{"id":19194,"date":"2017-12-09T16:02:07","date_gmt":"2017-12-09T19:02:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19194"},"modified":"2017-12-09T16:02:07","modified_gmt":"2017-12-09T19:02:07","slug":"o-mito-do-livre-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2017\/12\/09\/o-mito-do-livre-mercado\/","title":{"rendered":"O mito do livre mercado"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 10\/12\/2017 do <strong>O POVO.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O mito do livre mercado<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPoucas ideias envenenam tanto a nossa mente como a de um livre mercado, que existe em algum lugar do universo e \u00e9 atrapalhado pelo governo. N\u00e3o existe livre mercado sem o governo ditando as regras do jogo (&#8230;) H\u00e1 esse mito que existe regulamenta\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 essas coisas. A quest\u00e3o \u00e9 o tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se o governo n\u00e3o ser\u00e1 envolvido, mas como vai se envolver.\u201d<\/p>\n<p>Os trechos que mais me chamaram a aten\u00e7\u00e3o no document\u00e1rio \u201cSalvando o capitalismo\u201d (Netflix) foram os reproduzidos acima. Eu tamb\u00e9m era prisioneiro do falso dilema regulamenta\u00e7\u00e3o X desregulamenta\u00e7\u00e3o. Ou seja, sendo a favor da \u201cregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d, eu me sentia em confronto com os que defendem a \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d da economia.<\/p>\n<p>As palavras de Robert B. Reich tornam as coisas mais transparentes. Ou seja, a falsa dicotomia entre \u201creguladores\u201d e \u201cdesreguladores\u201d &#8211; a disputa se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de \u201cregulagem\u201d que ser\u00e1 aplicado ao motor da economia. Ok, pode ser uma banalidade, por\u00e9m o \u00f3bvio por vezes escapa ao cidad\u00e3o comum, devido ao discurso, repetidos \u00e0 n\u00e1usea, inclusive pela imprensa, sobre a necessidade de retirar o governo do caminho para \u201cdestravar\u201d a economia.<\/p>\n<p>E, aten\u00e7\u00e3o, Reich n\u00e3o \u00e9 nenhum perigoso \u201ccomunista\u201d, \u00e9 o tipo de homem que classifica Bernie Sanders (o candidato de tinturas \u201csocialistas\u201d nas recentes elei\u00e7\u00f5es americanas) e Donald Trump como as duas faces do populismo. Ele \u00e9 professor de Pol\u00edticas P\u00fablicas na Universidade de Berkeley, foi secret\u00e1rio do Trabalho no governo de Bill Clinton e \u00e9 autor do livro que inspirou o document\u00e1rio, com o mesmo t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Reich parece um sujeito bem-humorado: conta como apresentou Clinton a Hillary; foi amigo do casal e militaram juntos no movimento estudantil. Afirma haver dois tipos de rea\u00e7\u00e3o ao seu livro. \u201cO que est\u00e1 errado com o capitalismo?\u201d, perguntam alguns; outros o questionam: \u201cPara que salvar o capitalismo?\u201d &#8211; e ri da pr\u00f3pria piada. Conclui o filme fazendo uma dancinha engra\u00e7ada para mostrar a import\u00e2ncia da leveza na vida, mesmo lidando com assuntos \u00e1speros, como economia e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Um caso exemplar aconteceu com ele, na d\u00e9cada de 1970, quando estava na Comiss\u00e3o Federal de Com\u00e9rcio do governo e resolveu criar \u201cr\u00edgidas restri\u00e7\u00f5es\u201d \u00e0 propaganda dirigida \u00e0s crian\u00e7as. Diz ele que as empresas de produtos a\u00e7ucarados e de brinquedos ficaram \u201cenfurecidas\u201d e gastaram \u201cmilh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d em campanha contra as restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de derrubarem a nova lei, as ind\u00fastrias conseguiram tamb\u00e9m fechar a comiss\u00e3o. \u201cO que descobri \u00e9 que as grandes empresas, Wall Street e os mais ricos podiam mudar as leis e regulamenta\u00e7\u00f5es para se favorecerem e prejudicarem os outros\u201d. (Atualmente a obesidade \u00e9 uma epidemia nos Estados Unidos.)<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990 &#8211; como se pode ver grava\u00e7\u00f5es de antigos discursos -, ele vem alertando sobre o sentimento de \u201craiva e frustra\u00e7\u00e3o\u201d da classe trabalhadora americana. \u201cNingu\u00e9m os est\u00e1 ouvindo\u201d. (Desaguou em Donald Trump.) Reich atribui esse rancor a uma classe pol\u00edtica insens\u00edvel &#8211; que despreza as necessidades da maioria da popula\u00e7\u00e3o -, e \u00e0 influ\u00eancia cada vez maior do empresariado e do sistema financeiro nas pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cMuita gente v\u00ea que o sistema \u00e9 manipulado, mas n\u00e3o sabe exatamente como\u201d.<\/p>\n<p>(Qualquer semelhan\u00e7a com o Brasil n\u00e3o ter\u00e1 sido mera coincid\u00eancia.)<\/p>\n<p>Para Reich, \u201ca grande quest\u00e3o \u00e9 se o sistema vai beneficiar a maioria ou um grupo muito pequeno, que est\u00e1 no topo da pir\u00e2mide\u201d &#8211; e isso pode definir o futuro do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>EM FAVOR DAS PETROLEIRAS<\/strong><br \/>\nUm exemplo de regulamenta\u00e7\u00e3o que favorece os grandes complexos industriais: Robert Reich diz que, juntas, as cinco maiores petroleiras americanas recebem US$ 4 bilh\u00f5es ao ano de isen\u00e7\u00f5es do governo, tendo elas uma receita l\u00edquida de 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p><strong>PR\u00c9-SAL<\/strong><br \/>\nComo em benesses para os poderosos, o Brasil n\u00e3o pode ficar atr\u00e1s dos Estados Unidos, medida provis\u00f3ria do governo temer vai dispensar R$ 1 trilh\u00e3o em impostos das petroleiras do pr\u00e9-sal, em 25 anos; R$ 40 bilh\u00f5es por ano. Ou seja uma regula\u00e7\u00e3o tirando dinheiro da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o para entreg\u00e1-lo a quem est\u00e1 \u201cno topo\u201d.<\/p>\n<p><strong>CR\u00c9DITO<\/strong><br \/>\n\u201cSalvando o capitalismo\u201d, document\u00e1rio produzido pela Netflix. Apresentado por Robert Reich. Dire\u00e7\u00e3o Jacob Kornbluth.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 10\/12\/2017 do O POVO. O mito do livre mercado \u201cPoucas ideias envenenam tanto a nossa mente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1517],"class_list":["post-19194","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo-o-povo","tag-menu-politico"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19194\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}