{"id":1616,"date":"2009-07-27T06:01:29","date_gmt":"2009-07-27T11:01:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=1616"},"modified":"2009-07-27T06:01:29","modified_gmt":"2009-07-27T11:01:29","slug":"vale-cultura-dimenstein-e-a-elite-cultivada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/07\/27\/vale-cultura-dimenstein-e-a-elite-cultivada\/","title":{"rendered":"Vale Cultura, Dimenstein e a elite cultivada"},"content":{"rendered":"<p>Como quase todas as iniciativas do governo Lula, o Vale Cultura tamb\u00e9m nasce sob pol\u00eamica: uns o acusam de eleitoreiro; outros de incentivar eventos culturais desqualificados. [J\u00e1 escrevi neste blog que pol\u00edticos, quaisquer deles, est\u00e3o sempre de olho na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o, portanto, vamos pular essa parte.]\n<p>O Vale Cultura, se aprovado, ser\u00e1 um cart\u00e3o magn\u00e9tico &#8211; parecido com o t\u00edquete alimenta\u00e7\u00e3o &#8211; carregado com o valor de R$ 50,00\/m\u00eas para o trabalhador adquirir bens culturais: comprar livros, assistir filmes, pe\u00e7as de teatro, etc. As empresas que aderirem ao programa ter\u00e3o desconto no imposto de renda.<\/p>\n<p>Em sua coluna na edi\u00e7\u00e3o  de ontem [26\/7\/2009], na Folha de S. Paulo, Gilberto Dimenstein criticou o Vale Cultura pela possibilidade de o benef\u00ed\u00adcio ir &#8220;para produtos e eventos de alto impacto popular, mas com baixo teor educativo &#8211; livros de autoajuda, filmes de com\u00e9dia  ou shows de m\u00fasica sertaneja, por exemplo&#8221;.<\/p>\n<p>Como que prevendo uma rea\u00e7\u00e3o a seu escrito, Dimenstein faz uma pr\u00e9-defesa: &#8220;Leitores devem estar considerando este coment\u00e1rio elitista [bingo!]. Se \u00e9 para lan\u00e7ar um programa dessa envergadura, dever\u00edamos perguntar se o trabalhador ir\u00e1 a bons espet\u00e1culos, exposi\u00e7\u00f5es e concertos&#8221;.<\/p>\n<p>Primeiro, o jornalista teria de definir melhor o que considera conden\u00e1vel nos itens que ele cita. Vejamos:<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ele inclui no quesito &#8220;m\u00fasica sertaneja&#8221; somente os &#8220;neo-sertanejos&#8221; ou vai de cambulhada Inezita Barroso, Rolando Boldrin [e o seu programa Sr. Brasil], as orquestras de viola caipira, Almir Sater\u00a0 e a obra de Patativa do Assar\u00e9? S\u00f3 para citar alguns.<\/p>\n<p>E quanto aos filme &#8220;filmes de com\u00e9dia&#8221;? Qual seria o crit\u00e9rio para consider\u00e1-los &#8220;cabe\u00e7a&#8221;? Os do grupo ingl\u00eas Monty Python poderiam ser comprados em DVD? Teriam essas com\u00e9dias ser faladas em urdu com legendas em persa &#8211; e voc\u00ea ter de sair do cinema pensando alguma coisa inteligente para dizer [cr\u00e9ditos para o Macaco Sim\u00e3o] ou  poder-se-ia assistir, por exemplo, um filme Grande Otelo, de Oscarito, um &#8220;Agente 86&#8221;, &#8220;Os monstros&#8221;, &#8220;Jeannie \u00e9 um g\u00eanio&#8221; e uma &#8220;Feiticeira&#8221; [que a TV a cabo repete \u00e0 exaust\u00e3o e eu n\u00e3o perco um: vixe! ser\u00e1 que pega mal assistir isso?] ou, de plano, condena-se todos?<\/p>\n<p>Sobre os livros de auto-ajuda, como seria o crit\u00e9rio para &#8220;enquadr\u00e1-los&#8221;? Alguns deles &#8211; na \u00e1rea de administra\u00e7\u00e3o, por exemplo, vejo serem adotados em alguns cursos que empresa costumam oferecer para seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 sim uma vis\u00e3o elista<\/strong> achar os pobres n\u00e3o sabem o que fazer com seu dinheiro; que n\u00e3o sabem o que \u00e9 cultura e tem de ser tutelados.