, fascinante, tanto como pessoa, quanto em sua obra\u201d. O livro do historiador tem tr\u00e2nsito em v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento, entre elas a Literatura e a Filosofia.<\/p>\n<p>A seguir entrevista com o autor de &#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Regina Ribeiro<\/strong> (jornalista, editora das Edi\u00e7\u00f5es Dem\u00f3crito Rocha)<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong> &#8211; Logo na apresenta\u00e7\u00e3o do seu livro, o historiador Durval Muniz defende que a literatura est\u00e1 \u201csempre povoada de fantasmas\u201d e que ela \u2013 a Literatura &#8211; trata das fantasias de uma \u00e9poca, de uma sociedade, de uma cultura. Como voc\u00ea acredita ter lidado com os fantasmas que povoam a literatura de Jos\u00e9 Alcides Pinto?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; Assumindo sua literatura como fant\u00e1stica, ele \u2013 Durval -quer valorizar o texto como cria\u00e7\u00e3o, como imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 desse modo que foi um grande estranhamento na Universidade, o fato de eu querer produzir um trabalho em Hist\u00f3ria partindo e tendo como principal documento a literatura fant\u00e1stica, em outras palavras, um documento que assume de sa\u00edda n\u00e3o querer contar as coisas \u201ctal como aconteceram\u201d, nem mesmo em termos de possibilidade, \u201ccomo poderiam ter acontecido\u201d. O pr\u00f3prio Jos\u00e9 Alcides mostrava seu estranhamento com rela\u00e7\u00e3o a minha proposta, mesmo j\u00e1 existindo outro trabalho, em perspectiva bem diferente, do historiador Nuno Gon\u00e7alves que pesquisou, como eu, os livros da Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o. Para mim, e foi o que defendi no livro, a literatura fant\u00e1stica de Jos\u00e9 Alcides Pinto emerge na justaposi\u00e7\u00e3o de um conjunto de refer\u00eancias est\u00e9ticas com sua leitura das modernidades e moderniza\u00e7\u00f5es que come\u00e7aram a ser propaladas em meados da d\u00e9cada de 1950, no Cear\u00e1. A Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o seria uma tradu\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica desses processos em curso, seria uma escrita embrenhada nas tens\u00f5es entre as novidades de sua \u00e9poca e o envelhecimento de signos que at\u00e9 ent\u00e3o pareciam dizer o que era o Cear\u00e1. Jos\u00e9 Alcides gostava de fazer uma identidade que parecia caducar sobre o Cear\u00e1 retornar em sua literatura por meio do del\u00edrio, ou seja, apontava que aquilo sobre o qual escreveu n\u00e3o estava mais no plano do vis\u00edvel, s\u00e3o fantasmas que o perseguem, defuntos aos quais ele d\u00e1 um \u00faltimo f\u00f4lego para que sobrevivam ao menos no espa\u00e7o de seu texto.<\/p>\n<p><strong>Pergunta\u00a0<\/strong>&#8211; Como voc\u00ea se tornou leitor de Jos\u00e9 Alcides e como se deu o interesse para pesquisar sua obra?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino &#8211;\u00a0<\/strong>Como a maioria dos leitores cearenses que conhecem algo da obra de Jos\u00e9 Alcides, eu tamb\u00e9m comecei pelo segundo livro da Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o, &#8220;Os Verdes Abutres da Colina&#8221;, ainda na adolesc\u00eancia. Eu tinha entre 16 e 17 anos quando li esse livro, o que j\u00e1 faz mais de uma d\u00e9cada. Na gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, no momento de escolha do tema para o trabalho monogr\u00e1fico, n\u00e3o tenho muita clareza sobre as motiva\u00e7\u00f5es que me levaram a pesquisar a Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o, somente que a narrativa fant\u00e1stica me exerce grande fasc\u00ednio. Hoje, observo que a pesquisa sobre quest\u00f5es que fogem a no\u00e7\u00e3o de verossimilhan\u00e7a, em sua acep\u00e7\u00e3o mais ortodoxa, \u00e9 urgente, afinal, vivemos um momento em que o debate multicultural se encontra cada vez mais \u00e1vido, trazendo a baile um conjunto de elementos que antes foram classificados como meros del\u00edrios de popula\u00e7\u00f5es \u201cincivilizadas\u201d. Al\u00e9m disso, o fant\u00e1stico \u00e9 um interesse contempor\u00e2neo, vide os filmes que fazem muito sucesso de bilheteria e os livros que est\u00e3o nas listas dos mais vendidos. \u00c9 necess\u00e1rio discutir esse fen\u00f4meno. E \u00e9 necess\u00e1rio ainda ressaltar que a chave de leitura normalmente usada para a compreens\u00e3o desses registros f\u00edlmicos e liter\u00e1rios atuais, unicamente como modo de \u201cre-encantamento do mundo\u201d, \u00e9 no m\u00ednimo inocente. O fant\u00e1stico tem dimens\u00f5es pol\u00edtico-sociais sobre as quais precisamos refletir, n\u00e3o \u00e9 somente um meio de entretenimento, ou modo de dar um tom m\u00e1gico a vidas descoloridas, est\u00e1 para al\u00e9m disso. Significa uma reorganiza\u00e7\u00e3o dos nossos c\u00f3digos da realidade, do nosso modo inclusive de produzir a verdade e aceit\u00e1-la. Deparamo-nos cada vez mais com grupos sociais que n\u00e3o se preocupam tanto com os comuns suportes da verdade, como a ci\u00eancia, a tradi\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, isso \u00e9 percept\u00edvel religiosa, art\u00edstica e mercadologicamente. Talvez compreender as l\u00f3gicas e raz\u00f5es que parecem produzidas na mais absoluta aleatoriedade seja um dos desafios que o pesquisador em ci\u00eancias sociais venha a cada dia se defrontar com maior intensidade e, nesse caminho, a literatura fant\u00e1stica \u00e9 um elemento ao qual precisamos voltar nossas aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Pergunta\u00a0<\/strong>&#8211; Voc\u00ea chegou conviver um pouco com o escritor. Quais as principais impress\u00f5es que voc\u00ea construiu dele?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; Essa foi a melhor parte na feitura do trabalho e, tamb\u00e9m, uma das mais problem\u00e1ticas quando foi necess\u00e1rio dar um formato final do texto. Jos\u00e9 Alcides \u00e9\/foi absurdamente, resguardando a ambiguidade da palavra, fascinante, tanto como pessoa, quanto em sua obra. Deveria ter prestado aten\u00e7\u00e3o aos cuidados que teve Paulo de Tarso, o Pardal, quando escreveu seu livro sobre Jos\u00e9 Alcides, em me afastar do autor para tentar n\u00e3o me contaminar com as vers\u00f5es interpretativas dele sobre si. Num primeiro momento de escrita, me vi profundamente confuso entre o que Jos\u00e9 Alcides falava sobre os seus textos e as exig\u00eancias de um trabalho acad\u00eamico. Foi um doloroso desprendimento o que tive de, aos poucos, constituir para tentar pensar o trabalho. Esse processo foi se tornando mais f\u00e1cil, quando, rememorando nossas conversas, acabei percebendo que Jos\u00e9 Alcides foi uma das personalidades mais pl\u00e1sticas que eu j\u00e1 conheci, que pensava e repensava, dizia e desdizia in\u00fameras vezes coisas sobre si e sobre a sua obra. Jos\u00e9 Alcides parecia esconder um coletivo dentro de si, era muitos e, ao mesmo tempo, nenhum, um ator de si, como gosto de pensar no terceiro cap\u00edtulo do livro, que escrevi j\u00e1 depois de ter defendido a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, em 2008.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong> &#8211; Voc\u00ea trabalha neste livro com a hip\u00f3tese de Jos\u00e9 Alcides ter constru\u00eddo o fant\u00e1stico na literatura desenvolvida no Cear\u00e1. Quais os elementos do fant\u00e1stico na literatura de Jos\u00e9 Alcides Pinto? Que di\u00e1logo ele faz com o fant\u00e1stico da literatura tradicional?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; \u00c9 dif\u00edcil enumerar quais s\u00e3o os elementos fant\u00e1sticos na obra de Jos\u00e9 Alcides, pois, ao que parece, uma das grandes caracter\u00edsticas desse modo de escrita t\u00eam sido a aleatoriedade. Por exemplo, Jos\u00e9 Alcides mistura no texto sua aldeia natal, no interior do Cear\u00e1, Alto dos Angicos de S\u00e3o Francisco do Estreito, com as hist\u00f3rias da Antiguidade Cl\u00e1ssica etc. Acredito que Nuno Gon\u00e7alves estava certo ao pensar que a grande quest\u00e3o de Jos\u00e9 Alcides tenha sido a hist\u00f3ria, no sentido da transitoriedade da vida e das coisas. \u00c9 da certeza da morte e da cren\u00e7a na condi\u00e7\u00e3o mesquinha do humano, que Jos\u00e9 Alcides retira o fundamento de seu fant\u00e1stico: n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos meios para alcan\u00e7ar a verdade das coisas, tudo que far\u00edamos seria fruto da ilus\u00e3o, seria del\u00edrio, seria fant\u00e1stico. Em outros pontos, contudo, ele trama di\u00e1logos claros com as tem\u00e1ticas que se convencionaram na literatura sobre o Nordeste: o coronel, o m\u00edstico, o louco, a natureza, entre outros. \u00c9 nesse limiar entre elementos regulares nos discursos sobre o Nordeste e a descren\u00e7a na possibilidade de um verdadeiro que se produz o fant\u00e1stico de sua literatura.