{"id":18482,"date":"2016-02-20T16:01:12","date_gmt":"2016-02-20T19:01:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18482"},"modified":"2016-02-20T16:01:12","modified_gmt":"2016-02-20T19:01:12","slug":"soldados-de-salamina-o-segredo-dos-teus-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2016\/02\/20\/soldados-de-salamina-o-segredo-dos-teus-olhos\/","title":{"rendered":"Soldados de Salamina: o segredo dos teus olhos"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 21\/2\/2016 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-18501\" alt=\"Carlus\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus2.jpg\" width=\"305\" height=\"543\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus2.jpg 435w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus2-300x534.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2016\/02\/Carlus2-120x214.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/a>Soldados de Salamina: o segredo dos teus olhos<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, n\u00e3o me lembro mais por que &#8211; talvez assistindo a um filme &#8211; me ocorreu escrever um artigo, pois alguma coisa me lembrara de uma frase repetida por um dos personagens de um livro que lera h\u00e1 dez anos, <em>Soldados de Salamina<\/em>, do espanhol Javier Cercas: \u201cNa \u00faltima hora \u00e9 sempre um pelot\u00e3o de soldados que salva a civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na minha mem\u00f3ria havia ficado como se fora dita por um partid\u00e1rio republicano da Guerra Civil Espanhola (\u00e9 disso que o livro trata) reconhecendo que a brutalidade \u00e9 necess\u00e1ria se for para conter um mal maior.<\/p>\n<p>Claro que o conceito de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d varia, dependendo de quem pronuncia a palavra. Para uns, a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a aristocracia, os \u201cbons costumes\u201d, um governo em que a elite dita as normas para a massa ignara, uma sociedade hierarquizada, na qual &#8220;cada um sabe o seu lugar\u201d, como se fora um destino inamov\u00edvel adredemente tra\u00e7ado pela vontade dos deuses.<\/p>\n<p>Para outros, entre os quais me incluo, civiliza\u00e7\u00e3o representa a busca obsessiva por um mundo mais justo, mais igualit\u00e1rio, fundado na democracia e no respeito aos direitos humanos.<\/p>\n<p>Pois bem, mas ao procurar na minha modesta biblioteca, revirando-a de cima abaixo, n\u00e3o encontrei o livro. Depois me esqueci do que iria escrever.<!--more--><\/p>\n<p>(Sumir livros na minha biblioteca n\u00e3o \u00e9 incomum. Por vezes, eles se escondem uns por baixo dos outros; por outras fazem tro\u00e7a, trocando de lugar; mais raro, desaparecem porque os emprestei: e, de raiva, n\u00e3o voltam. E foi o que aconteceu com <em>Soldados de Salamina<\/em>, o que descobri xeretando as estantes da casa de minha filha. Claro que o peguei de volta, depois de uma justificada descompostura que lhe passei, por n\u00e3o me devolver o livro, aproveitando-se do meu esquecimento.)<\/p>\n<p>Comecei a rel\u00ea-lo e fiquei chateado por ver que a frase era dita, logo nas primeiras p\u00e1ginas, por Jos\u00e9 Antonio Primo de Rivera, um dos primeiros partid\u00e1rios da Falange (o partido fascista espanhol, que leva o pa\u00eds \u00e0 guerra civil, \u00e0 derrubada da Rep\u00fablica e \u00e0 instala\u00e7\u00e3o da ditadura franquista). Portanto, a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d para ele, era o velho mundo aristocr\u00e1tico, que parecia desmoronar.<\/p>\n<p>O livro conta a hist\u00f3ria de Rafael S\u00e1nchez Mazas, fundador da Falange, o primeiro e mais importante te\u00f3rico do fascismo na Espanha. Cercas fica obcecado por um epis\u00f3dio da vida de S\u00e1nchez Mazas: ele escapara de um fuzilamento das tropas republicanas, salvo por um soldado comunista, o pior inimigo dos fascistas.<\/p>\n<p>Quando as tropas republicanas estavam batendo em retirada, desordenadamente, no fim a guerra civil, queimavam pontes para evitar o avan\u00e7o do inimigo e fuzilavam seus prisioneiros. S\u00e1nchez Mazas \u00e9 encaminhado para um fuzilamento coletivo, mas quando come\u00e7am os tiros ele consegue escapar. Cercas narra assim o epis\u00f3dio:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;as balas apenas ro\u00e7aram o seu corpo (de Sanch\u00e9z Mazas), ele aproveitou-se da confus\u00e3o e correu a esconder-se no bosque. De l\u00e1, ouviu vozes dos milicianos tratando de acoss\u00e1-lo. Um deles o descobriu, por fim, e o fitou nos olhos (com o fuzil mirando-lhe a cabe\u00e7a). Em seguida gritou aos seus companheiros: \u2018Por aqui n\u00e3o tem ningu\u00e9m!\u2019 Deu meia-volta e se foi.\u201d<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio S\u00e1nchez Mazas contaria essa hist\u00f3ria muitas vezes, a seus filhos e amigos, dizendo sempre que nunca esqueceria os olhos do miliciano que poupara a sua vida.<\/p>\n<p>O que move a narrativa de Cercas \u00e9 encontrar esse soldado, 60 anos depois do acontecido, para saber o que teria passado na cabe\u00e7a daquele jovem comunista ao decidir poupar a vida de um inimigo &#8211; e n\u00e3o um inimigo qualquer -, em uma das guerras mais sangrentas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pelot\u00e3o<\/strong><br \/>\nAo fim da releitura, de madrugada, uma das passagens o autor do livro anota que talvez Primo de Rivera estivesse correto ao dizer que \u201cna \u00faltima hora\u201d \u00e9 um pelot\u00e3o de soldados que salva a civiliza\u00e7\u00e3o, lembrando que foi exatamente assim que a loucura de Hitler foi contida.<\/p>\n<p><strong>Batalha<\/strong><br \/>\nO t\u00edtulo do livro faz refer\u00eancia \u00e0 Batalha de Salamina (480 a.C.), que op\u00f4s os ex\u00e9rcitos da P\u00e9rsia (atualmente o Ir\u00e3) e da Gr\u00e9cia. Os gregos vencem a guerra, impedindo que os persas ocupassem o continente europeu. Se isso tivesse ocorrido a hist\u00f3ria da Europa seria contada hoje nos termos de uma civiliza\u00e7\u00e3o de maioria mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p><strong>Livro<\/strong><br \/>\nOs fatos hist\u00f3ricos s\u00e3o narrados de forma romanceada no livro &#8211; mas o autor mant\u00e9m o nome real de muitos personagens. Inclusive o dele, Javier Cercas, o jornalista narrador da hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 21\/2\/2016 do O POVO. Soldados de Salamina: o segredo dos teus olhos Pl\u00ednio Bortolotti Dias atr\u00e1s,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1517],"class_list":["post-18482","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo-o-povo","tag-menu-politico"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18482\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}