{"id":18739,"date":"2016-06-25T16:01:25","date_gmt":"2016-06-25T19:01:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18739"},"modified":"2016-06-25T16:01:25","modified_gmt":"2016-06-25T19:01:25","slug":"explicando-tia-eron-ao-modo-academico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2016\/06\/25\/explicando-tia-eron-ao-modo-academico\/","title":{"rendered":"Explicando Tia Eron ao modo acad\u00eamico"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 26\/6\/2016 do O POVO.<\/p>\n<p><strong>Explicando Tia Eron ao modo acad\u00eamico<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>A deputada Tia Eron (PRB-BA) foi um show \u00e0 parte (sem ironia) na vota\u00e7\u00e3o do Conselho de \u00c9tica que aprovou o parecer pela cassa\u00e7\u00e3o do deputado Eduardo Cunha. Ela demonstrou seguran\u00e7a, mandou recados \u00e0 esquerda e \u00e0 direita. E, de quebra, recomendou aos jornalistas que lessem Umberto Eco.<\/p>\n<p>Gosto de seguir conselhos ajuizados e lembrei que a minha modesta biblioteca guardava um exemplar, da d\u00e9cada de 1980, do livro \u201cViagem na irrealidade cotidiana\u201d, do mestre italiano, e resolvi rever alguns ensaios nele contidos.<\/p>\n<p>Talvez Tia Eron se referisse ao que Eco escreveu no ensaio \u201cGuerrilha semiol\u00f3gica\u201d, no qual afirma, em rela\u00e7\u00e3o aos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o em massa: \u201cN\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, se quisessem tomar o poder pol\u00edtico num pa\u00eds, era suficiente controlar o ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia (&#8230;). Hoje, um pa\u00eds pertence a quem controla os meios de comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>(Mas, como se ver\u00e1 abaixo, o pr\u00f3prio Eco tratar\u00e1 de contestar essa premissa.)<!--more--><\/p>\n<p>Lembrei-me, tamb\u00e9m, de outro livro \u201cN\u00f3s, o povo\u201d, em que o autor, Timoth Garton Ash, narra a derrocada dos regimes comunistas na Pol\u00f4nia, Hungria, Alemanha Oriental e na Rep\u00fablica Checa (antiga Checoslov\u00e1quia). Em um trecho, ele reproduz uma negocia\u00e7\u00e3o entre o sindicato Solidariedade e burocratas do regime comunista na Pol\u00f4nia. Os representantes sindicais reivindicam uma televis\u00e3o p\u00fablica, \u201ccomo a BBC\u201d, e n\u00e3o governamental. Um veterano integrante do Partido Comunista responde: \u201cN\u00f3s lhes daremos a Zomo (tropa de choque), antes de dar-lhes a televis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Voltando a Eco, ele diz que, nos tempos atuais (o artigo reproduzido no livro \u00e9 de 1967), n\u00e3o importa o qu\u00ea e como a mensagem \u00e9 transmitida, pois a disputa se d\u00e1 no n\u00edvel receptor, isto \u00e9, no modo de interpretar a informa\u00e7\u00e3o. Para ele, n\u00e3o \u00e9 verdade que o conte\u00fado da mensagem \u201cpode converter\u201d quem a recebe, \u201cuma vez que quem recebe a mensagem parece ter um resto de liberdade: a de l\u00ea-la de modo <em>diferente<\/em>\u201d (grifo do autor).<\/p>\n<p>Assim, para Eco, n\u00e3o \u00e9 se apropriando dos meios de comunica\u00e7\u00e3o que se controlar\u00e1 o conte\u00fado: \u201cA batalha pela sobreviv\u00eancia do homem como ser respons\u00e1vel na Era da Comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vencida l\u00e1, de onde a comunica\u00e7\u00e3o parte, mas aonde ela chega\u201d. Para isso, diz, a estrat\u00e9gia \u00e9 \u201cuma solu\u00e7\u00e3o de guerrilha\u201d. Eco afirma que \u201cuma organiza\u00e7\u00e3o educativa que conseguisse fazer um determinado p\u00fablico discutir a mensagem que est\u00e1 recebendo poderia inverter o significado dessa mensagem\u201d. Ele ressalva que n\u00e3o est\u00e1 propondo uma nova \u201ce mais terr\u00edvel forma\u201d de controle de opini\u00e3o, mas uma a\u00e7\u00e3o para \u201cimpelir o p\u00fablico a controlar a mensagem e suas m\u00faltiplas formas de interpreta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ele d\u00e1 uma exemplo: para um trabalhador de classe m\u00e9dia, a publicidade de uma geladeira \u00e9 um est\u00edmulo ao consumo, mas, para um campon\u00eas desempregado, a mesma imagem significa a \u201cden\u00fancia de um universo de bem-estar que n\u00e3o lhe pertence\u201d; portanto, funciona como \u201cmensagem revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Ocorreu-me outro livro sobre o fim do regime comunista (este n\u00e3o lembro o t\u00edtulo) em um pa\u00eds do Leste Europeu. O autor dizia que o Partido Comunista (como ainda faz a Coreia do Norte) proibia qualquer tipo de filme ou s\u00e9rie americanos, incluindo os mais banais, mas que as pessoas os viam clandestinamente.<\/p>\n<p>Para os americanos e ocidentais, podia ser mera divers\u00e3o; mas, para quem vivia em regimes fechados, o significado era revolucion\u00e1rio, pois descobriam haver outras formas de viver. E os ditadores comunistas &#8211; talvez muito \u00e0 frente de certos \u201cte\u00f3ricos\u201d brasileiros &#8211; sabiam disso.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Internet<\/strong><br \/>\nUmberto Eco escreveu o ensaio quando nem se cogitava a possibilidade da internet. Imaginem o quanto se ampliou a possibilidade de \u201cguerrilha\u201d pela interpreta\u00e7\u00e3o das mensagens com o surgimento da rede mundial de computadores.<\/p>\n<p><strong>Guerrilha<\/strong><br \/>\nO modo de fazer essa \u201cguerrilha\u201d, Eco diz que precisaria ser estudado, mas sugere formas que se parecem com as oportunidades abertas pela internet: \u201cAdotar um m\u00eddia para comunicar uma s\u00e9rie de ju\u00edzos sobre um outro m\u00eddia\u201d.<\/p>\n<p><strong>F\u00e9rias<\/strong><br \/>\nAviso aos eventuais leitores que eles ter\u00e3o f\u00e9rias desta coluna nas pr\u00f3ximas semanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 26\/6\/2016 do O POVO. 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