{"id":18184,"date":"2015-11-07T16:01:28","date_gmt":"2015-11-07T19:01:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18184"},"modified":"2015-11-07T16:01:28","modified_gmt":"2015-11-07T19:01:28","slug":"assustadoramente-normais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2015\/11\/07\/assustadoramente-normais\/","title":{"rendered":"Assustadoramente normais"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 8\/11\/2015, do O POVO.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/11\/Carlus.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-18200\" alt=\"Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/11\/Carlus.jpg\" width=\"301\" height=\"444\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/11\/Carlus.jpg 301w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/11\/Carlus-300x443.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2015\/11\/Carlus-120x177.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a>Assustadoramente normais<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>J\u00e1 foi mais, por\u00e9m ainda \u00e9 comum o notici\u00e1rio \u201cpolicial\u201d classificar de \u201cmonstro\u201d aquele que comete crimes terr\u00edveis. Quem nunca leu que \u201cpai monstro\u201d ou \u201cm\u00e3e monstro\u201d fez tal ou qual coisa? Os homens que participaram de um estupro coletivo no Piau\u00ed, em maio, tamb\u00e9m foram classificados de \u201cmonstros\u201d. \u00c9 um mecanismo de defesa usado pelas pessoas para dizerem a si mesmas que seriam incapazes de praticar a\u00e7\u00e3o parecida. Ele \u00e9 um monstro, eu sou humano, logo estou livre de cometer o mesmo desatino.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a coisa n\u00e3o \u00e9 bem assim. Recentemente, em experimento coordenado por um psic\u00f3logo, uma atriz fingiu-se de b\u00eabada em uma rua no centro de Madri (Espanha). N\u00e3o demorou para que come\u00e7asse a sofrer ass\u00e9dio por grupos de homens, em plena luz do dia, com um monte de gente passando na cal\u00e7ada. Um dos homens, levou-a para uma rua menos movimentada e tentou beij\u00e1-la. Foi necess\u00e1ria a interven\u00e7\u00e3o dos produtores para evitar que a viol\u00eancia continuasse. Algu\u00e9m duvida que &#8211; caso houvesse mais dois ou tr\u00eas \u201chomens comuns\u201d, \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, \u201cpais de fam\u00edlia\u201d -, eles teriam tentado subjug\u00e1-la? Quem comete linchamentos, se n\u00e3o as pessoas \u201cnormais\u201d?<\/p>\n<p>A mesma classifica\u00e7\u00e3o de \u201cmonstros\u201d ganham os grandes criminosos da humanidade, como Hitler ou St\u00e1lin, por exemplo. Ou grupos, como o chamado Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>O portal da BBC publicou entrevista com o padre cat\u00f3lico s\u00edrio, Jack Murad, da cidade de al-Qaryatain, dominada pelo EI. Ele foi sequestrado, passou tr\u00eas meses em cativeiro, foi amea\u00e7ada constantemente de morte &#8211; por ser \u201cinfiel\u201d \u00e0 vista do isl\u00e3 &#8211; por\u00e9m n\u00e3o foi torturado. O religioso disse que os captores tinham muita curiosidade sobre o cristianismo, mas ele evitava responder-lhes perguntas.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia que o ocidente t\u00eam \u00e9 pensar que os extremistas do Estado Isl\u00e2mico s\u00e3o \u201cmonstros\u201d, \u201cignorantes\u201d, \u201cselvagens\u201d, mas vejam o que diz o padre, que falou com v\u00e1rios cl\u00e9rigos e foi levado \u00e0 presen\u00e7a do l\u00edder do Estado Isl\u00e2mico:<!--more--><\/p>\n<p>\u201cEles sabem tudo, cada detalhe. N\u00f3s tendemos a pensar que eles s\u00e3o bedu\u00ednos incultos. Mas, na verdade, \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. Eles s\u00e3o inteligentes, educados, t\u00eam gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e s\u00e3o meticulosos no planejamento\u201d.<\/p>\n<p>E esse \u00e9, precisamente, o maior perigo. Observem o que escreveu a fil\u00f3sofa Hanna Arendt a respeito de Adolf Eichmann, criminoso nazista, julgado em Israel (1961):<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) \u00c9 claro que teria sido muito reconfortante acreditar que Eichmann era um monstro (&#8230;). O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos n\u00e3o eram nem pervertidos nem s\u00e1dicos, mas eram e ainda s\u00e3o assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas institui\u00e7\u00f5es e de nossos padr\u00f5es morais de seu julgamento, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Esse sujeito \u201cassustadoramente normal\u201d foi o respons\u00e1vel pela log\u00edstica da \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d, o transporte de milh\u00f5es judeus para os campos de concentra\u00e7\u00e3o, onde seriam exterminados.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, s\u00e3o \u201cassustadoramente normais\u201d os nazistas como tamb\u00e9m os extremistas do EI. Como tamb\u00e9m podem ser \u201cassustadoramente normais\u201d aqueles que praticam os mais terr\u00edveis crimes da cr\u00f4nica policial. Ainda que se insista em cham\u00e1-los de \u201cmonstros\u201d, eles s\u00e3o humanos.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fuga<\/strong><br \/>\nDepois de tr\u00eas meses em cativeiro, o padre Jack Murad foi devolvido \u00e0 pequena comunidade crist\u00e3 de al-Qaryatain, na qual poderia viver sob as condi\u00e7\u00f5es estabelecidas pelos l\u00edderes do Estado Isl\u00e2mico. Temendo pela seguran\u00e7a, ele fugiu da cidade.<\/p>\n<p><strong>Hanna Arendt<\/strong><br \/>\nO trecho citado acima, de autoria de Hanna Arendt, est\u00e1 no livro <em>Eichmann em Jerusal\u00e9m &#8211; Um relato sobre a banalidade do mal<\/em>. Arendt acompanhou o julgamento do criminoso nazista em Israel. Em lugar do \u201cmonstro\u201d que todos queriam ver, ela descobriu que Eichmann era perturbadoramente normal, um burocrata obediente do Terceiro Reich.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9dito<\/strong><br \/>\nPortal da BBC Brasil: <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/11\/151030_padre_sequestro_ei\" target=\"_blank\">O padre cat\u00f3lico que escapou do \u201cEstado Isl\u00e2mico\u201d<\/a>; <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/10\/151029_espanha_mulher_bebada_fd\" target=\"_blank\">Atriz se finge de embriagada e sofre ass\u00e9dio ostensivo em plena luz do dia<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 8\/11\/2015, do O POVO. 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