{"id":18922,"date":"2017-02-05T23:36:58","date_gmt":"2017-02-06T02:36:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18922"},"modified":"2017-02-05T23:36:58","modified_gmt":"2017-02-06T02:36:58","slug":"sobre-imprensa-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2017\/02\/05\/sobre-imprensa-e-democracia\/","title":{"rendered":"Sobre imprensa e democracia"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 5\/2\/2017 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Sobre imprensa e democracia<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>Com o PT no poder, uma das cr\u00edticas mais contundentes da esquerda era dirigido \u00e0 imprensa, considerada \u201cum partido de oposi\u00e7\u00e3o\u201d. Nos Estados Unidos, Stephen Bannon, um dos principais assessores do presidente Donald Trump tamb\u00e9m comparou a m\u00eddia a um \u201cpartido de oposi\u00e7\u00e3o\u201d e aconselhou a imprensa a \u201ccalar a boca\u201d. Como se observa, a cr\u00edtica que a esquerda e a direita mais extrema fazem \u00e0 m\u00eddia \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>Mas por que a direita e a esquerda se igualam em cr\u00edticas exacerbadas aos meios de comunica\u00e7\u00e3o? Possivelmente porque alguns setores da esquerda t\u00eam o mesmo vi\u00e9s autorit\u00e1rio que a pior direita &#8211; ambos querem um mundo \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 escrevi, mais de uma vez, que os jornais merecem boa parte das cr\u00edticas que lhes fazem, por\u00e9m, existe um limite da cr\u00edtica \u00e0 imprensa. Esse limite \u00e9 o mesmo que vale para as cr\u00edticas \u00e0 democracia, que n\u00e3o pode chegar ao paroxismo de pedir a sua destrui\u00e7\u00e3o ou consider\u00e1-la imprest\u00e1vel. Nos regimes autorit\u00e1rios &#8211; \u00e0 esquerda e \u00e0 direita -, n\u00e3o existe liberdade de imprensa, porque esta s\u00f3 existe na democracia. De outro modo, somente onde existe democracia \u00e9 poss\u00edvel a liberdade de imprensa. S\u00e3o duas coisas indissoci\u00e1veis.<!--more--><\/p>\n<p>Os jornais, mais do que nunca, precisam ser preservados, principalmente nesses tempos de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d, nos quais a cren\u00e7a pessoal vale mais do que os fatos para os partid\u00e1rios de uma ou outra causa. A imprensa \u00e9 um certificador dos fatos e, por pior que seja, n\u00e3o lhe interessa trombar com a realidade, pois transformar os fatos em not\u00edcias verazes est\u00e1 na ess\u00eancia de seu neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m de acad\u00eamicos de esquerda a afirmativa que imprensa publica apenas um \u201crecorte da realidade\u201d e que, portanto, a \u201cverdade\u201d seria inalcan\u00e7\u00e1vel, pois sempre haveria outra vers\u00e3o dos fatos, de acordo com o observador. Concordo se se tratasse de filosofia, pois estar\u00edamos tratando da verdade escatol\u00f3gica. Mas o caso aqui \u00e9 jornalismo, portanto, falamos da verdade factual.<\/p>\n<p>De resto, tudo o que vivemos \u00e9 um \u201crecorte da realidade\u201d: quem consegue tudo absorver de determinado contexto, sem nenhum tipo de filtro (pode chamar de \u201cedi\u00e7\u00e3o\u201d) ser\u00e3o somente Deus (se ele existir), alguns loucos e os savants. Para as pessoas comuns, incluindo jornalistas, s\u00f3 resta a possibilidade de apreender um \u201crecorte da realidade, o que n\u00e3o quer dizer que seja mentira. Em qualquer fato, existe um n\u00facleo duro que o jornalista treinado saber\u00e1 identific\u00e1-lo e reproduzi-lo corretamente em forma de not\u00edcia.<\/p>\n<p>Agora vejam se Donald Trump n\u00e3o estudou em escola parecida. Depois de ter falseado o n\u00famero de espectadores na sua cerim\u00f4nia de posse; de acusar os meios de comunica\u00e7\u00e3o de terem inventado uma pol\u00eamica com a CIA e de repetir que foi contra a guerra do Iraque desde o in\u00edcio &#8211; quando registros mostram que ele se posicionou bem depois do in\u00edcio do conflito &#8211; conselheira da Casa Branca, Kellyanne Conway, disse que o governo podia lan\u00e7ar m\u00e3o de \u201cfatos alternativos\u201d para analisar a realidade. O problema \u00e9 que \u201cfatos alternativos\u201d s\u00e3o sin\u00f4nimo de mentira.<\/p>\n<p>O grande valor da imprensa tradicional, por mais \u201cgovernista\u201d ou \u201cpartido de oposi\u00e7\u00e3o\u201d que seja, \u00e9 que ela n\u00e3o pode tomar esse caminho, no que diz respeito \u00e0 verdade factual. E isso, nos tempos que correm &#8211; apresentar os fatos como eles s\u00e3o -, \u00e9 de valor inestim\u00e1vel, chega a ser revolucion\u00e1rio. E essa fun\u00e7\u00e3o tem de ser preservada, pelo bem da democracia e da liberdade.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fato e opini\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u201cVoc\u00ea tem direito \u00e0s suas pr\u00f3prias opini\u00f5es, mas n\u00e3o tem direito a seus pr\u00f3prios fatos.\u201d Daniel Patrick Moynihan (1927-2003), senador americano.<\/p>\n<p>1984\/1948<br \/>\nDepois da declara\u00e7\u00e3o da conselheira Kellyanne Conway sobre os \u201cfatos alternativos\u201d, o livro \u201c1984\u201d de George Orwell (publicado em 1948) voltou \u00e0 lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. A obra aborda o regime desp\u00f3tico do \u201cGrande Irm\u00e3o\u201d, que controla a popula\u00e7\u00e3o distorcendo a linguagem e alterando constantemente a vers\u00e3o dos fatos.<\/p>\n<p><strong>Orwell<\/strong><br \/>\n\u201cA linguagem pol\u00edtica destina-se a fazer mentiras parecerem verdades.\u201d George Orwell (1903\/1950), escritor e jornalista.<\/p>\n<p><strong>Savants<\/strong><br \/>\nSe quiser saber mais sobre \u201csavants\u201d citados no texto, na revisa Superinteressante: <a href=\"http:\/\/super.abril.com.br\/saude\/os-maiores-cerebros-do-mundo\/\" target=\"_blank\">Os maiores c\u00e9rebros do mundo<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 5\/2\/2017 do O POVO. 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