{"id":1918,"date":"2009-08-16T05:59:51","date_gmt":"2009-08-16T10:59:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=1918"},"modified":"2009-08-16T05:59:51","modified_gmt":"2009-08-16T10:59:51","slug":"a-midia-e-o-triunfo-da-cultura-idiota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/08\/16\/a-midia-e-o-triunfo-da-cultura-idiota\/","title":{"rendered":"A m\u00eddia e o triunfo da cultura idiota"},"content":{"rendered":"<p>Marcelo Soares, comentarista pol\u00edtico da MTV, e que mant\u00e9m o interessante blog <a href=\"http:\/\/mtv.uol.com.br\/evocecomisso\/blog\" target=\"_blank\"><strong>E voc\u00ea com isso?<\/strong><\/a>, deixou coment\u00e1rio, que reproduzo abaixo, na postagem &#8220;A paran\u00f3ia sobre a m\u00eddia&#8221;.<\/p>\n<p>Ele\u00a0 indica o artigo &#8220;A m\u00eddia e o triunfo da cultura idiota&#8221;, do jornalista americano Carl Bernstein (parceiro de Bob Woodward na investiga\u00e7\u00e3o do esc\u00e2ndalo de Watergate). O texto, orginalmente publicado no The Guardian (Londres), em 1992, foi traduzido por Marcelo e divulgado no Observat\u00f3rio da Imprensa.<\/p>\n<p>Escreveu Marcelo a respeito da minha postagem &#8220;A paran\u00f3ia sobre a m\u00eddia&#8221;:<\/p>\n<p>&#8220;O que eu acho mais engra\u00e7ado, ao ver que a paran\u00f3ia antim\u00eddia foi encampada pela esquerda, \u00e9 lembrar que os patronos da t\u00e9cnica s\u00e3o ningu\u00e9m menos do que Richard Nixon e Ronald Reagan. Recomendo vivamente a leitura de &#8220;A m\u00eddia e o triunfo da cultura idiota&#8221;, artigo de Carl Bernstein traduzido por mim, que conta a g\u00eanese disso.&#8221;<\/p>\n<p>O artigo a que se refere Marcelo est\u00e1 na sequ\u00eancia.<!--more--><br \/>\n<strong>A m\u00eddia e o triunfo da cultura idiota<\/strong><br \/>\nCarl Bernstein<\/p>\n<p>Publicado em 3\/6\/92 no The Guardian, Londres; tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Soares (reproduzido do Observat\u00f3rio da Imprensa)<\/p>\n<p>J\u00e1 se passou quase uma gera\u00e7\u00e3o desde o drama iniciado com a invas\u00e3o em Watergate e terminado com a ren\u00fancia de Richard Nixon, vinte anos inteiros em que a imprensa americana engajou-se em um estranho frenesi de autocongratula\u00e7\u00e3o e estado de defensiva sobre sua performance naquele caso e depois.<\/p>\n<p>A autocongratula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se justifica; o estado de defensiva, esse sim. Porque cada vez mais a Am\u00e9rica retratada hoje na m\u00eddia americana \u00e9 ilus\u00f3ria e decepcionante &#8211; desfigurada, irreal, desconectada do verdadeiro contexto de nossas vidas. Ao cobrir a verdadeira vida americana, a m\u00eddia &#8211; a cada semana, dia, hora &#8211; quebra novos recordes de entender tudo errado. A cobertura \u00e9 distorcida pelas celebridades e pela adora\u00e7\u00e3o das celebridades; pela redu\u00e7\u00e3o do notici\u00e1rio \u00e0 fofoca; pelo sensacionalismo, que sempre \u00e9 um afastamento da condi\u00e7\u00e3o real da sociedade; e p\u00f5e um discurso pol\u00edtico e social de que n\u00f3s &#8211; a imprensa, a m\u00eddia, os pol\u00edticos e o povo &#8211; estamos virando uma cloaca.<\/p>\n<p>Vamos voltar a Watergate. H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o l\u00e1, particularmente sobre a imprensa. H\u00e1 20 anos, em junho de 1972, Bob Woodward e eu come\u00e7amos a cobrir o caso Watergate para o Washington Post. Na \u00e9poca da invas\u00e3o, havia cerca de 2 mil rep\u00f3rteres trabalhando em tempo integral em Washington. Nos primeiros meses ap\u00f3s o caso, as organiza\u00e7\u00f5es noticiosas da Am\u00e9rica destacaram apenas 14 daqueles 2 mil homens e mulheres para cobrir o caso Watergate em tempo integral. E, desses 14, apenas 6 estavam destacados para cobrir a mat\u00e9ria de uma forma que se pode chamar de &#8220;investigativa&#8221;, ou seja, ir al\u00e9m do registro das mais \u00f3bvias declara\u00e7\u00f5es do dia e procedimentos da corte, e tentar descobrir exatamente o que havia ocorrido.