{"id":17620,"date":"2015-02-14T16:17:41","date_gmt":"2015-02-14T19:17:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17620"},"modified":"2015-02-14T16:17:41","modified_gmt":"2015-02-14T19:17:41","slug":"a-mulher-cordial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/02\/14\/a-mulher-cordial\/","title":{"rendered":"A mulher cordial"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Meu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/2\/2015 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/02\/Carlus.1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-17649\" alt=\"Carlus.1\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/02\/Carlus.1.jpg\" width=\"337\" height=\"559\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/02\/Carlus.1.jpg 337w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/02\/Carlus.1-300x498.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/02\/Carlus.1-120x199.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/a>A mulher cordial<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Na recente disputa para eleger o novo presidente da C\u00e2mara dos Deputados, os candidatos agiram como se estivessem em uma elei\u00e7\u00e3o, digamos, normal, aquela em que os postulantes t\u00eam de correr atr\u00e1s dos eleitores, espalhados pelos mais diversos recantos. E foi o que fizeram, apesar da concentra\u00e7\u00e3o de seus eleitores em um \u00fanico local, a C\u00e2mara dos Deputados, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Uma dessas atividades foi um \u201cch\u00e1\u201d reunindo o candidato do PMDB, Eduardo Cunha (que foi eleito) e mulheres de deputados. E o que lhe pediram as simp\u00e1ticas senhoras? Que ele, como presidente da C\u00e2mara, voltasse a incluir a previs\u00e3o da passagens \u00e1reas na verba de gabinete, de modo que elas pudessem usufruir do benef\u00edcio. Uma das participantes do sarau reclamou do \u201csacrif\u00edcio\u201d que \u00e9 ser mulher de deputado e como \u00e9 \u201cdif\u00edcil\u201d ficar longe do marido. \u00c9 claro, que com tantas ocupa\u00e7\u00f5es, a excelent\u00edssima esposa deve ter-se esquecido de que o marido j\u00e1 tem cota de passagens a\u00e9reas para uso pr\u00f3prio, al\u00e9m de resid\u00eancia funcional em Bras\u00edlia ou aux\u00edlio moradia.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Estado e fam\u00edlia<\/strong><br \/>\nEm seu ensaio <em>O homem cordial<\/em>, S\u00e9rgio Buarque de Holanda afirma que o \u201cEstado n\u00e3o \u00e9 uma amplia\u00e7\u00e3o do c\u00edrculo familiar e, ainda menos, uma integra\u00e7\u00e3o de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas (&#8230;) n\u00e3o existe, entre o c\u00edrculo familiar e o Estado uma grada\u00e7\u00e3o, mas antes uma descontinuidade e at\u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no Brasil \u201conde imperou, desde os tempos remotos, o tipo primitivo de fam\u00edlia patriarcal (&#8230;) n\u00e3o era f\u00e1cil aos detentores das posi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distin\u00e7\u00e3o fundamental entre os dom\u00ednios do privado e do p\u00fablico\u201d. Isso, segundo o historiador iria provocar desequil\u00edbrios sociais \u201ccujos efeitos permanecem vivos at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<p>Para esse tipo de funcion\u00e1rio que n\u00e3o distingue o privado do p\u00fablico (patrimonialismo), \u201ca pr\u00f3pria gest\u00e3o p\u00fablica apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as fun\u00e7\u00f5es, os empregos e os benef\u00edcios que dele aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcion\u00e1rio e n\u00e3o a interesses objetivos, como sucede no Estado burocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Do cora\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u00c9 a esse tra\u00e7o da cultura que faz Buarque de Holanda chamar o brasileiro de \u201co homem cordial\u201d, pelo sentido etimol\u00f3gico da palavra, isto \u00e9, aquele que decide \u201cpelos la\u00e7os de sangue e de cora\u00e7\u00e3o\u201d, em favor de amigos, agregados e parentes. Para isso, ele abdica da raz\u00e3o, que o manda, como servidor p\u00fablico, em nome do Estado, a agir de modo impessoal.<\/p>\n<p>Mesmo anotando que \u201ca lanheza no trato, a hospitalidade, a generosidade\u201d s\u00e3o \u201cvirtudes t\u00e3o gabadas por estrangeiros que nos visitam\u201d, Buarque de Holanda ressalva que seria enganoso supor que esses atributos signifiquem \u201ccivilidade\u201d. Para ele, tanto a amizade quanto a inimizade s\u00e3o \u201ccordiais\u201d, pois ambas \u201cnascem do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Ou seja, o homem cordial, n\u00e3o se caracteriza, fundamentalmente, por ser alegre, hospitaleiro, receptivo, mas pelas caracter\u00edsticas demarcadas acima, a de ver o Estado como um prolongamento da fam\u00edlia, a servi\u00e7o de seus interesses particulares.<\/p>\n<p>Pena que S\u00e9rgio Buarque de Holanda n\u00e3o possa comentar o ch\u00e1 das mulheres preocupadas com o distanciamento de seus maridos deputados. Ele poderia criar outra classifica\u00e7\u00e3o: a mulher cordial.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 hoje<\/strong><br \/>\nS\u00e9rgio Buarque de Holanda escreveu o ensaio em 1936, mas parece que foi ontem, ou hoje.<\/p>\n<p><strong>O filho<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica <em>Fado tropical<\/em>, de Chico Buarque, filho de S\u00e9rgio, \u00e9 bom exemplo de como age o \u201chomem cordial\u201d, trecho: \u201cSabe, no fundo eu sou um sentimental.\/ Todos n\u00f3s herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (al\u00e9m da s\u00edfilis, \u00e9 claro).\/ Mesmo quando as minhas m\u00e3os est\u00e3o ocupadas em torturar, esganar, trucidar,\/ o meu cora\u00e7\u00e3o fecha os olhos e sinceramente chora\u2026\u201d<\/p>\n<p><strong>Cachorrinho<\/strong><br \/>\nA \u201ccordialidade\u201d, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstica somente do pol\u00edtico. Por exemplo, muita gente v\u00ea o espa\u00e7o p\u00fablico como extens\u00e3o de pr\u00f3pria sua casa, jogando lixo pela janela do carro, ou quando leva o cachorrinho para \u201cpassear\u201d sem preocupar-se em recolher a sujeira que o bichinho deixa para tr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Meu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/2\/2015 do O POVO. 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