{"id":16971,"date":"2014-05-31T17:17:14","date_gmt":"2014-05-31T20:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=16971"},"modified":"2014-05-31T17:17:14","modified_gmt":"2014-05-31T20:17:14","slug":"dinamo-de-kiev-o-time-que-enfrentou-hitler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/05\/31\/dinamo-de-kiev-o-time-que-enfrentou-hitler\/","title":{"rendered":"D\u00ednamo de Kiev: o time que enfrentou Hitler"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 1\u00ba\/6\/2014, do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_16987\" style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/05\/Carlus3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16987\" class=\"size-full wp-image-16987\" alt=\"Arte: Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/05\/Carlus3.jpg\" width=\"330\" height=\"503\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/05\/Carlus3.jpg 330w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/05\/Carlus3-300x457.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/05\/Carlus3-120x183.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16987\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Carlus<\/p><\/div>\n<p><strong>D\u00ednamo de Kiev: o time que enfrentou Hitler<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Em per\u00edodo de Copa do Mundo, falemos de futebol (com pol\u00edtica). Come\u00e7o com uma hist\u00f3ria que sempre me impressionou, a do D\u00ednamo de Kiev, durante a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 da Ucr\u00e2nia, na Segunda Guerra Mundial. Valho-me do livro <em>Futebol &amp; Guerra &#8211; Resist\u00eancia, triunfo e trag\u00e9dia do D\u00ednamo na Kiev ocupada pelos nazistas<\/em>, de Andy Dougan que, de quebra, ajuda a entender o que est\u00e1 se passando hoje na agitada hist\u00f3ria ucraniana. Fundado em 1927, o D\u00ednamo de Kiev era um time do clube esportivo da pol\u00edcia, que se tornou destaque mundial.<\/p>\n<p>Em junho de 1941, Hitler inicia a opera\u00e7\u00e3o Barba-Roxa, invadindo a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica com com tr\u00eas milh\u00f5es de soldados; Kiev, a capital da Ucr\u00e2nia (ent\u00e3o uma das rep\u00fablicas da URSS), cai nas m\u00e3os dos nazistas em setembro do mesmo ano. Os ucranianos, que j\u00e1 viviam oprimidos pelo regime stalinista, ser\u00e3o submetidos agora a horrores indiz\u00edveis. O cart\u00e3o de visita da chegada alem\u00e3 \u00e9 a chacina de 30 mil judeus, enterrados nos arredores de Kiev.<\/p>\n<p>No combate pela tomada capital ucraniana, a cidade ficara destru\u00edda, as ind\u00fastrias desmanteladas e a produ\u00e7\u00e3o paralisada. As for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o precisam p\u00f4r as coisas para funcionar novamente, principalmente a ind\u00fastria de p\u00e3o, para alimentar as tropas.<\/p>\n<p>O ucraniano Joseph Kordic, diretor da principal padaria industrial da cidade, colaborador dos nazistas &#8211; e apaixonado por futebol &#8211; encontra, certo dia, um dos jogadores do D\u00ednamo, perambulando miseravelmente nas ruas, e lhe oferece emprego. A partir da\u00ed, ele procura os demais jogadores, que est\u00e3o vivendo precariamente, e os emprega em fun\u00e7\u00f5es subalternas na ind\u00fastria que dirige.<!--more--><\/p>\n<p>Sob a influ\u00eancia de Kordik, os alem\u00e3es resolvem usar o esporte na tentativa de tornar a popula\u00e7\u00e3o kieviana, hostil ao invasor, mais colaborativa. Os alem\u00e3es reabrem o campeonato da cidade e os jogadores do D\u00ednamo organizam um time na padaria, a que d\u00e3o o nome de Start (come\u00e7o).<\/p>\n<p>Em uma sequ\u00eancia espetacular, os esfarrapados rapazes do Start, mal alimentados, debilitados fisicamente, com fardas e chuteiras improvisadas, vencem de goleada todos os times que lhes surgem \u00e0 frente, inclusive os alem\u00e3es. O Start passa a ser visto como um s\u00edmbolo da resist\u00eancia, e come\u00e7a a preocupar os nazistas, que procuram um modo de acabar com a fama da equipe.