<\/p>\n<p>Apesar de uma certa mitologia que surgiu em torno do &#8220;jornalismo investigativo&#8221;, \u00e9 importante lembrar do que fizemos e do que n\u00e3o fizemos em Watergate. Porque o que fizemos n\u00e3o era, na verdade, ex\u00f3tico. Nosso trabalho ao revelar a hist\u00f3ria estava enraizado no tipo mais b\u00e1sico de reportagem policial emp\u00edrica. Confiamos mais no trabalho de sola de sapato e no bom senso e no respeito \u00e0 verdade do que em qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>Woodward e eu \u00e9ramos dois caras da editoria Metro (cidades) destacados para cobrir o que, na base, ainda era um roubo. Ent\u00e3o, aplicamos as \u00fanicas t\u00e9cnicas de reportagem que conhec\u00edamos. Batemos em algumas portas, fizemos um monte de perguntas, passamos um temp\u00e3o ouvindo: a mesma coisa que bons rep\u00f3rteres fazem h\u00e1 anos. Como rep\u00f3rteres locais, n\u00e3o t\u00ednhamos fontes altamente colocadas, nem verba para almo\u00e7ar com os poderosos em restaurantes chiques. Fizemos nosso trabalho longe do mundo encantador dos ricos, famosos e poderosos.<\/p>\n<p>Assim fizemos nosso caminho, entrevistando assessores, secret\u00e1rias, assistentes administrativos. N\u00f3s os encontramos fora de seus escrit\u00f3rios e em casa, \u00e0 noite e nos finais de semana. Os promotores e o FBI entrevistaram as mesmas pessoas que n\u00f3s, mas sempre nos escrit\u00f3rios, sempre na presen\u00e7a de advogados da administra\u00e7\u00e3o, nunca \u00e0 noite, nunca em casa, nunca longe do trabalho, da intimida\u00e7\u00e3o, das press\u00f5es. N\u00e3o surpreendentemente, o FBI e o Departamento de Justi\u00e7a chegaram a conclus\u00f5es opostas \u00e0s nossas, ao decidir n\u00e3o triangular pe\u00e7as-chave de informa\u00e7\u00e3o, porque eles partiam do que o ent\u00e3o diretor interino do FBI chamava de &#8220;presun\u00e7\u00e3o de regularidade&#8221; a respeito dos homens que cercavam o presidente dos EUA.<\/p>\n<p>Mesmo nossos colegas da imprensa n\u00e3o levavam a s\u00e9rio nossas reportagens, at\u00e9 que nossa metodologia levou a informa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias: um conto de espionagem e sabotagem pol\u00edtica, sistem\u00e1tica e ilegal, dirigida a partir da Casa Branca, al\u00e9m de verbas secretas, grampo telef\u00f4nico, uma equipe de &#8220;encanadores&#8221; &#8211; ladr\u00f5es &#8211; trabalhando para o presidente. E da\u00ed a farsa toda, uma obstru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a que se estendia at\u00e9 o pr\u00f3prio presidente.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar da resposta do governo Nixon em Watergate. Eles preferiram questionar a conduta da imprensa, ao inv\u00e9s da conduta do presidente e de seus homens. Dia ap\u00f3s dia, a Casa Branca de Nixon liberava o que viemos a chamar de &#8220;n\u00e3o-nega\u00e7\u00e3o&#8221;; pedia para comentar o que escrevemos. O secret\u00e1rio de imprensa Ron Ziegler, o l\u00edder da minoria na C\u00e2mara Jerry Ford ou o l\u00edder republicano no Senado Bob Dole nos acusavam de abastecedores do diz-que-diz, de assassinar reputa\u00e7\u00f5es, e faziam insinua\u00e7\u00f5es sem nunca tocar no que nossas mat\u00e9rias diziam.<br \/>\nAo inv\u00e9s de desaparecer depois do Watergate, a t\u00e9cnica nixoniana de transformar a imprensa no assunto ganhou novos patamares de esperteza e cinismo durante a administra\u00e7\u00e3o Reagan, e floresce hoje. Da\u00ed a declara\u00e7\u00e3o de Reagan sobre os tristes eventos que devastaram sua presid\u00eancia no caso Ir\u00e3-Contras: &#8220;O que me faz subir as paredes \u00e9 que isso n\u00e3o era um problema at\u00e9 que a imprensa pegou uma dica naquele pasquim de Beirute e come\u00e7ou a encher a bola. A coisa toda acaba numa grande irresponsabilidade por parte da imprensa&#8221;.