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong> &#8211; Apesar do livro &#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o&#8221; ser o resultado de um trabalho acad\u00eamico, \u00e9 vis\u00edvel a linguagem que foge do academicismo e pode ser lida quase como literatura, o que facilita \u2013 e anima &#8211; o trabalho do leitor. Voc\u00ea fez seu trabalho j\u00e1 pensando nessa leitura para n\u00e3o estudiosos de literatura ou hist\u00f3ria?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; Desde que vi o texto final do meu trabalho, tive o medo de ser excessivamente herm\u00e9tico, de dif\u00edcil compreens\u00e3o at\u00e9 mesmo para historiadores e cr\u00edticos liter\u00e1rios. A forma da escrita deriva muito do estilo e, at\u00e9 mesmo, da forma\u00e7\u00e3o, tendo desde a gradua\u00e7\u00e3o estudado o di\u00e1logo entre hist\u00f3ria e literatura. J\u00e1 ouvi historiadores reclamando que meu texto tem fortes elementos filos\u00f3ficos e liter\u00e1rios, j\u00e1 ouvi pessoas com forma\u00e7\u00e3o em letras falando da minha, \u00e0s vezes, excessiva preocupa\u00e7\u00e3o com os contextos. Ent\u00e3o parece que realmente estou numa zona de dif\u00edcil defini\u00e7\u00e3o. Ainda, contudo, me reconhe\u00e7o um historiador, meio her\u00e9tico, devo confessar. J\u00e1 \u00e9 bem aceito na disciplina hist\u00f3ria uma escrita mais metaf\u00f3rica, que deixe de lado o preciosismo conceitual, que nos trabalhos acad\u00eamicos produzia uma narrativa que muito se aproximava de um estilo tratad\u00edstico. Minha preocupa\u00e7\u00e3o, como atualmente se pensa na pesquisa em hist\u00f3ria, foi que os conceitos funcionassem para compreender o objeto de pesquisa, por isso, eles aparecem misturados com a fonte, no caso, os livros de Jos\u00e9 Alcides, os jornais etc. Talvez seja isso que fa\u00e7a parecer um texto com poucos \u201cacademicismos\u201d. Fico lisonjeado com seu coment\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong> &#8211; Outro ponto importante do teu trabalho \u00e9 o entrecruzamento de disciplinas, que voc\u00ea transp\u00f5e de forma elegante e tranquila. Quais as \u00e1reas de interesse que o livro &#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o&#8221; abrange?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; A literatura fant\u00e1stica ainda \u00e9 pouco discutida pela hist\u00f3ria. Desse modo, para compreend\u00ea-la tive de tecer intensos di\u00e1logos, al\u00e9m da hist\u00f3ria, com a teoria liter\u00e1ria e a filosofia \u2013 est\u00e1 \u00faltima, especialmente por meio de Walter Benjamin \u2013, um pouco com a lingu\u00edstica e a psican\u00e1lise. Al\u00e9m das disciplinas, acredito que o trabalho possa servir, de algum modo, para compreender uma arte que se organiza entre os fins dos anos de 1950, de car\u00e1ter aleg\u00f3rico, que n\u00e3o teve mais a pretens\u00e3o de representar as coisas tal como elas seriam, mas de produzir um jogo criativo que faz a linguagem vacilar em sua capacidade de dizer as coisas, de uma gera\u00e7\u00e3o que tornou a linguagem a sua grande quest\u00e3o nas artes.<\/p>\n<p><strong>Pergunta\u00a0<\/strong>&#8211; Voc\u00ea trata no seu trabalho das tens\u00f5es vividas pelo Cear\u00e1 e que foram mat\u00e9ria-prima para o fazer liter\u00e1rio de Jos\u00e9 Alcides Pinto. Na sua opini\u00e3o, qual a maior ou principal contribui\u00e7\u00e3o que o escritor oferece para uma leitura do Cear\u00e1 e do Brasil em meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; N\u00e3o sei se consigo pensar em termos de contribui\u00e7\u00e3o. No livro, assumo uma posi\u00e7\u00e3o ambivalente ante a obra de Jos\u00e9 Alcides. Por um lado, tendo a concordar com ele de que o Cear\u00e1 n\u00e3o tem uma identidade fixa, que aquilo que se chamou de aut\u00eantico e natural, foi uma conven\u00e7\u00e3o estabelecida, em grande medida, pela literatura e outras formas discursivas. E aqui, aponto para uma d\u00edvida intelectual com o trabalho e as indica\u00e7\u00f5es do historiador Durval Muniz Albuquerque