{"id":17010,"date":"2014-06-14T16:01:52","date_gmt":"2014-06-14T19:01:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17010"},"modified":"2014-06-14T16:01:52","modified_gmt":"2014-06-14T19:01:52","slug":"o-primeiro-fla-flu-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/06\/14\/o-primeiro-fla-flu-da-historia\/","title":{"rendered":"O primeiro Fla-Flu da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/6\/2014 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_17021\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Carlus1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17021\" class=\"size-full wp-image-17021\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Carlus1.jpg\" width=\"337\" height=\"554\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Carlus1.jpg 337w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Carlus1-300x493.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Carlus1-120x197.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17021\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Carlus<\/p><\/div>\n<p><strong>O primeiro Fla-Flu da hist\u00f3ria<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Se hoje o futebol \u00e9 uma unanimidade entre os brasileiros, nem sempre foi assim. A introdu\u00e7\u00e3o do esporte no Brasil provocou um racha entre os intelectuais favor\u00e1ves e contra a novidade importada da Inglaterra.<\/p>\n<p>Alinhando-se contra estavam os escritores Graciliano Ramos e Lima Barreto, este um militante contra o jogo de bola, chegando a fundar uma Liga Brasileira Contra o Futebol (1919). A favor, os tamb\u00e9m escritores Olavo Bilac e Coelho Neto, este um ide\u00f3logo do novo esporte, tendo engalfinhado-se em feroz pol\u00eamica com Lima Barreto. Foi o primeiro Fla-Flu da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em um texto carregado de ironia, Graciliano afirmou que o futebol n\u00e3o daria certo num pa\u00eds de seres \u201cfranzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de m\u00fasculos lastim\u00e1vel\u201d e sugeria a reabilita\u00e7\u00e3o dos esportes mais habituais aos brasileiros, \u201co porrete, o cacha\u00e7\u00e3o, a queda de bra\u00e7o, a corripa a p\u00e9 (&#8230;) e melhor que tudo, o cambap\u00e9, a rasteira. A rasteira! Este, sim, \u00e9 o esporte nacional por excel\u00eancia\u201d. E decretou: \u201cO futebol n\u00e3o pega, tenham a certeza\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que o futebol surgiu no Brasil como um esporte da elite branca; negros n\u00e3o eram admitidos nos clubes de futebol. No campeonato Sul-Americano de 1921, disputado na Argentina, o ent\u00e3o presidente Epit\u00e1cio Pessoa recomendou que n\u00e3o se inclu\u00edssem jogadores negros nos times, pois, disse ele, o Brasil precisava levar a imagem do \u201cmelhor da nossa sociedade\u201d para o exterior.<\/p>\n<p>Coelho Neto via o futebol como \u201cinstrumento de regenera\u00e7\u00e3o social\u201d, um esporte que remetia aos princ\u00edpios do \u201chelenismo\u201d e do \u201cesp\u00edrito ol\u00edmpico\u201d e que sua pr\u00e1tica ajudaria a \u201ccriar uma sociedade na qual os homens, qual os esportistas, fossem adestrados pelo exerc\u00edcio f\u00edsico, criando um tempo de paz e de harmonia e abrindo o peito para valores nobres de confraterniza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Lima Barreto, ao contr\u00e1rio, considerava o futebol \u201cuma escola de viol\u00eancia e brutalidade\u201d, dentro e fora de campo, apontando para as brigas entre jogadores e a viol\u00eancia das torcidas, cujos frequentes confrontos deixavam feridos, terminando em tiroteio, em alguns casos. Para ele, um esporte desse tipo n\u00e3o levaria \u00e0 fraternidade e \u00e0 paz, pois fundamentava-se no elitismo, no sectarismo e na exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>Dizia ele tamb\u00e9m que, em vez de promover a uni\u00e3o entre os brasileiros, separava-os, pois os clubes de futebol seriam \u201cportadores de uma pretens\u00e3o absurda, de classe, de ra\u00e7a\u201d, pois os partid\u00e1rios do jogo entendiam-no como um esporte a ser praticado por \u201cpessoas da mesma educa\u00e7\u00e3o e cultivo&#8221;. O escritor tamb\u00e9m critica os \u201cfavores\u201d e a subven\u00e7\u00e3o que os clubes (j\u00e1 naquela \u00e9poca) recebiam dos governos.<\/p>\n<p>Lima Barreto acertou em apontar algumas mazelas que permanecem at\u00e9 hoje: a viol\u00eancia das torcidas (dentro de campo foi controlada pelas regras e pelo rigor da arbitragem); o apoio (e a leni\u00eancia com a m\u00e1 gest\u00e3o) do poder p\u00fablico com os clubes. Quanto ao preconceito, se deixou de existir dentro do campo, continua a expressar-se fora dele, com os manifesta\u00e7\u00f5es racistas de torcedores contra os futebolistas negros.<\/p>\n<p>O que contraria a tese de Lima Barreto e de Graciliano Ramos \u00e9 a avassaladora popularidade que o futebol alcan\u00e7ou, no que acertou Coelho Neto ao preconizar a sua dissemina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, em contr\u00e1rio \u00e0 sua premissa, que via o futebol como um fator de eugenia, que contribuiria para se chegar a de \u201cra\u00e7a superior\u201d (isto \u00e9, branca e \u201ceducada\u201d), tanto o pa\u00eds como os clubes de futebol caminharam em dire\u00e7\u00e3o oposta &#8211; de uma sociedade cada vez mais miscigenada, em que esse fator passou a ser visto como uma vantagem.<\/p>\n<p>Lima Barreto tamb\u00e9m n\u00e3o atentou para o fato que um instrumento dos dominadores pode, em muitos casos, transformar-se em arma nas m\u00e3os dos oprimidos. E foi isso o que aconteceu, a levar-se em conta o destaque que pretos, mulatos e mesti\u00e7os alcan\u00e7aram nos campos de futebol em todo o mundo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>O estilo do homem<\/strong><br \/>\nCoelho Neto, o principal opositor de Lima Barreto, era um escritor de estilo gong\u00f3rico. Veja como ele descreveu a constru\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio do Fluminense: \u201cOlhando o colossal Est\u00e1dio do Fluminense, cujas escaleiras, com a alta muralha que as cinge, surgiram no curto espa\u00e7o de tr\u00eas meses, por verdadeiro milagre de energia, ocorreram-me lembran\u00e7as das descri\u00e7\u00f5es que li em Pansonias e em outros autores da vida na cidade da H\u00e9lida, compar\u00e1vel \u00e0 que agora aqui levamos, durante a realiza\u00e7\u00e3o dos jogos agon\u00edsticos, abarrotada de forasteiros e sempre a receber vindi\u00e7os que por falta de c\u00f4modos ficavam ao tempo, e por n\u00e3o caberem no Est\u00e1dio e no Hip\u00f3dromo contentavam-se em ouvir de fora as aclama\u00e7\u00f5es com que eram saudados os vencedores(&#8230;)&#8221;<\/p>\n<p><strong>Consultas<\/strong><br \/>\nPara escrever o artigo consultei o texto <a href=\"http:\/\/www.germinaliteratura.com.br\/2010\/lettera_brasilis_jun10.htm\" target=\"_blank\">O futebol: paix\u00e3o e \u00f3dio, os literatos, duas cidades<\/a>, de Mauro Rosso, autor de <em>Lima Barreto Versus Coelho Neto &#8211; Um Fla-flu Liter\u00e1rio<\/em> (Difel) e a cr\u00f4nica de Graciliano Ramos publicada originalmente na coluna \u201cTra\u00e7os a Esmo\u201d (1921), no jornal <strong>O \u00cdndio<\/strong>, de Palmeira dos \u00cdndios (AL), reproduzido no livro <em>Linhas Tortas<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/6\/2014 do O POVO. 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