{"id":18936,"date":"2017-02-25T16:03:00","date_gmt":"2017-02-25T19:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=18936"},"modified":"2017-02-25T16:03:00","modified_gmt":"2017-02-25T19:03:00","slug":"o-turbante-e-os-excessos-do-politicamente-correto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2017\/02\/25\/o-turbante-e-os-excessos-do-politicamente-correto\/","title":{"rendered":"O turbante e os excessos do \u201cpoliticamente correto\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 26\/2\/2017 do O POVO.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/02\/Menu.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-18942\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/02\/Menu-300x495.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"495\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/02\/Menu-300x495.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/02\/Menu-120x198.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/02\/Menu.jpg 338w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O turbante e os excessos do \u201cpoliticamente correto\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Entre os excessos do \u201cpoliticamente correto\u201d, ignorava os que acometiam a chamada \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d. J\u00e1 vi gente pedindo censura de livros de Monteiro Lobato; avocando o \u201clugar da fala\u201d para impedir quem n\u00e3o pertence a determinado grupo a opinar sobre certos assuntos; alguns querendo tirar de circula\u00e7\u00e3o m\u00fasicas \u201cpreconceituosas\u201d ou a banir determinadas palavras do dicion\u00e1rio. Mas, confesso, desconhecia at\u00e9 mesmo o conceito de apropria\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Observem que me refiro aos \u201cexcessos\u201d do politicamente correto. Por \u00f3bvio, reconhe\u00e7o a exist\u00eancia de palavras e comportamentos agressivos e preconceituosos, que t\u00eam de ser combatidos. A mais, defender o direito de circula\u00e7\u00e3o de palavras, m\u00fasicas, livros, filmes e outras obras de arte considerados desrespeitosos por quaisquer grupos n\u00e3o representa concord\u00e2ncia com o seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Pois bem, mas fiquei sabendo o significado de \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d depois que foi noticiada a postagem no Facebook de Thuane Cordeiro, uma jovem curitibana, repreendida por usar um turbante. Nas palavras dela, reproduzidas literalmente:<!--more--><\/p>\n<p>\u201cVou contar o que houve ontem, para entenderem o porqu\u00ea de eu estar brava com esse lance de apropria\u00e7\u00e3o cultural. Eu estava na esta\u00e7\u00e3o com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas ali\u00e1s, que estavam me olhando torto, tipo \u2018olha l\u00e1 a branquinha se apropriando da nossa cultura\u2019. Enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu n\u00e3o deveria usar turbante, porque eu era branca. Tirei o turbante e falei \u2018t\u00e1 vendo essa careca, isso se chama c\u00e2ncer, ent\u00e3o eu uso o que eu quero! Adeus\u2019. Peguei e sa\u00ed e ela ficou com cara de tacho\u201d. (E, s\u00f3 para constar: me parece que o uso do turbante \u00e9 bastante disseminado em dezenas de culturas mundo afora.)<\/p>\n<p>Aprendi que a \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d acontece quando algu\u00e9m da cultura hegem\u00f4nica adota aspectos de um grupo diferente, podendo implicar vis\u00e3o negativa do povo do qual foi obtido o empr\u00e9stimo. Um branco usando dreadlock, por exemplo, pode ser considerado apropria\u00e7\u00e3o cultural, pois \u00e9 um costume pr\u00f3prio da cultura africana ou indiana.<\/p>\n<p>Passei a ler textos explicando por que a \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d seria errada e mesmo uma viol\u00eancia contra grupos minorit\u00e1rios ou que sofreram injusti\u00e7as hist\u00f3ricas. \u00c9 sempre bom conhecer argumentos contr\u00e1rios, ajuda a afiar a mente e a ajustar a opini\u00e3o: nem tudo o que eu penso est\u00e1 certo, nem tudo o que dizem est\u00e1 errado. (A maioria dos artigos li no portal do Geled\u00e9s &#8211; Instituto da Mulher Negra.)<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de elementos de uma cultura por outra sempre ocorreu no decorrer da hist\u00f3ria humana. Um dos artigos que li, a prop\u00f3sito, afirma haver uma \u201clinha t\u00eanue\u201d entre apropria\u00e7\u00e3o e interc\u00e2mbio cultural. Pois \u00e9, quem seria o juiz para definir o que \u00e9 uma coisa ou outra? Ter\u00edamos de parar de comer feijoada para n\u00e3o ofender a cultura afrodescendente; cartomantes seriam proibidas de trabalhar para n\u00e3o se \u201capropriar\u201d da cultura cigana ou qualquer outra que tenha iniciado esse m\u00e9todo de \u201cadivinha\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>Um dos argumentos que me pareceram fortes \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o que a ind\u00fastria do entretenimento faz da cultura negra &#8211; casos do samba ou do rap, por exemplo -, ritmos que deixaram de ser marginalizados e \u201cperigosos\u201d quando come\u00e7aram a dar lucro. Est\u00e1 bastante documentado que o rock nasceu da m\u00fasica negra, mas as gravadoras escolheram um branco, Elvis Presley, para lev\u00e1-lo \u00e0s paradas de sucesso.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, uma coisa \u00e9 confrontar o \u201csistema\u201d; outra, diferente e inaceit\u00e1vel, \u00e9 implicar com uma jovem que usa um turbante, um moleque que p\u00f5e uma pena na cabe\u00e7a, uma mulher que usa um brinco \u201c\u00e9tnico\u201d ou um rapaz que imprime no bra\u00e7o uma tatuagem \u201ctribal\u201d. Assim, \u00e0 censura das palavras, une-se a interdi\u00e7\u00e3o das escolhas e do corpo do outro. \u00c9 um convite \u00e0 intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Palavras<\/strong><br \/>\nSe a coisa for levada a ferro e fogo, quantas palavras \u201capropriadas\u201d de v\u00e1rias culturas, inclusive da africana, ter\u00edamos de riscar do dicion\u00e1rio?<\/p>\n<p><strong>M\u00fasicas<\/strong><br \/>\nAs marchinhas de Carnaval tamb\u00e9m entraram no samba do politicamente correto. Algumas bandas anunciaram que deixar\u00e3o de tocar, por exemplo, \u201cMaria Sapat\u00e3o\u201d, \u201cCabeleira do Zez\u00e9\u201d. (Mas at\u00e9 a\u00ed tudo bem, cada um toca e canta o que quer. Espera-se que o tro\u00e7o n\u00e3o evolua para pedido de censura.)<\/p>\n<p><strong>Mulata<\/strong><br \/>\nPelo menos uma das bandas cariocas est\u00e1 discutindo se toca \u201cTropic\u00e1lia\u201d, de Caetano Veloso, j\u00e1 que a palavra \u201cmulata\u201d entrou no \u00edndex proibit\u00f3rio. Chico Buarque tamb\u00e9m usou o termo \u201cmulata\u201d em pelo menos uma m\u00fasica, \u201cNot\u00edcia de jornal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9ditos<\/strong><br \/>\nGeled\u00e9s: <a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/tag\/apropriacao-cultural\/#gs.null\" target=\"_blank\">v\u00e1rios artigos sobre apropria\u00e7\u00e3o cultural <\/a>; revista F\u00f3rum: <a href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/2017\/02\/12\/polemica-envolvendo-uso-de-turbante-por-garota-com-cancer-divide-opinioes-na-internet\/\" target=\"_blank\">Pol\u00eamica divide opini\u00f5es<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 26\/2\/2017 do O POVO. 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