{"id":17039,"date":"2014-06-28T16:01:34","date_gmt":"2014-06-28T19:01:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17039"},"modified":"2014-06-28T16:01:34","modified_gmt":"2014-06-28T19:01:34","slug":"futebol-dos-pretos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/06\/28\/futebol-dos-pretos\/","title":{"rendered":"Futebol dos pretos"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 29\/6\/2014 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_17046\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Guabiras1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17046\" class=\"size-full wp-image-17046\" alt=\"Arte: Guabiras\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Guabiras1.jpg\" width=\"210\" height=\"374\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Guabiras1.jpg 210w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/06\/Guabiras1-120x214.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17046\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Guabiras<\/p><\/div>\n<p><strong>Futebol dos pretos<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>A uma pergunta se j\u00e1 sofrera racismo, o mulato Neymar respondeu: \u201cNunca, nem dentro e nem fora do campo, mesmo porque eu n\u00e3o sou preto\u201d. O jogador foi muito criticado por sua declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o derem nem mesmo desconto \u00e0 sua juventude (na \u00e9poca com 18 anos), ainda deslumbrado com a fortuna que j\u00e1 ganhava, e falando de sua meta de ter \u201cum Porsche e uma Ferrari na garagem\u201d. (Nessa altura do campeonato ele deve ter alcan\u00e7ado o sonho ou talvez esteja preocupado com outras coisas.)<\/p>\n<p>Mas o fato nu e cru \u00e9 que Neymar tem raz\u00e3o. O racismo no Brasil reveste-se de caracter\u00edstica singular: quanto mais um negro enriquece, torna-se famoso ou ascende na escala social, menos a sua cor tem import\u00e2ncia. Neymar, portanto, n\u00e3o \u00e9 preto; Neymar \u00e9\u2026 Neymar. Um pai racista odiaria ver sua filha namorando um preto, por\u00e9m, ficaria orgulhoso ela se casasse com Neymar. Ou n\u00e3o?<!--more--><\/p>\n<p>Neymar faz parte de uma linhagem de jogadores de futebol que \u201cperderam\u201d a cor. No livro <em>O negro no futebol brasileiro<\/em>, Mario Filho conta que, quando o futebol come\u00e7ou a ganhar import\u00e2ncia como esporte, mesmo a contragosto, os clubes come\u00e7aram a admitir pretos em suas equipes. O Fluminense, um dos mais resistentes, tamb\u00e9m passou a faz\u00ea-lo, e os negros passaram a ter os mesmos privil\u00e9gios dos atletas brancos.<\/p>\n<p>Certo dia, um desses jogadores pretos, Robson, estava de carona no autom\u00f3vel de um diretor do Fluminense, ao lado de outro jogador, Orlando. Era noite, o ve\u00edculo transitava por uma rua mal iluminada. De repente, um casal de pretos, b\u00eabados, aos beijos, surge em frente ao carro; o motorista freia bruscamente para n\u00e3o atingi-los. Orlando \u00e9 projetado para a frente, bate violentamente a testa no p\u00e1ra-brisa, um galo sobe. Furioso, ele xinga:<\/p>\n<p>&#8211; Seus pretos sujos!<\/p>\n<p>Os amantes nem ligam e continua ziguezagueando em frente ao carro; Orlando, possesso com a folga dos dois, continua gritando, xingando. Robson interv\u00e9m em favor do casal:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o faz, Orlando. Eu j\u00e1 fui preto e sei o que \u00e9 isso.<\/p>\n<p>Mario Filho interpreta: \u201c(&#8230;) Robson n\u00e3o se sentia preto. Sabia apenas que tinha sido preto. Que nascera preto. Como podia ser preto se pertencia \u00e0 fam\u00edlia do Fluminense?