{"id":17980,"date":"2015-08-08T16:01:21","date_gmt":"2015-08-08T19:01:21","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=17980"},"modified":"2015-08-08T16:01:21","modified_gmt":"2015-08-08T19:01:21","slug":"a-internet-e-o-deserto-da-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/08\/08\/a-internet-e-o-deserto-da-etica\/","title":{"rendered":"A internet e o deserto da \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 9\/8\/2015 do O POVO<\/p>\n<p><strong>A internet e o deserto da \u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>Na semana passada ganhou repercuss\u00e3o nas redes sociais e em not\u00edcias nos jornais a deten\u00e7\u00e3o de um advogado, uma m\u00e9dica e um estudante de medicina por furtarem um cone de sinaliza\u00e7\u00e3o. Segundo informa\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia, eles voltavam da festa de formatura de um deles, quando resolveram pegar o objeto. Como eram dez horas da manh\u00e3, possivelmente devem ter passado a noite comemorando e voltavam para casa, quando resolveram subtrair o cone \u201cpor brincadeira\u201d, sendo flagrados por um agente.<\/p>\n<p>Como as coisas nunca passam sem um bom debate no O POVO questionei, nas nossas listas internas, se era correto, do ponto de vista \u00e9tico, expor o nome de pessoas em um crime de menor potencial ofensivo, mas que poderia marc\u00e1-las pelo resto da vida, j\u00e1 que os implac\u00e1veis arquivos da internet s\u00e3o permanentes, eternos.<\/p>\n<p>Antes de continuar, um par\u00eantese: o fato de eu questionar se era l\u00edcito divulgar o nome dos infratores nada tem a ver com o fato de eles serem de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d. H\u00e1 muito tempo, pelo menos desde que exerci a fun\u00e7\u00e3o de ombudsman (2005 a 2007), fa\u00e7o esse tipo de questionamento. Escrevi v\u00e1rias vezes, em coment\u00e1rios internos e na coluna externa, cr\u00edticas \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de nome de jovens da periferia, devido a delitos que seriam vistos como \u201cbrincadeira\u201d, se fossem praticados por gente da classe m\u00e9dia. Al\u00e9m disso, apontava que os meios de comunica\u00e7\u00e3o costumam reproduzir, sem muito escr\u00fapulo, declara\u00e7\u00e3o de policiais acusando adolescentes mortos de \u201ctraficantes\u201d ou \u201cbandidos\u201d, como se uma \u201cbriga de gangues\u201d ou um \u201cacerto de contas\u201d justificasse o justi\u00e7amento, ou a a\u00e7\u00e3o mortal da pol\u00edcia contra eles.<!--more--><\/p>\n<p>Mas \u00e9 o seguinte: se a internet n\u00e3o inaugura uma nova \u00e9tica para o jornalismo, j\u00e1 que seus princ\u00edpios fundamentais devem ser aplicados tanto no impresso quanto nas m\u00eddias eletr\u00f4nicas, sem d\u00favida, ela traz novos dilemas.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 vinte anos uma estripulia qualquer fosse para a p\u00e1gina de um jornal, aquilo seria lido, talvez comentado aqui e acol\u00e1, mas iria para os arquivos f\u00edsicos e &#8211; passado algum tempo &#8211; ningu\u00e9m mais se lembraria do ocorrido.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, agora, com os arquivos permanentes da internet, vejam como fica a situa\u00e7\u00e3o. A ocorr\u00eancia deu-se com um rapaz rec\u00e9m-formado e outros dois em in\u00edcio de carreira, pois todos jovens. Imaginem se um deles &#8211; daqui a dez anos, quando esse caso j\u00e1 estar\u00e1 no passado &#8211; vai participar de uma sele\u00e7\u00e3o de trabalho, o empregador resolve dar uma busca na internet, e verifica que o candidato \u00e9 um \u201cladr\u00e3o\u201d de bens p\u00fablicos. \u00c9 justo que uma molecagem da juventude prejudique a vida de uma pessoa para sempre?<\/p>\n<p>Portanto, creio que os jornalistas, mais do que nunca, devem se questionar: podemos continuar a noticiar fatos banais, mas que podem marcar negativamente a vida de uma pessoa? Podemos continuar a publicar suspeitas sem uma verifica\u00e7\u00e3o exaustiva? Temos o direito de veicular acusa\u00e7\u00f5es, que l\u00e1 na frente podem se revelar falsas?<\/p>\n<p>Vejo com certo pessimismo resposta para esses perguntas. Em um tempo em que a rapidez para publicar \u00e9 tomada como valor absoluto, e que as redes e que sociais assemelham-se a uma verdadeira terra de ningu\u00e9m, clamar pelo debate \u00e9tico equivale cada vez mais a pregar no deserto.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leitor<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o L\u00f4bo me escreve comentando a coluna de domingo passado: \u201cComo ir ao longe, devagar\u201d, na qual abordei o movimento \u201cSlow\u201d, que se insurge contra o \u201cculto \u00e0 velocidade\u201d, que hoje nos submete a todos.<\/p>\n<p><strong>Festina lente<\/strong><br \/>\nEnvia-me ele uma cita\u00e7\u00e3o em latim, que eu desconhecia: \u201cFestina lente\u201d. Vou ao onisciente Google, que me manda \u00e0 Wikipedia, e descubro que o ox\u00edmoro \u00e9 atribu\u00eddo ao imperador romano Augustus (27 a.C. &#8211; 14 d.C.), e quer dizer: \u201cApressa-te devagar\u201d. Ou seja, fa\u00e7a o seu trabalho rapidamente, por\u00e9m de forma cuidadosa. Vejam ent\u00e3o que o combate \u00e0 velocidade sem sentido vem de longe.<\/p>\n<p><strong>Ox\u00edmoro ou paradoxo<\/strong><br \/>\nFigura de linguagem que combina termos opostos, que refor\u00e7am o contexto. Exemplo: \u201c(o amor) \u00c9 um contentamento descontente\u201d, poema de Lu\u00eds de Cam\u00f5es. (Se procurar no Google, garanto que n\u00e3o vai perder seu tempo.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 9\/8\/2015 do O POVO A internet e o deserto da \u00e9tica Na semana passada ganhou repercuss\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1517],"class_list":["post-17980","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo-o-povo","tag-menu-politico"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17980"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17980\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}