{"id":18471,"date":"2016-02-14T23:17:27","date_gmt":"2016-02-15T02:17:27","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18471"},"modified":"2016-02-14T23:17:27","modified_gmt":"2016-02-15T02:17:27","slug":"o-hungaro-e-o-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2016\/02\/14\/o-hungaro-e-o-portugues\/","title":{"rendered":"O h\u00fangaro e o portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221; publicada no caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/2\/2016 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-18472\" alt=\"Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus1.jpg\" width=\"339\" height=\"574\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus1.jpg 339w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus1-300x508.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus1-120x203.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/a>O h\u00fangaro e o portugu\u00eas<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Na semana passada, no artigo \u201cO americano e o portugu\u00eas\u201d comentei um cap\u00edtulo do livro <em>Deve ser brincadeira, sr. Feynman<\/em>, de Richard P. Feynman (1918-1988), cientista Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica (1965), em que ele conta como aprendeu o portugu\u00eas e sua passagem pelo Brasil, quando deu aulas no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre interessante observar os motivos que levam uma pessoa a aproxima-se de uma l\u00edngua e como o aprendizado revela tanto sobre quem aprende quanto sobre o povo do idioma aprendido.<\/p>\n<p>Feynman, por exemplo, que aprendia espanhol nos Estados Unidos &#8211; pois queria visitar a Am\u00e9rica Latina -, viu uma bela mulher entrar na sala de portugu\u00eas e resolveu trocar de l\u00edngua. Por\u00e9m, recuou devido \u00e0 sua \u201catitude anglo-sax\u00f4nica\u201d, pois aquele n\u00e3o seria um bom motivo para escolher um idioma para estudar. Voltou ao portugu\u00eas, agora por bom motivo (do ponto de vista anglo-sax\u00e3o), quando lhe ofereceram a oportunidade de trabalhar no Brasil por alguns meses.<!--more--><\/p>\n<p>Outra hist\u00f3ria muito interessante \u00e9 a de Paulo R\u00f3nai (1907\/1992), h\u00fangaro de nascimento, que se transformou em um dos maiores intelectuais do pa\u00eds, apaixonado pelo Brasil. No livro <em>Como aprendi o portugu\u00eas e outras aventuras<\/em>, ele conta como se interessou pela l\u00edngua em sua Budapeste natal, sem saber que um dia seria obrigado a fugir de seu pa\u00eds, perseguido pelo nazismo (ele era judeu), e como o destino o traria ao Brasil.<\/p>\n<p>R\u00f3nai diz que no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1940 ensinava latim e italiano em um gin\u00e1sio de Budapeste. O seu grupo intelectual estudava \u201cidiomas ex\u00f3ticos\u201d ou extintos &#8211; e diz ter ficado com vergonha de informar a eles que estava se interessando pelo portugu\u00eas \u201cf\u00e1cil demais\u201d, na vis\u00e3o dos amigos.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou pelo portugu\u00eas de Portugal, at\u00e9 cair-lhe nas m\u00e3os um livro de poesia brasileira. Depois de escrever uma carta para o jornal carioca Correio da Manh\u00e3, que foi publicada, ele diz ter passado a receber \u201ccopiosa correspond\u00eancia\u201d do Brasil, ajudado-o no aprendizado.<\/p>\n<p>Com o in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, o governo h\u00fangaro, pr\u00f3-nazista, prende R\u00f3nai em um campo de trabalhos for\u00e7ados. Ele consegue fugir para Portugal, tendo como objetivo chegar ao Brasil.<\/p>\n<p>Mas o estudo da l\u00edngua de Cam\u00f5es de nada lhe serve para conversar com os portugueses, ainda que lhe possibilitasse ler perfeitamente os jornais. \u201cPassei seis semanas em Lisboa sem que conseguisse entender patavina da l\u00edngua falada.\u201d<\/p>\n<p>Mas veja como ele relata a sua chegada ao porto do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cCheguei uns vinte dias depois. Que al\u00edvio logo na entrada! O Brasil recebia-me com uma linguagem clara, sem mist\u00e9rios. Ainda n\u00e3o desembarcara, e j\u00e1 n\u00e3o perdia nenhuma das palavras do carregador que, em compensa\u00e7\u00e3o, perdeu uma de minhas malas. Entendi igualmente o funcion\u00e1rio da alf\u00e2ndega; e de t\u00e3o satisfeito, n\u00e3o lhe rebati a surpreendente afirma\u00e7\u00e3o de que o portugu\u00eas e o h\u00fangaro eram l\u00ednguas irm\u00e3s. O deslumbramento continuou na rua, no primeiro t\u00e1xi, no hotel. O idioma que eu aprendera em Budapeste era mesmo o portugu\u00eas!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o parece um minirretrato do Brasil? Carregadores que puxam conversa, o sumi\u00e7o(?) da mala, funcion\u00e1rios que deveriam apenas verificar passaportes, mas puxam conversas aleat\u00f3rias com passageiros. E o deslumbramento do estrangeiro &#8211; aparentemente com a l\u00edngua &#8211; mas deve ter-lhe atingido em cheio tamb\u00e9m a explos\u00e3o de cores e a beleza estonteando da cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ep\u00edgrafe<\/strong><br \/>\n\u201cConsiderar a forma como aprendemos uma l\u00edngua \u00e9 um pouco como observar o desenvolvimento de um sentimento amoroso.\u201d Paulo R\u00f3nai usa essa frase do escritor franc\u00eas Valery Larbaud como ep\u00edgrafe da cr\u00f4nica\/conto \u201cComo aprendi o portugu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p><strong>L\u00edngua do diabo<\/strong><br \/>\nSegundo li em <em>Budapeste<\/em>, livro de Chico Buarque, h\u00fangaro \u00e9 a \u00fanica l\u00edngua que o diabo respeita. (Creio que ele deve ter recolhido a frase de alguma outra fonte.)<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9ditos<\/strong><br \/>\nNeste texto usei trechos de <a href=\"http:\/\/plinioce.blogspot.com.br\/2009\/04\/como-aprendi-o-portugues_26.html\" target=\"_blank\"><strong>um post<\/strong><\/a>, sobre o mesmo assunto, que escrevi para um antigo blog que mantinha na plataforma Blogspot.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221; publicada no caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/2\/2016 do O POVO. 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