{"id":16345,"date":"2013-09-15T23:09:56","date_gmt":"2013-09-16T02:09:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=16345"},"modified":"2013-09-15T23:09:56","modified_gmt":"2013-09-16T02:09:56","slug":"trotsky-escreve-sobre-o-cotidiano-e-aos-colegas-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2013\/09\/15\/trotsky-escreve-sobre-o-cotidiano-e-aos-colegas-jornalistas\/","title":{"rendered":"Trotsky escreve sobre o cotidiano e &#8220;aos colegas jornalistas&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_16346\" style=\"width: 429px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2013\/09\/Quest\u00f5es-do-modo-de-vida.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16346\" class=\" wp-image-16346 \" alt=\"O meio que a Mel usa para conseguir o que quer s\u00e3o os miados: um para cada coisa (clique para ampliar)\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2013\/09\/Quest\u00f5es-do-modo-de-vida-550x408.jpg\" width=\"419\" height=\"310\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16346\" class=\"wp-caption-text\">O meio que a Mel usa para conseguir o que quer s\u00e3o os miados: um para cada coisa. Quanto \u00e0 moral, isso n\u00e3o est\u00e1 no terreno das preocupa\u00e7\u00f5es dos felinos (clique para ampliar)<\/p><\/div>\n<p>Reencontrei-me recentemente com um livro que sumira de minha modesta biblioteca; n\u00e3o o que sumiu exatamente, mas com outra edi\u00e7\u00e3o de <strong>Quest\u00f5es do modo de vida \/ A moral deles e a nossa<\/strong>, que re\u00fane alguns ensaios de Leon Trotsky, um dos principais l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917.<\/p>\n<p><strong>A moral deles<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A moral deles e a nossa&#8221; foi escrito na d\u00e9cada de 1930, quando Trotsky, expulso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica por St\u00e1lin, encontrava-se exilado no M\u00e9xico. No ensaio Trotsky contrap\u00f5e a moral comunista com a burguesa, defendendo que os meios est\u00e3o inapelavelmente vinculados aos fins (o que, para ele, \u00e9 diferente do famoso &#8220;os fins justificam os meios&#8221;). Para simplificar, mesmo os meios mais abjetos (o sequestro de crian\u00e7as e fam\u00edlias para submeter o &#8220;inimigo de classe&#8221;), para Trotsky s\u00e3o v\u00e1lidos em uma guerra que op\u00f5e revolucion\u00e1rios e for\u00e7as reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Os meios e os fins<\/strong><\/p>\n<p>O que h\u00e1 de interessante, al\u00e9m da escrita vigorosa, assertiva &#8211; e por vezes ir\u00f4nica &#8211; de Trotsky \u00e9 que ele n\u00e3o enfeita o pav\u00e3o: defende abertamente essas ideias, responsabilizando-se integralmente, sem meios termos ou justificativa outra, que n\u00e3o os interesses da revolu\u00e7\u00e3o (e portanto da humanidade, na vis\u00e3o dele) \u00a0por atos do tipo que tomou durante a guerra civil russa, quando comandava o Ex\u00e9rcito Vermelho, contra o Ex\u00e9rcito Branco, que se op\u00f4s ao governo bolchevique.<\/p>\n<p><strong>Vida cotidiana<\/strong><\/p>\n<p>Mas quero tratar aqui dos ensaios enfeixados em &#8220;Quest\u00f5es do modo de vida&#8221;, escritos em 1923, com o poder bolchevique j\u00e1 consolidado, Trotsky v\u00ea-se tomado por outras preocupa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da pol\u00edtica, no sentido estrito do termo: a vida cotidiana russa, que ele via com olhos severamente cr\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>O homem n\u00e3o vive s\u00f3 de pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Para Trotsky, como &#8220;o homem n\u00e3o vive s\u00f3 de pol\u00edtica&#8221;, e com o governo estabelecido, o Partido Comunista da URSS teria se se concentrar no &#8220;militantismo cultural&#8221;, de modo a elevar a educa\u00e7\u00e3o do proletariado. &#8220;\u00c9 preciso reparar pontes, ensinar a ler e escrever (&#8230;) lutar contra a imund\u00edcie, prender os escroques, levar eletricidade ao campo&#8221;.