<\/p>\n<p>Talvez Dimenstein, morador do radical-chique bairro paulistano de Vila Madalena, queira sugerir um Comissariado de Intelectuais de seu calibre para definir o que o que a massa ignara deva ler ou ver. O comissariado poderia estabelecer alguns crit\u00e9rios para o uso do Vale Cultura, uma esp\u00e9cie de &#8220;breg\u00f4metro&#8221;.<\/p>\n<p>Por exemplo, se o cara comprasse um livro de Jos\u00e9 Saramago, ele ganharia alguns pontos a mais em seu cart\u00e3o; mas, na outra ponta, se ele ca\u00edsse na besteira de comprar um livro de Paulo Coelho, a pena seria, pelo menos, uns tr\u00eas dias de cadeia.<\/p>\n<p>Se um sujeito resolve assistir a um filme franc\u00eas da Nouvelle Vague, ele receberia em casa, uma visita do Comissariado de Intelectuais, ganharia uma medalha e passaria a ser apresentado como exemplo de oper\u00e1rio-padr\u00e3o da cultura para os demais. Agora se algum desinfeliz ousasse assistir a um filme dos Trapalh\u00f5es, de Jerry Lewis ou Jim Carrey [para ser mais moderno],  ele seria atirado em um tambor de piche, coberto de penas, e seria obrigado a desfilar pelas ruas do se bairro para ser alvo de opr\u00f3brio. [Eu n\u00e3o quer nem pensar o que aconteceria se ele fosse, com a fam\u00edlia, em um inocente programa de fim de semana, assistir a um show de humor de pizzaria, t\u00e3o comum em Fortaleza.]\n<p>Mas o Comissariado teria um duro problema para resolver. O que fazer com aquilo que \u00e9 considerado de &#8220;mau gosto&#8221; e depois \u00e9 promovido para de &#8220;bom gosto&#8221; pela intelectualidade, principalmente se algum dos frequentadores dos &#8220;cadernos de cultura&#8221; dos jornal\u00f5es do sul o sancionam?<\/p>\n<p>O m\u00fasico Peninha, por exemplo, a obra dele teria de ser dividida antes e depois de Caetano Veloso ter gravado &#8220;Sonhos&#8221;. Quanto a Valdick Soriano, os comiss\u00e1rios teriam de probir suas m\u00fasicas, mas tornar obrigat\u00f3rio a assisistir ao document\u00e1rio de Patr\u00edcia Pillar. O mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos sertanejos\u00a0 Zez\u00e9 di Camargo e Luciano: as m\u00fasicas n\u00e3o podem ser ouvidas, mas o filme &#8220;Os dois filhos de Francisco&#8221; seria obrigat\u00f3rio, pois produzido, escrito e dirigido por jornalistas e diretores da fina flor da intelectualidade.<\/p>\n<p>Mas vamos dar de barato que Dimenstein esteja certo, que n\u00e3o se deve dar dinheiro para a, digamos assim, &#8220;baixa cultura&#8221;. E vamos supor que somente 0,5% dos beneficiados utilizem o vale para se ilustrar com concertos, pe\u00e7as de teatro da mais alta qualidade, ler cl\u00e1ssicos da literatura universal.\u00a0 Ainda assim valeria a penas, pois, &#8220;quem salva uma vida, salva a humanidade&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como quase todas as iniciativas do governo Lula, o Vale Cultura tamb\u00e9m nasce sob pol\u00eamica: uns o acusam de eleitoreiro; outros de incentivar eventos culturais&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[1073,2402],"class_list":["post-1616","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-gilberto-dimenstein","tag-vale-cultura"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1616","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1616"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1616\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1616"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1616"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1616"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}