<\/p>\n<p>Agora, com George Bush [pai], temos outro presidente obcecado com vazamentos e sigilo, um presidente que n\u00e3o entendia por que a imprensa achava que era not\u00edcia revelar que seus homens armavam uma falsa apreens\u00e3o de drogas na Lafayette Square, do outro lado da rua da Casa Branca. &#8220;Do lado de quem voc\u00eas est\u00e3o?&#8221;, ele perguntou. Essa era uma quest\u00e3o legitimamente nixoniana. Esse desprezo pela imprensa, passado para centenas de funcion\u00e1rios p\u00fablicos que hoje t\u00eam mandatos, pode ser o mais importante e duradouro legado do governo Nixon.<\/p>\n<p>Em retrospecto, a extraordin\u00e1ria campanha de Nixon para minar a credibilidade da imprensa teve um sucesso memor\u00e1vel, apesar de toda a pose de nossa profiss\u00e3o depois do Watergate. Teve sucesso muito por causa de nossas pr\u00f3prias defici\u00eancias \u00f3bvias. O fato duro e simples \u00e9 que nossa reportagem n\u00e3o tem sido boa o suficiente. N\u00e3o era boa durante os anos Nixon, piorou nos anos Reagan e n\u00e3o est\u00e1 melhor agora. Somos arrogantes. Falhamos em abrir nossas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es na m\u00eddia ao mesmo tipo de escrut\u00ednio que exigimos de outras poderosas institui\u00e7\u00f5es da sociedade. N\u00e3o somos nem um pouco mais dispostos ou graciosos ao reconhecer erros ou maus julgamentos do que os canalhas do Congresso e criminosos burocr\u00e1ticos que passamos tanto tempo apurando.<\/p>\n<p>O maior crime do neg\u00f3cio da not\u00edcia hoje \u00e9 ficar para tr\u00e1s ou perder uma grande mat\u00e9ria. Ent\u00e3o, a velocidade e a quantidade substituem a perfei\u00e7\u00e3o e a qualidade, a exatid\u00e3o e o contexto. A press\u00e3o para competir, o medo de que algu\u00e9m v\u00e1 dar primeiro a not\u00edcia, cria um ambiente fren\u00e9tico onde uma nevasca de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 apresentada e quest\u00f5es s\u00e9rias n\u00e3o podem ser levantadas: e mesmo naquelas bem-aventuradas inst\u00e2ncias em que tais quest\u00f5es s\u00e3o feitas (como aconteceu depois de algumas das not\u00f3rias mat\u00e9rias sobre a fam\u00edlia Clinton), ningu\u00e9m passou meses trabalhando para verificar e respond\u00ea-las corretamente.<\/p>\n<p>Reportagem n\u00e3o \u00e9 estenografia. \u00c9 a melhor vers\u00e3o da verdade poss\u00edvel de se obter. As tend\u00eancias realmente significativas no jornalismo n\u00e3o t\u00eam ido em dire\u00e7\u00e3o a um compromisso com a melhor e mais complexa vers\u00e3o da verdade poss\u00edvel de se obter, n\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a construir um novo jornalismo baseado em reportagens s\u00e9rias e refletidas. Essas n\u00e3o s\u00e3o as prioridades que saltam para o leitor da maior parte de nossos jornais, nem o que o espectador recebe quando liga nos notici\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8220;Bem, foi mesmo a melhor transa que voc\u00ea j\u00e1 teve?&#8221; Essas foram as palavras de Diane Sawyer em uma entrevista com Marla Maples no Prime Time Live, da ABC News (onde &#8220;mais americanos conseguem suas not\u00edcias do que qualquer outra fonte&#8221;). Essas palavras marcaram uma nova baixa. Por mais de 15 anos temos fugido do jornalismo de verdade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma cultura fracote do infotenimento, em que as linhas entre Opra, Geraldo e Diane, entre o New York Post e a Newsday, muitas vezes n\u00e3o se distinguem. Nessa nova cultura de excita\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, ensinamos aos leitores e telespectadores que o trivial \u00e9 significativo, que o melodram\u00e1tico e bizarro s\u00e3o mais importantes que not\u00edcias de verdade. N\u00e3o servimos a nossos leitores e espectadores, n\u00f3s os alcovitamos. E condescendemos a eles, dando o que achamos que eles querem e o que calculamos que v\u00e1 vender e levantar nossa audi\u00eancia e quantidade de leitores. Muitos, tristemente, parecem justificar nossa condescend\u00eancia, e se entusiasmam com o lixo. Ainda assim, o papel dos jornalistas \u00e9 desafiar as pessoas, n\u00e3o apenas agrad\u00e1-las.