{"id":17690,"date":"2015-03-14T16:03:24","date_gmt":"2015-03-14T19:03:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17690"},"modified":"2015-03-14T16:03:24","modified_gmt":"2015-03-14T19:03:24","slug":"historiador-ataca-o-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/03\/14\/historiador-ataca-o-nordeste\/","title":{"rendered":"Historiador ataca o Nordeste (estereotipado) e pede a sua dissolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/3\/2015, do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Historiador ataca o Nordeste (estereotipado) e pede a sua dissolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>A efem\u00e9ride dos 100 anos da \u201cseca do 15\u201d e a sua simbologia &#8211; refor\u00e7ada pela ic\u00f4nica obra de Rachel de Queiroz, <em>O quinze<\/em>, que que completa 85 &#8211; v\u00eam provocando algumas atividades dedicadas a debater o fen\u00f4meno clim\u00e1tico e tamb\u00e9m a identidade nordestina. Na semana passada, esteve no Espa\u00e7o O POVO de Cultura &amp; Arte o historiado Durval Muniz Albuquerque J\u00fanior (paraibano, professor da UFRN) para conversar sobre o seu livro <em>A inven\u00e7\u00e3o do Nordeste e outras artes<\/em>.<\/p>\n<p>Muniz faz dura cr\u00edtica \u00e0 exist\u00eancia de uma (suposta) \u201cidentidade nordestina\u201d, que ele diz ter sido inventada pelas elites de S\u00e3o Paulo e Minas como tentativa de manter a sua proemin\u00eancia, que come\u00e7ava a esvair-se, no in\u00edcio do s\u00e9culo passado.<!--more--><\/p>\n<p>Ele come\u00e7a dizendo &#8211; unanimidade entre os historiadores &#8211; que at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX n\u00e3o havia do conceito de Nordeste, at\u00e9 ent\u00e3o, o pa\u00eds era entendido como Sul e Norte, da Bahia para cima.<\/p>\n<p>\u201cO Nordeste \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o recente na hist\u00f3ria brasileira, n\u00e3o podendo ser tomado como objeto de estudo fora desta historicidade, sob pena de se cometer anacronismos e reduzi-lo a um simples recorte geogr\u00e1fico naturalizado\u201d, assinala Muniz, lembrando que, al\u00e9m das \u201cfor\u00e7as dirigentes\u201d da \u00e9poca, intelectuais, artistas e escritores (a \u201cgera\u00e7\u00e3o de 30\u201d) contribu\u00edram para a consolida\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o estereotipada do Nordeste, lugar da paisagem \u00fanica (apesar de sua diversidade) dos \u201chomens guabiru\u201d; de incapazes; de uma terra esturricada, eternamente castigada pela seca; e de gente pedinte, sempre de chap\u00e9u na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPor que h\u00e1 quase noventa anos dizemos que somos discriminados com tanta seriedade e indigna\u00e7\u00e3o. Por que dizemos com exalta\u00e7\u00e3o e rancor que somos esquecidos, que somos menosprezados e v\u00edtimas da hist\u00f3ria do pa\u00eds? Que mecanismos de poder e saber nos incita a colocarmo-nos sempre no lugar de v\u00edtimas, de colonizados, de miser\u00e1veis f\u00edsica e espiritualmente?\u201d<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo Muniz anota que o interesse em arrancar recursos do governo federal, leva a classe dirigente nordestina \u201ca se deleitar em afirmar sua impot\u00eancia e se assumir como subordinada e dependente\u201d.<\/p>\n<p>Mas para o historiador n\u00e3o foram apenas as elites a forjar essa identidade deformada do Nordeste. Segundo ele, \u201ctanto os vencedores de direita quanto os de esquerda tiveram, at\u00e9 agora, uma vis\u00e3o abstrata e autorit\u00e1ria do povo\u201d de modo a t\u00ea-lo como \u201cum povo amorfo ou massa de manobra, ou seja , em algo a ser dirigido, visto e dito sempre por interm\u00e9dio dos outros\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, Muniz diz que escreveu o livro n\u00e3o para defender o Nordeste, por\u00e9m para atac\u00e1-lo e pedir a sua dissolu\u00e7\u00e3o \u201cenquanto essa maquinaria imag\u00e9tico-discursivo de reprodu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas sociais e de poder, que fazem com que sejamos habitantes de uma das \u00e1reas mais pobres e de pessoas mais ricas do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Assim, diz o historiador, \u201cse o Nordeste foi inventado para ser este espa\u00e7o de barragem da mudan\u00e7a\u201d ser\u00e1 preciso \u201cdestru\u00ed-lo para dar lugar a novas especialidades de poder e de saber\u201d. Para ele, assumir a \u201cnordestinidade\u201d \u00e9 emitir um discurso preso \u201c\u00e0 l\u00f3gica da submiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Diverg\u00eancia<\/strong><br \/>\nTenho algumas diverg\u00eancias em se negar a import\u00e2ncia de identidades grupais; o homem necessita disso, desde quando vivia nas savanas. E, tirando os preconceitos grosseiros, \u00e9 dif\u00edcil saber o que \u00e9 positivo ou negativo, em se tratando da identidade de um povo ou de um grupo. \u00c9 imposs\u00edvel, por exemplo, manter e preservar as manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais, sem que isso signifique uma \u201cbarragem\u201d \u00e0 modernidade?<\/p>\n<p><strong>Debate<\/strong><br \/>\nDe qualquer modo, como sempre repito, este \u00e9 um espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o de ideias. Por isso, de forma muito resumida, procurei expor as ideias de Durval Muniz da forma mais objetiva poss\u00edvel, deixando o debate aberto. Espero ter sido fiel fiel \u00e0s suas proposi\u00e7\u00f5es e \u00e0 clareza (e paix\u00e3o) com que ele as exp\u00f5e, tanto no livro como pessoalmente.<\/p>\n<p><strong>Tese<\/strong><br \/>\n<em>A inven\u00e7\u00e3o do Nordeste e outras artes<\/em> \u00e9 resultado da tese de doutorado do professor Durval Muniz de Albuquerque J\u00fanior. O livro est\u00e1 na quinta edi\u00e7\u00e3o, brevemente ser\u00e1 lan\u00e7ada a sexta, e est\u00e1 sendo traduzido para publica\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do artigo publicado na coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 15\/3\/2015, do O POVO. 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