{"id":17465,"date":"2014-12-06T16:26:26","date_gmt":"2014-12-06T19:26:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17465"},"modified":"2019-04-24T19:15:47","modified_gmt":"2019-04-24T22:15:47","slug":"dormir-e-para-os-fracos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/12\/06\/dormir-e-para-os-fracos\/","title":{"rendered":"Dormir \u00e9 para os fracos"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;people&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 7\/12\/2014, do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-17473\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus.jpg\" alt=\"Carlus\" width=\"370\" height=\"655\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus.jpg 529w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus-300x530.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus-120x212.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Dormir \u00e9 para os fracos<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Quando eu era menino havia duas coisas que considerava in\u00fateis, devido ao tempo nelas despendido: tomar banho e dormir. Como sabia ser imposs\u00edvel escapar da escova e do sab\u00e3o da minha m\u00e3e, imaginava uma m\u00e1quina em forma de cabines cil\u00edndricas &#8211; a primeira despejando \u00e1gua e a segunda borrifando ar quente -, na qual se entraria em um ponta, saindo-se na outra, em poucos segundos, com o corpo lavado e enxugado.<\/p>\n<p>Quanto ao sono, pensava em uma p\u00edlula que me revigorasse sem as longas horas na cama, que me roubavam a rua, me afastavam dos cuidados que precisava dispensar \u00e0 minha cria\u00e7\u00e3o de coelhos, dos diversos jogos ao ar livre pr\u00f3prio de garotos suburbanos, al\u00e9m de incurs\u00f5es por um matagal nas proximidades de minha casa.<\/p>\n<p>Lendo o artigo \u201cO sono acabou\u201d, publicado na revista <em>piau\u00ed<\/em>, entendi em profundidade o porqu\u00ea do aforismo \u201cCuidado como o que voc\u00ea deseja\u201d. Jonathan Crary descreve um estudo do Departamento de Defesa americano sobre a possibilidade de manter uma pessoa sem dormir, permanecendo v\u00e1rios dias desperta, de maneira produtiva e eficiente. O objetivo seria criar um soldado \u201csem sono\u201d, apto a participar de miss\u00f5es que exigissem grande esfor\u00e7o e vig\u00edlia permanente.<!--more--><\/p>\n<p>Al\u00e9m desse estudo, as For\u00e7as Armadas americanas financiam v\u00e1rios outros na \u00e1rea de pesquisa do c\u00e9rebro, inclusive uma droga contra o medo. A fic\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica pode dar uma ideia de onde podem chegar essas pesquisas, de Wolverine ao \u201cSoldado universal\u201d.<\/p>\n<p>Para isso, pesquisadores est\u00e3o analisando o mecanismo que mant\u00e9m o pardal-de-coroa-branca, uma ave migrat\u00f3ria, sete dias acordado, permitindo-lhe voar \u00e0 noite e a buscar alimentos incessantemente. O p\u00e1ssaro \u00e9 exce\u00e7\u00e3o no mundo animal. Em experi\u00eancia, ratos morrem ap\u00f3s tr\u00eas semanas de ins\u00f4nia; aos seres humanos, bastam alguns per\u00edodos curtos de priva\u00e7\u00e3o do sono para produzir psicose; ap\u00f3s algumas semanas, danos neurol\u00f3gicos s\u00e3o inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>O objetivo do Departamento de Defesa, a curto prazo, \u00e9 desenvolver m\u00e9todos que permitam a um combatente ficar sem dormir pelo menos sete dias. No longo prazo a finalidade \u00e9 duplicar o per\u00edodo, preservando altos n\u00edveis de desempenho mental e f\u00edsico.<\/p>\n<p>Com sempre acontece, as inova\u00e7\u00f5es militares sendo absorvidas pela vida civil, Crary diz que o \u201csoldado sem sono\u201d seria o precursor do trabalhador ou do consumidor em permanente vig\u00edlia. \u201cProdutos contra o sono, ap\u00f3s agressiva campanha de marketing das empresas farmac\u00eauticas, iriam se tornar uma op\u00e7\u00e3o de estilo de vida e depois, para muitos, uma necessidade.\u201d<\/p>\n<p>Crary atribui ao mercado a \u00e2nsia por suprimir o sono, pois esse per\u00edodo improdutivo subsiste \u201ccomo uma das grandes afrontas humanas \u00e0 voracidade do capitalismo contempor\u00e2neo\u201d. Para ele, o sono \u00e9 a das \u00faltimas necessidades \u201caparentemente irredut\u00edveis da vida humana\u201d, que ainda n\u00e3o se transformaram em mercadoria ou investimento, como j\u00e1 acontece com a \u201cfome, a sede, e o desejo sexual\u201d e, mais recentemente, \u00e0 car\u00eancia de amizade (ele n\u00e3o cita, por\u00e9m suponho que seja refer\u00eancia \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o das redes sociais na internet).<\/p>\n<p>No mundo 24\/7 (24 horas por dia, sete dias por semana), seguindo o paradigma neoliberal globalista, diz Jonathan Crary, \u201cdormir \u00e9, acima de tudo, para os fracos\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Piau\u00ed<\/strong><br \/>\nO artigo completo de Jonathan Crary, cujos argumentos foram resumidos nesta coluna, pode ser visto na revista <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-sono-acabou\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>piau\u00ed<\/em>\u00a0<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Homem m\u00e1quina<\/strong><br \/>\nNo mesmo sentido do texto de Crary, recentemente vi document\u00e1rio em que cientistas afirmam estar pr\u00f3ximo o dia em que a interface homem\/m\u00e1quina e m\u00e1quinas human\u00f3ides ser\u00e3o cada vez mais comuns.<\/p>\n<p><strong>C\u00e9rebro<\/strong><br \/>\nO f\u00edsico Stephen Hawking j\u00e1 afirmou que chegar\u00e1 o tempo em que o c\u00e9rebro humano poder\u00e1 ser copiado para um computador, permanecendo \u201cvivo\u201d ap\u00f3s a morte do corpo. Para ele, o funcionamento do c\u00e9rebro assemelha-se a um software poderoso e a mente a um circuito eletr\u00f4nico que permite seu funcionamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;people&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 7\/12\/2014, do O POVO. 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