J\u00fanior, que inclusive prefacia o livro. Por outro lado, tendo a discordar de Jos\u00e9 Alcides quando ele leva essas considera\u00e7\u00f5es a um extremo, ao ponto de afirmar a impossibilidade do saber pelo humano. Essa \u00e9 uma postura muito presente na literatura alcidiana, que, acredito eu, \u00e9 produzida em meio as suas leituras do barroco e, estranhamente, de Albert Camus, que nunca defendeu isso. Percebo esse modo de pensar como problem\u00e1tico a medida que n\u00e3o concebe a possibilidade de se construir sentidos para a vida, que n\u00e3o sejam moral, religioso, ou somente natural. Fico ponderando como uma pessoa, exaustivamente criativa, como ele, n\u00e3o concebia em sua obra a import\u00e2ncia da cria\u00e7\u00e3o, mesmo afirmando constantemente que essa era a \u00fanica possibilidade do sentido. Perceber que n\u00e3o h\u00e1 uma ess\u00eancia das coisas, a consci\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria dos entes, n\u00e3o significa cair na armadilha de acreditar que, por isso, elas n\u00e3o mais tenham valor, ou sentido \u2013 afinal de contas, o sentido e o valor s\u00e3o atribui\u00e7\u00f5es humanas e n\u00e3o precisam de uma \u201cess\u00eancia\u201d para existir. Penso esse racioc\u00ednio alcidiano como perigoso, pois desautoriza toda preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9tica. \u00c0s vezes, fico refletindo se esse tra\u00e7o em sua obra n\u00e3o passava de uma tend\u00eancia que Alcides tinha para a pol\u00eamica, haja vista que sempre o percebi como muito r\u00edgido em algumas posturas.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong> &#8211; A est\u00e9tica liter\u00e1ria desse escritor influenciou de alguma forma a literatura de outros escritores?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; Acredito que sim. E n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o maldita, meio surrealista, aleg\u00f3rica e fescenina de Jos\u00e9 Alcides interferiu fortemente na literatura cearense. \u00c9 dif\u00edcil medir isso em termos de influ\u00eancia, pois essas refer\u00eancias podem ter se disseminado por diversas vias. \u00c9 ineg\u00e1vel, contudo, que esses elementos t\u00eam se tornado prof\u00edcuos na escrita de romances e poemas.<\/p>\n<p><strong>Pergunta\u00a0<\/strong>&#8211; Como voc\u00ea analisa a leitura que \u00e9 feita hoje da obra de Jos\u00e9 Alcides Pinto tanto na prosa, como na poesia?<\/p>\n<p><strong>Francij\u00e9si Firmino<\/strong> &#8211; Jos\u00e9 Alcides costumava me contar um sem n\u00famero de hist\u00f3rias sobre uma esp\u00e9cie de \u201cescambo dos elogios\u201d comum a critica liter\u00e1ria cearense (acredito que n\u00e3o somente no Cear\u00e1!), com fortes caracter\u00edsticas impressionistas e, por vezes, meramente apolog\u00e9ticas. H\u00e1 muitos textos que realmente s\u00e3o assim, e n\u00e3o vou citar nomes. \u00c9 interessante como alguns desses cr\u00edticos (que na maioria das vezes s\u00e3o tamb\u00e9m literatos), por seu intenso contato e experi\u00eancia com a literatura, tinham \u201csacadas\u201d que me foram muito importantes, num texto que claramente havia sido feito \u00e0s pressas, com dois ou tr\u00eas par\u00e1grafos. J\u00e1 h\u00e1 sobre o autor trabalhos muito s\u00e9rios, com rigor de an\u00e1lise (e, por isso, n\u00e3o se entenda enrijecidos em m\u00e9todo). Novamente, n\u00e3o vou citar nomes, pois meu esquecimento, aqui, pode cometer pecados. De modo geral, os livros que se detiveram unicamente a Jos\u00e9 Alcides s\u00e3o muito bons. Em rela\u00e7\u00e3o aos artigos, a minha triagem foi mais criteriosa, mas sem d\u00favidas tamb\u00e9m h\u00e1 muita coisa boa. Concebo apenas que \u00e9 necess\u00e1rio rediscutir o modo como se pensou a biografia de Jos\u00e9 Alcides Pinto como um anexo da Trilogia da Maldi\u00e7\u00e3o, acho que essa f\u00f3rmula interpretativa j\u00e1 deu o que tinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, Francij\u00e9si Firmino, lan\u00e7a, na pr\u00f3xima quinta-feira, (28\/6\/2012), o livro &#8220;Alegorias da Maldi\u00e7\u00e3o, a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1023,1313,1407],"class_list":["post-15283","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-francijesi-fermino","tag-jose-alcides-pinto","tag-livro"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}