{"id":18866,"date":"2016-11-19T22:49:12","date_gmt":"2016-11-20T01:49:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18866"},"modified":"2016-11-19T22:49:12","modified_gmt":"2016-11-20T01:49:12","slug":"uso-problematico-de-droga-e-consequencia-da-exclusao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2016\/11\/19\/uso-problematico-de-droga-e-consequencia-da-exclusao-social\/","title":{"rendered":"Uso problem\u00e1tico de droga \u00e9 consequ\u00eancia da exclus\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 20\/11\/2016 do <strong>O POVO.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uso problem\u00e1tico de droga \u00e9 consequ\u00eancia da exclus\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>A Pesquisa Nacional sobre o Crack, encomendada pela Secretaria Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas (Senad) \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), chegou a uma conclus\u00e3o que confronta o senso comum: n\u00e3o \u00e9 o uso da droga que produz a exclus\u00e3o social, mas \u00e9 a exclus\u00e3o que leva ao \u201cconsumo problem\u00e1tico\u201d. Ou seja, \u00e9 um processo anterior &#8211; a hist\u00f3ria de vida da pessoa &#8211; que a leva ao uso descontrolado de drogas. Segundo o estudo, o Brasil tem 370 mil consumidores regulares de crack nas capitais, correspondendo a 0,8% da popula\u00e7\u00e3o adulta. Dos consumidores, cerca de 80% s\u00e3o homens, negros, de baixa escolaridade e renda, com m\u00e9dia de 30 anos de idade.<\/p>\n<p>O coordenador da pesquisa, Jess\u00e9 de Souza, professor titular do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade Federal Fluminense, diz que reconhecer o elo entre exclus\u00e3o social e o uso do crack \u00e9 fundamental para \u201cdesenhar as pol\u00edticas e formar os operadores da linha de frente do cuidado \u00e0s pessoas que t\u00eam problemas com as drogas\u201d. Entre os \u201cmarcadores de exclus\u00e3o social\u201d, destacados pela pesquisa, est\u00e3o a pobreza, a baixa escolaridade e a cor da pele, \u201csugerindo uma trajet\u00f3ria de marginaliza\u00e7\u00e3o que precede o uso de drogas\u201d. Somando-se outros problemas, em consequ\u00eancia do seu uso, como a falta de moradia, desemprego ou trabalho prec\u00e1rio. Portanto, para Jess\u00e9, nenhuma solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 efetiva se n\u00e3o forem levadas em conta essas vari\u00e1veis.<!--more--><\/p>\n<p>Para Leon de Souza Lobo Garcia, diretor de Articula\u00e7\u00e3o e Projetos da Senad, quando, em 2010, o problema dos entorpecentes come\u00e7ou a ser debatido com mais intensidade, resolveu-se dar destaque ao crack. (Para ele, o \u00e1lcool, uma droga l\u00edcita, \u00e9 a que tem maior impacto na sa\u00fade p\u00fablica). O crack, afirma Lobo Garcia, ocupou o \u201ccentro do cen\u00e1rio\u201d, tanto dos discursos pol\u00edticos como da m\u00eddia. Ao uso desse derivado da coca\u00edna, foi atribu\u00edda a \u201cresponsabilidade por crimes violentos e pela suposta degrada\u00e7\u00e3o da juventude brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Se o resultado da pesquisa surpreendeu &#8211; como destacaram alguns meios quando de sua publica\u00e7\u00e3o, apenas confirmou a tese defendida no livro \u201cUm pre\u00e7o muito alto &#8211; A jornada de um neurocientista que desafia nossa vis\u00e3o sobre as drogas\u201d, escrito pelo neurocientista americano, Carl Hart, professor dos departamentos de Psicologia e Psiquiatria na Universidade de Columbia, Estados Unidos. O motivo de ele ter escolhido estudar as drogas ilegais em sua carreira universit\u00e1ria \u00e9 explicado pela sua pr\u00f3pria vida. Negro, de fam\u00edlia pobre e problem\u00e1tica, Hart foi criado nos guetos de Miami: usou drogas, vendeu-as e cometeu v\u00e1rios outros delitos quando era adolescente.<\/p>\n<p>Foi salvo de destino igual de amigos e parentes \u2013 pris\u00e3o ou morte \u2013 quando resolveu dedicar-se aos estudos. A sua pr\u00f3pria experi\u00eancia mostrou \u2013 o que depois foi confirmado por seus estudos \u2013 que o v\u00edcio n\u00e3o pode ser explicado fora do contexto em que \u00e9 consumida a droga, pois s\u00e3o v\u00e1rios os fatos que levam \u00e0 depend\u00eancia, entre eles a pobreza e a exclus\u00e3o social. Atribuir todo \u201ccomportamento conden\u00e1vel\u201d ao uso de drogas \u00e9 um erro que leva ao aumento do preconceito contra negros e pobres, diz ele.<\/p>\n<p>Hart afirma que a \u201cguerra contra as drogas\u201d, na presid\u00eancia de George Bush, foi uma \u201cinvestida contra os negros\u201d. Ele anota que as leis mais duras sobre o crack no per\u00edodo n\u00e3o levaram \u00e0 pris\u00e3o \u201cnem um s\u00f3 branco\u201d em Los Angeles, cidade com cerca de quatro milh\u00f5es de habitantes. Da mesma forma, no Brasil, a pol\u00edtica de repress\u00e3o policial tem endere\u00e7o certo. O estudo da Fiocruz assinala que um consumidor de classe m\u00e9dia talvez nunca experimente um epis\u00f3dio de viol\u00eancia. \u201cDe maneira geral, s\u00e3o os pobres que experimentam a viol\u00eancia ligada ao consumo e tr\u00e1fico de drogas no pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em pelo menos em uma coisa o Brasil se parece com os Estados Unidos: no tratamento que d\u00e1 aos pobres.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>\u00c1lcool<br \/>\nOs pesquisadores consideraram \u201cpreocupante\u201d o n\u00famero de consumidores regulares de crack, equivalente a 0,8% da popula\u00e7\u00e3o adulta. No entanto, calculam que a depend\u00eancia do \u00e1lcool \u00e9 de oito a 15 vezes maior.<\/p>\n<p>Leitura<br \/>\nN\u00e3o faria mal nenhum se governos municipais, estaduais e federal se dedicassem a ler e levar em conta a pesquisa da Fiocruz.<\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos<br \/>\nEm meu blog, dois coment\u00e1rios sobre o livro de Carl Hart: https:\/\/goo.gl\/vYUryj e https:\/\/goo.gl\/9dOip4; Fiocruz: https:\/\/goo.gl\/A1GmUQ (texto) e https:\/\/goo.gl\/CnhDsn (pesquisa).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 20\/11\/2016 do O POVO. 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