{"id":17477,"date":"2014-12-13T16:01:46","date_gmt":"2014-12-13T19:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17477"},"modified":"2014-12-13T16:01:46","modified_gmt":"2014-12-13T19:01:46","slug":"o-capitalismo-contra-o-sono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/12\/13\/o-capitalismo-contra-o-sono\/","title":{"rendered":"O capitalismo contra o sono"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/12\/2014, do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-17490\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus1.jpg\" alt=\"Carlus\" width=\"339\" height=\"538\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus1.jpg 339w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus1-300x476.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2014\/12\/Carlus1-120x190.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/a>O capitalismo contra o sono<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>O meu objetivo nos artigos que escrevo \u00e9 provocar nos eventuais leitores alguma reverbera\u00e7\u00e3o. Modestamente, venho alcan\u00e7ando esse prop\u00f3sito. S\u00e3o comuns e-mails com coment\u00e1rios contestando, concordando ou ampliando os temas que exponho. Tanto \u00e9 que tenho dois assuntos para dar sequ\u00eancia, devido \u00e0 paci\u00eancia de pessoas que se d\u00e3o ao trabalho de ler e comentar o que escrevo: a quest\u00e3o dos impostos, devido ao artigo que escrevi para a editoria de Opini\u00e3o, sobre a proposta de se voltar a cobrar a contribui\u00e7\u00e3o sobre movimenta\u00e7\u00e3o financeira; e a respeito do artigo da semana passada nesta coluna. O primeiro assunto, talvez volte a ele, vou continuar hoje o tema que abordei em \u201cDormir \u00e9 para os fracos\u201d, no qual falei sobre artigo de Jonathan Crary para a revista <em>piau\u00ed<\/em>.<\/p>\n<p>Publicado o texto, Haroldo Barbosa deixou uma mensagem no Twitter: \u201cDois artigos de perder o sono\u201d, indicando os links para o meu texto e para outro, do te\u00f3rico alem\u00e3o, Robert Kurz, \u201cEscravos da luz sem miseric\u00f3rdia\u201d, publicado na Folha de S. Paulo (12\/1\/1997). No meu artigo, comento pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, empenhado em produzir uma droga para manter soldados at\u00e9 15 dias acordados, agindo com efici\u00eancia.<!--more--><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo eu estava lendo o livro <em>Uma conspira\u00e7\u00e3o permanente contra o mundo<\/em>, de Anselm Jappe, no qual ele explica as teses de Guy Debord, fil\u00f3sofo franc\u00eas. A obra vem sendo divulgado em Fortaleza pelos integrantes do grupo Cr\u00edtica Radical: Jorge Paiva, Rosa da Fonseca e Maria Lu\u00edsa Fontenele, seguidores das teorias dos citados. O aviso de Haroldo, fez-me recorrer tamb\u00e9m ao livro de Kurz, <em>O colapso da moderniza\u00e7\u00e3o<\/em> (1991), no qual ele prev\u00ea, como j\u00e1 vinha fazendo desde a d\u00e9cada de 1980 em artigos na <em>Folha de S.Paulo<\/em>, que a \u201csociedade da mercadoria\u201d chegou ao seu limite, e s\u00f3 tem a oferecer ao mundo os seus horrores, seja no Oriente M\u00e9dio, nas am\u00e9ricas, nos pa\u00edses desenvolvidos da Europa, ou em qualquer esconso do mundo.<\/p>\n<p>Em seu artigo \u201cEscravos da luz\u2026\u201d Kurz fala do \u201cinfatig\u00e1vel ativismo da produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, que n\u00e3o pode tolerar que nenhum tempo permane\u00e7a \u201cescuro\u201d, pois \u201co tempo da escurid\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o tempo do descanso, da passividade, da contempla\u00e7\u00e3o\u201d, e que o capitalismo requer \u201ca amplia\u00e7\u00e3o de sua atividade \u00e0s raias do esfor\u00e7o f\u00edsico e biol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Jappe, por sua vez, fundamentando-se em Debord, escreve: \u201cNa economia capitalista, o tempo tornou-se uma mercadoria que, como todas as outras, perdeu seu valor de uso [desfrute] a favor de seu valor de troca [mercadoria]. O tempo irrevers\u00edvel e hist\u00f3rico s\u00f3 pode ser contemplado nas a\u00e7\u00f5es de outrem, mas nunca experimentado na pr\u00f3pria vida\u201d. Assim, escreve Jappe, reproduzindo Debord, para submeter os trabalhadores ao \u201ctempo-mercadoria, a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via foi a expropria\u00e7\u00e3o violenta de seu tempo\u201d. Ou seja, al\u00e9m de expropriados dos meios de produ\u00e7\u00e3o, os trabalhadores tiveram tamb\u00e9m roubado seu pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o c\u00edrculo se fecha, nas palavras de Crary, quando ele diz que o sono \u00e9 \u201cuma das grandes afrontas humanas \u00e0 voracidade do capitalismo contempor\u00e2neo\u201d, pois: \u201cO sono afirma a ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo que n\u00e3o pode ser colonizado nem submetido a um mecanismo monol\u00edtico de lucratividade, e desse modo, permanece uma anomalia incongruente e um foco de crise no presente global. Apesar de todas as pesquisas cient\u00edficas, frustra e confunde qualquer estrat\u00e9gia para explor\u00e1-lo ou redefini-lo. A verdade chocante, inconceb\u00edvel, \u00e9 que nenhum valor pode ser extra\u00eddo do sono\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Fim da hist\u00f3ria<\/strong><br \/>\nDiferentemente dos que declararam a vit\u00f3ria do capitalismo e o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d com a queda dos regimes comunistas na Europa oriental, Robert Kurz (1943-2012) viu no fen\u00f4meno o rompimento do elo mais fraco do \u201csistema produtor de mercadoria\u201d, que o levaria fatalmente \u00e0 bancarrota.<\/p>\n<p><strong>Titanic<\/strong><br \/>\nEm O<em> colapso da moderniza\u00e7\u00e3o<\/em>, Kurz escreve: \u201cOs passageiros do Titanic querem ficar no conv\u00e9s, e que a banda continue tocando. Se tivermos mesmo o \u2018fim da hist\u00f3ria\u2019, n\u00e3o ser\u00e1 um final feliz\u201d.<\/p>\n<p><strong>Para os fortes<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/dormir-e-para-os-fracos\/\" target=\"_blank\">Dormir \u00e9 para os fracos<\/a>; <a href=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-96\/tribuna-livre-da-luta-de-classes\/o-sono-acabou\" target=\"_blank\">O sono acabou<\/a>; <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1997\/1\/12\/mais!\/7.html\" target=\"_blank\">Escravos da luz sem miseric\u00f3rdia<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/12\/2014, do O POVO. 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