\u201d (Lembrando que o Fluminense era um clube da elite carioca da \u00e9poca e que o futebol, em seus prim\u00f3rdios, era um esporte de bem-nascidos, para gente de \u201cboa fam\u00edlia\u201d, no qual os pretos n\u00e3o eram admitidos.)<\/p>\n<p>No livro Mario Filho conta a hist\u00f3ria do futebol at\u00e9 meados dos anos 1950, mostrando como a sua estrutura elitista foi quebrada. E como os pretos &#8211; que eram proibidos de jogar nos times da elite &#8211; tornaram-se os \u201cmestres\u201d, \u201cdiamantes\u201d e reis do futebol.<\/p>\n<p>Jornalista esportivo, as fontes de Mario Filho foram jornais e documentos da \u00e9poca, mas, principalmente, depoimentos que ele mesmo colheu, tendo sido um dos precursores do recurso da hist\u00f3ria oral como instrumento de pesquisa. Por isso mesmo, o bom do livro s\u00e3o as hist\u00f3rias que ele conta, todas elas com profundo significado, como a do jogador Robson.<\/p>\n<p>At\u00e9 chegar ao momento atual, em que muitos futebolistas negros real\u00e7am as suas origens e encaram o racismo &#8211; como fez Daniel Alves, que comeu a banana que lhe atiraram no campo &#8211; os primeiros negros que ganharam destaque \u201cfugiam da cor\u201d. O caso, por exemplo, de Carlos Alberto, jogador do Fluminense, que se cobria de p\u00f3-de-arroz antes de entrar em campo, \u201cficando quase cinzento\u201d. Ou de Friedenreich, o primeiro \u00eddolo do futebol brasileiro, filho de alem\u00e3o e m\u00e3e preta &#8211; mulato de olhos verdes &#8211; que ficava meia hora \u201camansando o cabelo\u201d antes de cada partida.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que Pel\u00e9, muitas vezes acusado de relevar a quest\u00e3o racial, \u00e9 exaltado por Mario Filho como um militante vanguardista na sua \u00e9poca por n\u00e3o seguir essa \u201cmoda\u201d. Manteve a carapinha para exaltar a fam\u00edlia: \u201c\u00c9 preto como o pai, como a m\u00e3e, como a av\u00f3, como o tio, como os irm\u00e3os\u201d. Para Mario, \u201cPel\u00e9 fez quest\u00e3o de ser preto\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Identidade<\/strong><br \/>\n<em>O negro no futebol brasileiro<\/em> teve sua primeira edi\u00e7\u00e3o em 1947, obra do jornalista e escritor Mario Filho (1908-1966), irm\u00e3o do dramaturgo Nelson Rodrigues, que, creio, encontrou inspira\u00e7\u00e3o para criar o conceito de \u201ccomplexo de vira-lata\u201d neste livro. A obra tornou-se um cl\u00e1ssico, que ajuda a compreender como se forjou a identidade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Rebolo<\/strong><br \/>\nA capa da quinta edi\u00e7\u00e3o do livro reproduz um quadro do artista pl\u00e1stico Francisco Rebolo (1902-1980). Mostra um jogador negro driblando um branco, o pr\u00f3prio Rebolo, que atuou profissionalmente em v\u00e1rios clubes. Rebolo foi um dos pioneiros na luta para que o negro fosse admitido nas ligas oficiais de futebol. Ele afirmou, certa vez, que duranta toda a sua carreira nunca jogara com pretos nem contra pretos. \u201cS\u00f3 tinha colegas negros na v\u00e1rzea\u201d.<\/p>\n<p><strong>S\u00edmbolos<\/strong><br \/>\nNa d\u00e9cada de 1930 dois jogadores pretos tornaram-se s\u00edmbolos do futebol brasileiros e os de maior sal\u00e1rio: Le\u00f4nidas da Silva e Domingos da Guia. Eram de personalidades opostas: Le\u00f4nidas, exuberante dentro e fora de campo, era o \u201cDiamante Negro\u201d; Da Guia, minimalista, contido, exato &#8211; era o \u201cprofessor\u201d, o \u201cmestre\u201d, um \u201cdoutor\u201d em futebol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 29\/6\/2014 do O POVO. 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