<\/p>\n<p>Estamos no processo de criar o que merece ser chamado de cultura idiota. N\u00e3o uma subcultura idiota, que toda sociedade tem borbulhando sob a superf\u00edcie e que pode trazer divers\u00e3o in\u00f3cua; mas a pr\u00f3pria cultura. Pela primeira vez, o esquisito, o est\u00fapido e o grosseiro est\u00e3o se tornando nossa norma cultural, at\u00e9 mesmo nosso ideal cultural.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero aqui atacar a cultura popular. O bom jornalismo \u00e9 popular, mas \u00e9 cultura popular que amplia e informa seus consumidores em vez de apelar para o cada vez mais baixo menor denominador comum. Se, por &#8220;cultura popular&#8221;, queremos designar express\u00f5es de pensamento ou sentimento que n\u00e3o requerem trabalho daqueles que a consomem, ent\u00e3o o jornalismo popular decente j\u00e1 era. O que ocorre hoje, infelizmente, \u00e9 que a mais baixa forma de cultura popular &#8211; a falta de informa\u00e7\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o e um desprezo pela verdade ou pela realidade da vida da maior parte das pessoas &#8211; atropelou o jornalismo real. Hoje, os americanos normais est\u00e3o sendo entupidos de lixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fala aqui da Primeira Emenda ou da livre express\u00e3o. Num pa\u00eds livre, somos livres para o lixo, tamb\u00e9m. Mas o fato de que o lixo sempre v\u00e1 encontrar vaz\u00e3o n\u00e3o significa que devamos fornecer essa vaz\u00e3o. E os grandes conglomerados da informa\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds est\u00e3o agora no neg\u00f3cio do lixo. Todos conhecemos a pornografia quando a vemos, e ela tem direito de existir. Mas nem todos temos que ser editores porn\u00f4; e dificilmente haver\u00e1 alguma empresa de m\u00eddia nos EUA que n\u00e3o tenha mergulhado o ded\u00e3o do p\u00e9 no equivalente social e pol\u00edtico do neg\u00f3cio porn\u00f4 nos \u00faltimos 15 anos.<\/p>\n<p>Sim,\u00a0 sempre tivemos os tabl\u00f3ides, a imprensa popular, sensacionalista e amarela; e sempre tivemos colunas de fofocas. Mas nunca antes tivemos algo como a situa\u00e7\u00e3o atual, em que pessoas supostamente s\u00e9rias &#8211; ou seja, as assim chamadas elites sociais e culturais deste pa\u00eds &#8211; vivem e morrem por (e acreditam em) essas colunas e esses programas, e outros milh\u00f5es as t\u00eam como suas fontes prim\u00e1rias de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelos oito anos da presid\u00eancia Reagan, a imprensa n\u00e3o conseguiu compreender que Reagan era um l\u00edder de verdade &#8211; por mais que ele parecesse estar dormindo em servi\u00e7o, por mais que seu intelecto fosse raso. Nenhum l\u00edder desde Roosevelt mudou tanto a paisagem americana ou teve sua vis\u00e3o do pa\u00eds e do mundo t\u00e3o completamente implantada. Mas, nos anos Reagan, n\u00f3s da imprensa raramente sa\u00edmos de Washington para olhar a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edticas p\u00fablicas e legisla\u00e7\u00e3o e as decis\u00f5es judiciais para ver como as pol\u00edticas de seu governo estavam afetando o povo &#8211; as crian\u00e7as e adultos e as institui\u00e7\u00f5es dos EUA; na educa\u00e7\u00e3o, no local de trabalho, nos tribunais, na comunidade negra, no sal\u00e1rio da fam\u00edlia. Enquanto a gente ridicularizava a ret\u00f3rica do Reagan sobre o &#8220;imp\u00e9rio do mal&#8221;, deixamos de fazer a conex\u00e3o entre as pol\u00edticas de Reagan e a vontade de Gorbachev de afrouxar o v\u00edcio do comunismo.