\u00a0Um dos quadros mais importantes do Partido Comunista e do governo, Trotsky volta-se para quest\u00f5es aparentemente banais, como o h\u00e1bito russo de cuspir no ch\u00e3o ou atirar pontas de cigarros em qualquer lugar. Para ele, agir assim, era &#8220;desdenhar do trabalho alheio&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Grosseria<\/strong><\/p>\n<p>Deblatera-se contra a &#8220;grosseria&#8221; russa e a mania de seu povo (instru\u00eddos ou n\u00e3o) de se expressar por meio de palavr\u00f5es; identifica o consumo excessivo de vodka como um problema, comenta a fragmenta\u00e7\u00e3o que atinge as fam\u00edlias sovi\u00e9ticas e especula a forma como se poderia alcan\u00e7ar a igualdade entre homens e mulheres (quest\u00f5es que ele v\u00ea mais como culturais do que pol\u00edticas).<\/p>\n<p><strong>Ritos<\/strong><\/p>\n<p>Fala ainda sobre os ritos e a necessidade que os homens sempre tiveram deles; mostra grande entusiamo pelo cinema, ent\u00e3o nascente &#8211; vendo na nova arte um concorrente direto da igreja (que ele v\u00ea como uma fornecedores de rituais e espet\u00e1culos). Mas, ao mesmo tempo em que investe contra a igreja e seus ritos, reconhece que eles s\u00e3o parte insepar\u00e1vel da humanidade &#8211; e pergunta o que a revolu\u00e7\u00e3o poder\u00e1 p\u00f4r no lugar para substitu\u00ed-los.<\/p>\n<p><strong>Burocracia<\/strong><\/p>\n<p>Leon Trotsky combate a nascente burocracia nos \u00f3rg\u00e3os governamentais (a do partido tamb\u00e9m avan\u00e7ava), que teria herdado do passado feudal a grosseria e o desrespeito para com os mais humildes, agregando novos v\u00edcios &#8211; e defende a necessidade de &#8220;aten\u00e7\u00e3o e delicadeza como condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para as rela\u00e7\u00f5es harmoniosas&#8221; (entre as pessoas e entre as pessoas e as institui\u00e7\u00f5es do Estado). &#8220;A luta contra a grosseria faz parte da luta pela pureza, a clareza e a beleza da linguagem.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Colegas jornalistas<\/strong><\/p>\n<p>Trotsky tamb\u00e9m fala sobre jornalismo (pelo modo como exp\u00f5e, mostra intimidade com as t\u00e9cnicas da &#8220;imprensa burguesa&#8221;), instando os jornalistas sovi\u00e9ticos a apresentarem os fatos de &#8220;forma clara e intelig\u00edvel: deve precisar onde o fato passa e como se passa&#8221;, e aconselha &#8220;os colegas jornalistas&#8221; a se absterem de aplicar &#8220;li\u00e7\u00f5es&#8221; ou &#8220;serm\u00f5es&#8221; aos leitores, pois estes querem que os jornalistas lhes expliquem &#8220;clara e inteligivelmente o que se passou, onde e como se passou&#8221;, pois assim &#8220;as li\u00e7\u00f5es e exorta\u00e7\u00f5es se far\u00e3o evidentes por si mesmas&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Pequenas grandes coisas<\/strong><\/p>\n<p>Parece meio deslocado ver a mente mais poderosa da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, ao lado de L\u00eanin, enredado em quest\u00f5es aparentemente banais. Aos poss\u00edveis cr\u00edticos, Trotsky mesmo responde: &#8220;Em hist\u00f3ria n\u00e3o se faz nunca grandes coisas sem pequenas coisas. Mais exatamente: as pequenas coisas, numa grande \u00e9poca, quando integrada numa grande obra, deixam de ser &#8216;pequenas coisas'&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reencontrei-me recentemente com um livro que sumira de minha modesta biblioteca; n\u00e3o o que sumiu exatamente, mas com outra edi\u00e7\u00e3o de Quest\u00f5es do modo de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2348],"class_list":["post-16345","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-trotsky"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}