{"id":17600,"date":"2015-01-31T16:01:24","date_gmt":"2015-01-31T19:01:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17600"},"modified":"2015-01-31T16:01:24","modified_gmt":"2015-01-31T19:01:24","slug":"come-salsicha-pequena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/01\/31\/come-salsicha-pequena\/","title":{"rendered":"Ang\u00e9lica: &#8220;Come salsicha, pequena&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, publicada no caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 1\u00ba\/2\/2015 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/01\/Carlus1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-17612\" alt=\"Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/01\/Carlus1.jpg\" width=\"317\" height=\"523\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/01\/Carlus1.jpg 317w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/01\/Carlus1-300x495.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/01\/Carlus1-120x198.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 317px) 100vw, 317px\" \/><\/a>Come salsicha, pequena<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Misteriosa \u00e9 a mente humana: n\u00e3o sei por quais cargas d\u00b4\u00e1gua, ao ler sobre a \u201cpol\u00eamica\u201d publicidade em que a apresentadora televisiva Ang\u00e9lica aparece comendo salsicha, lembrei-me de trecho de \u201cTabacaria\u201d, talvez um dos mais conhecidos poemas de Fernando Pessoa (assinado pelo heter\u00f4nimo \u00c1lvaro Campos):<\/p>\n<p>(Come chocolates, pequena;\/ Come chocolates!\/ Olha que n\u00e3o h\u00e1 mais metaf\u00edsica no mundo sen\u00e3o chocolates.\/ Olha que as religi\u00f5es todas n\u00e3o ensinam mais que a confeitaria.\/ Come, pequena suja, come!\/ Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!\/ Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que \u00e9 de folha de estanho,\/ Deito tudo para o ch\u00e3o, como tenho deitado a vida.)<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Ang\u00e9lica, que afirmava n\u00e3o consumir carnes \u201cvermelhas\u201d, virou garota propaganda de uma marca de salsichas (junto com o marido Luciano Huck). O epis\u00f3dio ocasionou \u201cgrande repercuss\u00e3o nas redes sociais\u201d, segundo o Meio &amp; Mensagem, boletim especializado em publicidade e propaganda. Mantendo apenas uma conta no Twitter e um blog, n\u00e3o observei tamanha retumb\u00e2ncia, por\u00e9m o assunto merece coment\u00e1rios.<!--more--><\/p>\n<p>\u00d3bvio \u00e9 o seguinte: se Fernando Pessoa pensou na transcend\u00eancia ao observar a crian\u00e7a comendo uma simples barra de chocolate, Ang\u00e9lica deve ter meditado profundamente sobre a soma que receberia para deglutir a salsicha e o quanto engordaria a sua j\u00e1 recheada conta banc\u00e1ria. Sem d\u00favida, o \u00fanico motivo que levou o casal 20 a fazer propaganda de salsicha \u00e9 este: dinheiro. Qualquer outra explica\u00e7\u00e3o ou justificativa \u00e9 perfumaria para enganar trouxas ou \u201cf\u00e3s\u201d. (O vegetariano rei Roberto Carlos tamb\u00e9m capitulou ao argumento argent\u00e1rio ao fazer propaganda para um frigor\u00edfico.)<\/p>\n<p>A empresa fabricante do comest\u00edvel, a Perdig\u00e3o, afirma que o objetivo \u00e9 \u201cposicionar\u201d sua marca como \u201cmais popular\u201d, diferenciando-se da concorrente, que alcan\u00e7a um p\u00fablico, digamos, \u201cmenos popular\u201d. Mas, pense: n\u00e3o parece \u00f3bvio, caso Ang\u00e9lica gostasse de salsicha, que ela procuraria consumir uma marca mais refinada, a melhor que o dinheiro pudesse comprar, em vez de um produto \u201cpopular\u201d?<\/p>\n<p>Em nota divulgada pela BRF (controladora da Perdig\u00e3o), Ang\u00e9lica justifica-se da seguinte maneira: \u201cFui escolhida para representar a Perdig\u00e3o por meu papel como mulher dona de casa, que escolhe os produtos para a fam\u00edlia e amigos [pausa para risos]. Al\u00e9m disso, como salsicha, adoro cachorro quente e estou comendo no comercial porque realmente gosto [gargalhadas]\u201d. Pela minha vista, considero muito duvidoso que ela alimente os pr\u00f3prios filhos com a salsicha que recomenda para os outros.<\/p>\n<p>Assim como Xuxa nunca deve ter usado os artigos de \u201cbeleza\u201d Monange (lembram?), nenhum dos artistas, ricos e famosos, consomem o que eles recomendam para o \u201cp\u00fablico alvo\u201d das campanhas, normalmente os pobres e remediados das classes m\u00e9dias, \u00e1vidos por emularem seus \u201c\u00eddolos\u201d.<\/p>\n<p>No comercial, Ang\u00e9lica e Luciano Huck aparecem em uma bela mans\u00e3o recebendo um grupo de pessoas, no que parece ser uma confraterniza\u00e7\u00e3o ou um almo\u00e7o de domingo. O filme tem cores suaves, o clima \u00e9 ameno, as pessoas s\u00e3o de v\u00e1rias idades, sugerindo uma fam\u00edlia, todos parecem muito felizes, incluindo o cachorro. \u00c9 isso que muitos querem ter, o suposto conto de fadas da vida do casal; entanto levar\u00e3o para casa apenas um cilindro vermelho, cheio de carne industrial, preparada com as partes que sobraram da fabrica\u00e7\u00e3o de outros produtos: carne de boi, porco e frango, com cartilagem e ossos, transformados em uma pasta, misturados com farinha, tempero, conservantes e corantes &#8211; depois embutida e cozida.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dinheiro<\/strong><br \/>\nEm pesquisa n\u00e3o consegui descobri qual o valor pago ao casal pela publicidade; as not\u00edcias falam em \u201ccontrato milion\u00e1rio\u201d ou \u201cv\u00e1rios milh\u00f5es\u201d. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S-dGapUcx9c\" target=\"_blank\">V\u00eddeo da propaganda<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Tartufos<\/strong><br \/>\nNada contra artista fazer comercial e com isso ganhar muito dinheiro. A quest\u00e3o \u00e9 a hipocrisia dos que dizem uma coisa e fazem outra, dependendo do montante que se lhes p\u00f5e \u00e0 frente. Ang\u00e9lica declarava n\u00e3o comer carne vermelha desde os 12 anos de idade, por ter pena dos animais. Mesmo sendo rica, os cifr\u00f5es tiveram o cond\u00e3o de fazer com que reduzisse a intensidade de seus sentimentos pelos bichos com asas ou de quatro patas.<\/p>\n<p><strong>Poesia<\/strong><br \/>\n\u201cTabacaria\u201d \u00e9 o poema de Fernando Pessoa com o famoso princ\u00edpio: \u201cN\u00e3o sou nada.\/ Nunca serei nada.\/ N\u00e3o posso querer ser nada.\/ \u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo\u201d. <a href=\"http:\/\/circulodepoesia.com\/2013\/05\/tabacaria-de-alvaro-de-campos\/\" target=\"_blank\">Aqui, completo<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, publicada no caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 1\u00ba\/2\/2015 do O POVO. 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