{"id":1694,"date":"2009-07-31T06:01:11","date_gmt":"2009-07-31T09:01:11","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=1694"},"modified":"2009-07-31T06:01:11","modified_gmt":"2009-07-31T09:01:11","slug":"graciliano-ramos-joel-silveira-e-mario-de-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/07\/31\/graciliano-ramos-joel-silveira-e-mario-de-andrade\/","title":{"rendered":"Graciliano Ramos, Joel Silveira, M\u00e1rio de Andrade e os tost\u00f5es da literatura"},"content":{"rendered":"<p>Eu vou contar uma coisa para voc\u00eas. Para mim, n\u00e3o existe melhor escritor brasileiro do que Graciliano Ramos. Podem p\u00f4r de balaiada qualquer outro, incluindo Guimar\u00e3es Rosa [Machado de Assis, este eu vou ficar quieto, pois estava na melhor das considera\u00e7\u00f5es do mestre Gra\u00e7a. De Rosa, ele votou contra o seu livro <em>Sagarana<\/em> em um concurso; depois se tornaram amigos &#8211; e Graciliano s\u00f3 tinha palavras gentis para Rosa.]\n<p>Sempre volto a Graciliano: inclusive porque ele tem muitas li\u00e7\u00f5es a dar a jornalistas &#8211; de como se deve escrever um texto. Eu tento ser aluno aplicado, mas n\u00e3o lhe serviria nem de escabelo.<\/p>\n<p><strong>Tenho-lhe a cole\u00e7\u00e3o completa.<\/strong><\/p>\n<p>Veio-me\u00a0Graciliano devido a duas postagens recentes neste blog.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/gay-talese-fala-hoje-no-roda-viva-sou-mais-joel-silveira\/\" target=\"_blank\">Sou mais Joel Silveira<\/a><\/strong> [em compara\u00e7\u00e3o com Gay Talese] e<br \/>\n<strong><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/vale-cultura-dimenstein-e-a-elite-cultivada\/\" target=\"_blank\">Vale Cultura, Dimenstein e a elite cultivada<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Pois fui me lembrar do mestre Gra\u00e7a por um texto dele, de 1939, em que ela fala justamente de Joel Silveira [s\u00f3 elogios] e sobre M\u00e1rio de Andrade, que acusava &#8220;mau gosto&#8221; na literatura brasileira. Vejam diretamente na lavra de Graciliano:<\/p>\n<p><strong>Os tost\u00f5es do sr. M\u00e1rio de Andrade<\/strong><br \/>\nGraciliano Ramos<\/p>\n<p>O sr. M\u00e1rio de Andrade, h\u00e1 algum tempo, lamentando o mau gosto e a imper\u00edcia que atualmente reinam e desembestam na literatura nacional, utilizou uma imagem espirituosa e monet\u00e1ria: dividiu os nossos escritores em duas classes &#8211; a dos contos de r\u00e9is, pelo menos centenas de mil-r\u00e9is, onde se metem alguns indiv\u00edduos que arrumam id\u00e9ias com desembara\u00e7o, e a dos tost\u00f5es, gavetinha que encerra criaturas de munheca emperrada e escasso pensamento. O sr. Joel Silveira, sergipano bilioso, incluiu-se modestamente na segunda categoria, tomou a defesa do troco mi\u00fado, dos n\u00edqueis liter\u00e1rios que enchem revistas, jornais, caf\u00e9s, livrarias, c\u00f4modos ordin\u00e1rios em pens\u00f5es do Catete.<\/p>\n<p>Enquanto o autor de <em>Macuna\u00edma<\/em> exige acatamento \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e \u00e0 regra, o jovem contista de <em>Onda Raivosa<\/em> se mostra desabusado e rebelde: n\u00e3o chega a atacar a cultura, mas refere-se a ela com tristeza, julga-a remota e inacess\u00edvel ao homem comum.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma t\u00e9cnica na arte, diz o sr. M\u00e1rio de Andre. Romain Rolland foi mais longe: afirmou, creio eu, que a arte \u00e9 uma t\u00e9cnica. O mo\u00e7o nortista repele semelhantes exig\u00eancias. Vivemos arrasados, o numer\u00e1rio foge, h\u00e1 d\u00edvidas abundantes e falta-nos vagar para os cortes, as emendas necess\u00e1rias. N\u00e3o faz mal que a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica saia capenga.<\/p>\n<p>O que nos desagrada nessa quest\u00e3o, hoje morta, \u00e9 notar que o cr\u00edtico paulista, colando em alguns escritores etiquetas com pre\u00e7os muito elevados e rebaixando em demasia o valor de outros, vai tornar antip\u00e1tica a boa causa que defende, prepara terreno para o paradoxo sustentado pelo sr. Joel Silveira. E teremos ent\u00e3o uma demagogia louca. &#8220;Somos tost\u00f5es, perfeitamente, um consider\u00e1vel n\u00famero de tost\u00f5es. Some tudo isso e ver\u00e3o a quantia grossa que representamos.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada mais falso. Mas os indiv\u00edduos que se imaginam com boa cota\u00e7\u00e3o no mercado naturalmente se encolhem, silenciosos por vaidade ou por n\u00e3o quererem molestar os n\u00edqueis comparando-se a eles. E as moedinhas devem andar rolando por a\u00ed, satisfeitas, areadas, brilhantes, pensando mais ou menos assim: &#8220;Joel Silveira \u00e9 dos nossos, inteiramente igual a qualquer um de n\u00f3s. Ignorante que faz medo, nunca leu um livro. Conversa mal, n\u00e3o vai al\u00e9m dessas pilh\u00e9rias que a gente larga nos caf\u00e9s. Mora numa casa cheia de pulgas, \u00e9 amarelo como flor de algod\u00e3o e tem a fala arrastada. Pobrezinho, com certeza come pouco ou n\u00e3o come. Pensa pouco ou n\u00e3o pensa. Um tost\u00e3o como eu, como tu, como aquele. Podemos supor que Joel Silveira valha mais de um tost\u00e3o? N\u00e3o podemos, razoavelmente, porque ele chegou perto de n\u00f3s e gritou: <em>Eu sou um tost\u00e3o<\/em>. Entretanto Joel Silveira inventa uns neg\u00f3cios que sujeitos entendidos elogiam. Ora se Joel, t\u00e3o arrastado, t\u00e3o amarelo, t\u00e3o barato, faz contos e cr\u00f4nicas interessantes, por que n\u00e3o faremos n\u00f3s coisa igual? Mexamo-nos, fundemos sociedade e pinguemos em revistas os nossos cinco vint\u00e9ns na literatura.&#8221;<\/p>\n<p>Um desastre. \u00c9 necess\u00e1rio p\u00f4r fim a essa confus\u00e3o, que nos pode render muito preju\u00edzo. J\u00e1 existe por a\u00ed uma quantidade enorme de livros ruins. E o sr. Joel Silveira n\u00e3o \u00e9 um tost\u00e3o, nunca foi. Escreveu um excelente artigo para demonstrar que n\u00e3o sabe escrever.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu vou contar uma coisa para voc\u00eas. Para mim, n\u00e3o existe melhor escritor brasileiro do que Graciliano Ramos. Podem p\u00f4r de balaiada qualquer outro, incluindo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24,26],"tags":[1099,1273,1483],"class_list":["post-1694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-livros","tag-graciliano-ramos","tag-joel-silveira","tag-mario-de-andrade"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}