<\/p>\n<p>Marcam um jogo com com o Flakelf, forte equipe da Luftwaffe, por\u00e9m, o Start d\u00e1 uma surra de 5 x 1 no time formado pela elite da for\u00e7a a\u00e9rea alem\u00e3. Inconformados, as autoridades de ocupa\u00e7\u00e3o determinam uma revanche para dali a tr\u00eas dias &#8211; e refor\u00e7am seu time mais ainda. A cidade fica eletrizada, a disputa ganhara car\u00e1ter ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No dia da partida, reunidos no vesti\u00e1rios, os jogadores do Start sabem que uma vit\u00f3ria significaria puni\u00e7\u00e3o violenta e at\u00e9 a morte para eles, principalmente depois que o juiz da partida, oficial da SS, entra nos vesti\u00e1rio, orientando-os a fazer a sauda\u00e7\u00e3o nazista no in\u00edcio do jogo.<\/p>\n<p>Entram em campo. O est\u00e1dio lotado. Sil\u00eancio opressivo. Os jogadores alem\u00e3es alinham-se levantam os bra\u00e7os e gritam a sauda\u00e7\u00e3o nazista: \u201cHeil Hitler\u201d (salve Hitler). A equipe do Start, em seguida, repete o gesto, por\u00e9m grita em un\u00edssono: \u201cFizculthura\u201d (uma sauda\u00e7\u00e3o ao esporte). Foi o primeiro desafio. O jogo come\u00e7a com os alem\u00e3es cometendo faltas violentas, sem que o juiz se importe, e fazem o primeiro gol. Mesmo assim, o primeiro tempo termina em 3 x 1 para o Start.<\/p>\n<p>No intervalo, outro oficial nazista vai ao vesti\u00e1rio e recomenda que percam o jogo. O Start volta, toma mais dois gols, por\u00e9m faz outros dois. O jogo termina em 5 x 3 para o time de Kiev. Entretanto, a suprema humilha\u00e7\u00e3o para os alem\u00e3es havia partido do mais jovem jogador do time, Klimenko: franzino, ele dribla toda a defesa alem\u00e3; para a bola em cima da linha; vira-se para o centro do campo, e p\u00f5e a bola novamente em jogo, sem marcar o gol. O juiz encerra o jogo, a torcida, em \u00eaxtase, passa a provocar os alem\u00e3es e \u00e9 contida com viol\u00eancia pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Os jogadores esperam pelo pior. Nos dias seguintes, todos s\u00e3o presos e enviados a um campo pr\u00f3ximo a Kiev: tr\u00eas dos jogadores s\u00e3o executados com tiros na nuca, durante uma repres\u00e1lia. Outro, que os alem\u00e3es suspeitavam ser espi\u00e3o da NKVD (servi\u00e7o secreto da URSS) j\u00e1 fora assassinado. Os demais sobrevivem.<\/p>\n<p>Ao fim da ocupa\u00e7\u00e3o de dois anos, em que 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o de Kiev pereceu, os jogadores foram considerados her\u00f3is. At\u00e9 hoje a hist\u00f3ria \u00e9 lembrada pelas novas gera\u00e7\u00f5es de jogadores. O feito dos rapazes do Start est\u00e1 eternizado em um monumento de granito, com tr\u00eas metros de altura, em frente ao est\u00e1dio do D\u00ednamo.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Confiss\u00e3o<\/strong><br \/>\nConfesso a voc\u00eas, sou um brasileiro at\u00edpico, daqueles que n\u00e3o se importam com futebol (por\u00e9m, nas pouqu\u00edssimas vezes em que fui a um est\u00e1dio soube distinguir quem era a bola). Nesse aspecto, sou t\u00e3o inocente, que tor\u00e7o para que todos os times cearenses, incluindo o Fortaleza e o Cear\u00e1 &#8211; e principalmente o Ferrovi\u00e1rio, cheguem \u00e0 S\u00e9rie A do Brasileir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Dimens\u00e3o humana<\/strong><br \/>\nEntanto, gosto da dimens\u00e3o humana do futebol, creio que \u00e9 o esporte que melhor reflete os mais profundos aspectos da vida: paix\u00f5es, alegrias, trag\u00e9dias. Por isso, sou leitor do Serginho R\u00eades e do Tost\u00e3o, ambos colunistas deste jornal.<\/p>\n<p><strong>Homenagem<\/strong><br \/>\nAsssim, meus amigos, em homenagem ao mundial de futebol, pela qual n\u00e3o vou me descabelar, por\u00e9m me opondo \u00e0 consigna \u201cn\u00e3o vai ter Copa\u201d &#8211; uma besteira, quando n\u00e3o uma reles vindita sem sentido &#8211; vou escrever outras hist\u00f3rias sobre o esporte bret\u00e3o durante este m\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 1\u00ba\/6\/2014, do O POVO. 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