{"id":19135,"date":"2017-10-07T16:01:50","date_gmt":"2017-10-07T19:01:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19135"},"modified":"2017-10-07T16:01:50","modified_gmt":"2017-10-07T19:01:50","slug":"em-busca-da-palavra-mais-bela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2017\/10\/07\/em-busca-da-palavra-mais-bela\/","title":{"rendered":"Em busca da palavra mais bela"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 8\/10\/2017 do <strong>O POVO<\/strong>\/\/<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/10\/Menu.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-19142\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/10\/Menu-300x752.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"752\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/10\/Menu-300x752.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/10\/Menu-120x301.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2017\/10\/Menu.jpg 332w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em busca da palavra mais bela<\/strong><\/p>\n<p>Na sua cr\u00f4nica \u201cRisco de eleger uma \u2018palavra preferida\u2019 \u00e9 deixar as outras enciumadas\u201d, o escritor S\u00e9rgio Rodrigues conta que frustrou um jornalista estrangeiro que o entrevistava sobre seu livro \u201cViva a l\u00edngua brasileira\u201d. Perguntou-lhe o rep\u00f3rter qual a palavra de que mais gostava na l\u00edngua portuguesa; S\u00e9rgio preferiu n\u00e3o responder. \u201cN\u00e3o tenho nada parecido com uma palavra preferida, na l\u00edngua portuguesa ou em qualquer outra\u201d.<\/p>\n<p>Percebendo a decep\u00e7\u00e3o do jornalista alien\u00edgena, S\u00e9rgio disse ter pensado em procurar uma \u201cresposta espirituosa\u201d para \u201cimprovisar\u201d em uma pr\u00f3xima entrevista. \u201cN\u00e3o adianta. A ideia de eleger uma menina dos olhos entre milhares e milhares de palavras me provoca uma leve n\u00e1usea.\u201d<\/p>\n<p>Imediatamente lembrei-me da cr\u00f4nica \u201cAs dez mais bonitas\u201d, de Paulo R\u00f3nai. Ele conta que, em 1952, a revista francesa <em>Vie et Language<\/em> organizou um concurso entre os leitores para escolher as dez palavras mais bonitas do idioma franc\u00eas. Foi um projeto longo e meticuloso, tendo demorado um ano para sair o resultado.<\/p>\n<p>A revista convidou escritores, artistas e professores para indicar, cada um deles, as dez palavras que consideravam mais bonitas. A partir das respostas, foram compilados 300 voc\u00e1bulos, depois impressos em c\u00e9dulas, nas quais 1.400 leitores votaram. Estas s\u00e3o as dez palavras escolhidas em ordem decrescente: <em>cristal, marjolaine, amour, mamam, aurore, murmure, libellule, azur, \u00e9meraude, gazelle<\/em>.<!--more--><\/p>\n<p>R\u00f3nai observa que os votantes em geral n\u00e3o dissociaram a forma e o sentido da palavra, escolhendo os que correspondiam a \u201cno\u00e7\u00f5es afetivas\u201d (<em>mamam, amour<\/em>), pitorescas (<em>azur, \u00e9meraude, aurore, cristal<\/em>), um nome de planta (<em>marjolaine<\/em>), dois de bichos graciosos (<em>libellule, gazelle<\/em>) e <em>murmure<\/em> (que designa ru\u00eddo agrad\u00e1vel).<\/p>\n<p>Em nenhum dos casos, observa R\u00f3nai, \u201co elemento sonoro prevaleceu sobre o sentido: n\u00e3o h\u00e1 entre as dez palavras, nenhuma que designe coisa feia, esquisita, grotesca ou triste. Em suma, para a maioria das pessoas bela \u00e9 a palavra que, al\u00e9m de sonora, evoca ideias agrad\u00e1veis\u201d. O escritor ainda observa que os votantes \u201cn\u00e3o escolheram nenhuma palavra excessivamente rara ou de sentido indeterminado\u201d.<\/p>\n<p>Ele registra que, das dez palavras selecionadas pelo poeta Paul Val\u00e9ry, nenhuma delas entrou na lista dos leitores. \u201cAlguns dos profissionais mais interessados nesta esp\u00e9cie de inqu\u00e9rito, os poetas, talvez tirem a conclus\u00e3o de que para comover os leitores n\u00e3o \u00e9 preciso vasculhar o dicion\u00e1rio \u00e0 busca de palavras que s\u00f3 existem no papel\u201d, cutucou R\u00f3nai.<\/p>\n<p>Ao fim da cr\u00f4nica, escrita em 1953, ele pergunta: \u201cQuais seriam as dez palavras mais bonitas do portugu\u00eas do Brasil?\u201d<\/p>\n<p>Em 1992, Otto Lara Resende come\u00e7a assim a sua cr\u00f4nica \u201cBelo nome de s\u00e1bio\u201d: \u201cUm grupo de colegiais me pergunta qual \u00e9 a palavra mais bonita da l\u00edngua portuguesa\u201d. Em seguida, ele narra a hist\u00f3ria da revista <em>Vie et Language<\/em> dizendo que, no seu texto, n\u00e3o fez mais do que repetir \u201co que havia lido no Paulo R\u00f3nai\u201d.<\/p>\n<p>Lara Resende lembra que a busca pelas palavras mais bonitas \u00e9 uma \u201cvelha e corriqueira curiosidade, que vai e volta. Em todos os pa\u00edses e em todas as \u00e9pocas esta pergunta se repete\u201d.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, pergunto eu: quais seriam as dez palavras mais bonitas do linguajar nordestino? Ser\u00e1 que escolher\u00edamos somente pela sonoridade ou tamb\u00e9m n\u00e3o conseguir\u00edamos separ\u00e1-las de seu significado?<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>R\u00d3NAI<\/strong><br \/>\nPaulo R\u00f3nai (1907-1992), segundo Otto Lara Resende (na cr\u00f4nica citada no texto): \u201cHumanista, poliglota, h\u00fangaro de nascimento. Nenhuma d\u00favida de que \u00e9 um dos dez melhores nomes da cultura brasileira. E dos mais bonitos. Poeta e mission\u00e1rio. Um s\u00e1bio\u201d.<\/p>\n<p><strong>OTTO<\/strong><br \/>\nOtto Lara Resende (1922-1992) foi escritor e jornalista, tendo publicado o romance \u201cO bra\u00e7o direito\u201d e v\u00e1rios livros de contos.<\/p>\n<p><strong>CR\u00c9DITO<\/strong><br \/>\nPaulo R\u00f3nai: \u201cComo aprendi o portugu\u00eas e outras aventuras\u201d (editora Globo); Otto Lara Resende: \u201cBom dia para nascer\u201d (Companhia das Letras); S\u00e9rgio Rodrigues: <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/sergio-rodrigues\/2017\/09\/1920396-risco-de-eleger-uma-palavra-preferida-e-deixar-as-outras-enciumadas.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Risco de eleger uma &#8220;palavra preferida&#8221; \u00e9 deixar as outras enciumadas<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 8\/10\/2017 do O POVO\/\/ Em busca da palavra mais bela Na sua cr\u00f4nica \u201cRisco de eleger&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1517],"class_list":["post-19135","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo-o-povo","tag-menu-politico"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19135\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}