<\/p>\n<p>Agora estamos come\u00e7ando a saber o que houve. Perdemos, de fato, a maior parte das grandes mat\u00e9rias de nossa gera\u00e7\u00e3o, do Ir\u00e3-Contras \u00e0 debacle da poupan\u00e7a e dos empr\u00e9stimos.<\/p>\n<p>As falhas da imprensa contribu\u00edram imensamente para a emerg\u00eancia de um pa\u00eds do talk show, em que o discurso p\u00fablico \u00e9 reduzido a resmungos, ataques e poses. Agora temos uma grande imprensa cuja agenda noticiosa \u00e9 cada vez mais influenciada por esse mundo vazio. No dia em que Nelson Mandela retornou a Soweto e os aliados da Segunda Guerra Mundial concordaram com a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, as primeiras p\u00e1ginas de muitos jornais americanos &#8220;respons\u00e1veis&#8221; eram devotadas ao div\u00f3rcio de Donald e Ivana Trump.<\/p>\n<p>Agora, a apoteose dessa cultura do talk show est\u00e1 diante de n\u00f3s. Eu me refiro a Ross Perot, um candidato criado e sustentado pela TV, lan\u00e7ado no Larry King Live e cuja disponibilidade para vociferar e fazer pose est\u00e1 muito menos sintonizada com as obras da democracia liberal do que com os sumos palpiteiros dos programas de bate-papo na TV, um candidato cuja \u00fanica proposta substantiva \u00e9 substituir a democracia representativa por um talk show ao vivo na TV para o pa\u00eds inteiro. E esse candidato, que escapou de todo o escrut\u00ednio da m\u00eddia com declara\u00e7\u00f5es sem-vergonha de sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, ganha hoje dos candidatos dos dois partidos nas pesquisas em diversos estados.<\/p>\n<p>Hoje, a mat\u00e9ria mais interessante do mundo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o dos EUA. Nosso sistema pol\u00edtico est\u00e1 em uma crise profunda; estamos testemunhando a fal\u00eancia da civilidade e da comunidade que no passado permitiram que a democracia americana florescesse. O advento do pa\u00eds do talk show \u00e9 parte dessa fal\u00eancia.<\/p>\n<p>Muitas suposi\u00e7\u00f5es comuns na Am\u00e9rica &#8211; sobre ra\u00e7a, economia e o destino das cidades &#8211; precisam ser desafiadas, e devemos come\u00e7ar pela m\u00eddia. Porque, depois da ra\u00e7a, a hist\u00f3ria da m\u00eddia americana contempor\u00e2nea \u00e9 a grande mat\u00e9ria que n\u00e3o foi escrita nos EUA de hoje. Devemos come\u00e7ar perguntando \u00e0 imprensa as mesmas quest\u00f5es fundamentais que levantamos sobre outras institui\u00e7\u00f5es poderosas desta sociedade &#8211; sobre a quem ela serve, padr\u00f5es, auto-interesse e seu eclipse do interesse p\u00fablico e do interesse da verdade.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a m\u00eddia \u00e9 provavelmente a mais poderosa de nossas institui\u00e7\u00f5es hoje; e ela est\u00e1 esbanjando seu poder e ignorando sua obriga\u00e7\u00e3o. Ela &#8211; ou, mais precisamente, n\u00f3s &#8211; abdicou de sua responsabilidade, e a conseq\u00fc\u00eancia dessa abdica\u00e7\u00e3o \u00e9 o espet\u00e1culo e o triunfo da cultura idiota.<\/p>\n<p><strong>Carl Bernstein<\/strong> \u00e9 jornalista, parceiro de Bob Woodward na investiga\u00e7\u00e3o do esc\u00e2ndalo de Watergate, em 1972, para o di\u00e1rio The Washington Post<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Soares, comentarista pol\u00edtico da MTV, e que mant\u00e9m o interessante blog E voc\u00ea com isso?, deixou coment\u00e1rio, que reproduzo abaixo, na postagem &#8220;A paran\u00f3ia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[77,449,2406,2467],"class_list":["post-1918","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","tag-a-paranoia-sobre-a-midia","tag-carl-berstein","tag-valton-miranda","tag-watergate"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1918"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1918\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}