{"id":18046,"date":"2015-09-12T16:01:54","date_gmt":"2015-09-12T19:01:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18046"},"modified":"2015-09-12T16:01:54","modified_gmt":"2015-09-12T19:01:54","slug":"violencia-contra-as-mulheres-o-que-fica-oculto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/09\/12\/violencia-contra-as-mulheres-o-que-fica-oculto\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra as mulheres: o que fica oculto"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 13\/9\/2015 do O POVO.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia contra as mulheres: o que fica oculto<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5\">Em artigo para O Estado de S. Paulo (5\/9\/2015), o soci\u00f3logo Gabriel Zacarias faz uma provocativa afirma\u00e7\u00e3o a respeito da imagem do menino Aylan Kurdy, fotografado morto na praia de Bodrun, na Turquia. Para Zacarias, a for\u00e7a da imagem que chocou o mundo n\u00e3o est\u00e1 naquilo que ela revela, mas no que oculta.<\/span><\/p>\n<p>\u201cQue se trata de uma crian\u00e7a curda refugiada, que pereceu na tentativa de atravessar a fronteira turca com a Gr\u00e9cia, essa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o contida na imagem (&#8230;) Isso n\u00e3o altera em nada o efeito da imagem, que n\u00e3o depende de seu contexto. Pelo contr\u00e1rio, a for\u00e7a da fotografia est\u00e1, em grande parte, ligada a seu car\u00e1ter gen\u00e9rico, no sentido forte da palavra. (&#8230;) A imagem do garoto ca\u00eddo \u00e0 beira-mar evoca, em primeiro lugar, a dor da perda de uma crian\u00e7a, morte que \u00e9 sempre sentida como a mais injusta. Em consequ\u00eancia, evoca tamb\u00e9m a empatia com a perda de um filho (&#8230;) \u00c9 dif\u00edcil imaginar um pai ou uma m\u00e3e que possam ficar impass\u00edveis diante dessa foto (&#8230;) Portanto, insisto, a fotografia que tomou as capas dos jornais tira a sua for\u00e7a daquilo justamente que ela oculta. Ela oculta o espec\u00edfico. Ela oculta o fato de que aquele garoto \u00e9 curdo. Ela oculta o fato de que Aylan morreu porque era curdo.\u201d<\/p>\n<p>Guardadas as diferen\u00e7as das situa\u00e7\u00f5es, alguma coisa parecida poderia ser dita sobre morte de uma m\u00e3e e sua filha de oito meses, assassinadas pelo marido, pai da menina, em uma casa de praia em Paracuru, Cear\u00e1. \u00c9 claro que o covarde duplo assassinato \u00e9 injustific\u00e1vel sob qualquer aspecto; por mais que se busque algum atenuante, ele n\u00e3o ser\u00e1 encontrado.<!--more--><\/p>\n<p>Por\u00e9m, \u00e9 preciso dizer que o crime ganhou grande repercuss\u00e3o, inclusive na imprensa, por dois motivos: porque atingiu uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, e um dos mortos era uma crian\u00e7a absolutamente indefesa. Portanto, o que est\u00e1 oculto \u00e9: se somente a mulher fosse assassinada, a repulsa da sociedade seria menor; se ela fosse uma mulher pobre, menor ainda.<\/p>\n<p>Zacarias encerra seu texto anotando: \u201cSe a fotografia de Aylan Kurdi \u00e9 t\u00e3o provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale simplesmente da dor gen\u00e9rica da morte, do medo da perda de um filho, sem que isso possa comunicar a devastadora experi\u00eancia da guerra\u201d.<\/p>\n<p>Quanto ao assass\u00ednio de Adriana Moura de Pessoa Carvalho Moraes, e de sua filha Jade, poder-se-ia parafrasear Zacarias afirmando que a trag\u00e9dia nos fala da dor gen\u00e9rica da morte, do medo da perda de um filho, sem que isso possa comunicar por completo a devastadora experi\u00eancia das mulheres submetidas \u00e0 viol\u00eancia de maridos e companheiros.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vejamos. At\u00e9 julho deste ano, 153 mulheres foram assassinadas no Cear\u00e1; no mesmo per\u00edodo, no ano passado, foram 170: mortas a facadas, a tiros; por espancamento, queimaduras e apedrejamento. A maioria delas morreu pelas m\u00e3os de namorados, companheiros e maridos, resultantes de uma (de)forma\u00e7\u00e3o cultural, que leva os homens a se considerem donos das mulheres, que devem se submeter \u00e0s vontades do \u201cmacho\u201d.<\/p>\n<p>Houvesse mais compaix\u00e3o com essa \u201cdevastadora experi\u00eancia\u201d das mulheres, certamente esses casos &#8211; rapidamente esquecidos -, teriam obtido mais resson\u00e2ncia na sociedade e provocado a\u00e7\u00e3o mais rigorosa das autoridades para punir os assassinos.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m do alto \u00edndice de mortes &#8211; o Cear\u00e1 \u00e9 o terceiro estado nordestino com o maior n\u00famero absoluto de mulheres assassinadas &#8211; at\u00e9 junho deste ano foram registradas 2.361 casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica no Estado.<\/p>\n<p><strong>Hipocrisia<\/strong><br \/>\nA viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 hist\u00f3rica no Brasil. No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o escritor e cronista dos costumes do Rio de Janeiro, Lima Barreto, revoltava-se com a hipocrisia da sociedade, a qual lhe parecia haver estabelecido \u201ccomo direito e mesmo dever (do marido)\u201d assassinar a mulher suspeita de adult\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Amor<\/strong><br \/>\nEm outra cr\u00f4nica (1915) Lima Barreto apelava: \u201cDeixem as mulheres amar \u00e0 vontade. Nas as matem, pelo amor de Deus!\u201d<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9ditos<\/strong><br \/>\nArtigo de Gabriel Zacarias &#8211; <a href=\"http:\/\/alias.estadao.com.br\/noticias\/geral,o-que-nao-vimos,1756884\" target=\"_blank\"><strong>O que n\u00e3o vimos<\/strong><\/a>. Os textos de Lima Barreto, no livro <em>Cr\u00f4nicas escolhidas<\/em>, editora \u00c1tica (1995).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 13\/9\/2015 do O POVO. 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