{"id":19286,"date":"2018-01-14T00:03:56","date_gmt":"2018-01-14T02:03:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19286"},"modified":"2018-01-09T12:58:13","modified_gmt":"2018-01-09T14:58:13","slug":"o-neoliberalismo-inventou-pos-verdade-diz-sociologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2018\/01\/14\/o-neoliberalismo-inventou-pos-verdade-diz-sociologo\/","title":{"rendered":"O neoliberalismo inventou a p\u00f3s-verdade, diz soci\u00f3logo"},"content":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/1\/2018 do <strong>O POVO<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>O neoliberalismo inventou a p\u00f3s-verdade<\/strong><\/p>\n<p>A impress\u00e3o generalizada \u00e9 que a \u201cp\u00f3s-verdade\u201d tenha nascido em 2016 com o Brexit (campanha pela sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia) e com a ascens\u00e3o de Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos. Um ensaio de Wolfgang Streeck, publicado na revista piau\u00ed, desmonta essa ideia e argumenta que essa onda surgiu com o neoliberalismo e a globaliza\u00e7\u00e3o. Streeck \u00e9 um soci\u00f3logo alem\u00e3o e diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades. Seu texto tem o t\u00edtulo de \u201cO retorno do recalcado &#8211; O come\u00e7o do fim do capitalismo neoliberal\u201d.<\/p>\n<p>O trecho sobre os \u201cfatos alternativas\u201d \u00e9 apenas um dos aspectos abordados por Streeck no artigo, no qual ele mostra que as principais promessas do neoliberalismo &#8211; todo mundo sairia ganhando: pessoas, empresas e pa\u00edses &#8211; foram caindo uma a uma, com a conta da esb\u00f3rnia sobrando para os mais pobres. Ou seja, segundo o soci\u00f3logo, o neoliberalismo foi constru\u00eddo sobre v\u00e1rias camadas de mentiras. Ent\u00e3o, os perdedores de sempre revoltaram-se contra essa pol\u00edtica, passando a eleger pessoas que se apresentavam como de \u201cfora do sistema\u201d. De algum modo, o texto dialoga com o document\u00e1rio \u201cSalvando o capitalismo\u201d, de Robert B. Reich, cuja resenha publiquei anteriormente nesta coluna.<\/p>\n<p>Essa ideologia, continua Streeck, prosperou pela generaliza\u00e7\u00e3o do \u201cpensamento \u00fanico\u201d ou como diz Streeck, sob o signo da deusa \u201cTina\u201d (\u201cThere is no alternative\u201d ou n\u00e3o h\u00e1 alternativa). A deusa Tina exigia submiss\u00e3o total aos seus des\u00edgnios, como se fossem leis da natureza. Era preciso dar liberdade ao capital, abrir mercados e livr\u00e1-los de qualquer controle estatal; os benef\u00edcios do estado de bem-estar social tinham de ser exterminados para ser criada uma \u201cnova era de racionaliza\u00e7\u00e3o capitalista\u201d.<\/p>\n<p>Para Streeck, isso resultou em um processo de \u201cregress\u00e3o constitucional\u201d: involu\u00e7\u00e3o dos partidos, desinteresse popular cada vez maior pela pol\u00edtica, \u201cderretimento da organiza\u00e7\u00e3o sindical\u201d e retraimento de todos os mecanismos de distribui\u00e7\u00e3o de renda, que vigoravam nas democracia europeias do p\u00f3s-guerra. Como \u201cnem de longe\u201d o liberalismo foi capaz de cumprir a promessa de bem-estar para todos, seus ide\u00f3logos inauguraram a era da p\u00f3s-verdade na pol\u00edtica, criando uma narrativa para justificar seus erros, escancarados na realidade de que essa pol\u00edtica beneficiou apenas o 1% mais rico.<\/p>\n<p>Quando as \u201cpessoas comuns\u201d se viram \u201cesmagadas pela for\u00e7a da economia global, de um lado, e pelos efeitos das pol\u00edticas de austeridade nacionais, em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o e treinamento, de outro\u201d, passaram a se bandear para pol\u00edticos como Trump e votar a favor do Brexit, os liberais perceberam o tamanho da encrenca em que haviam se metido e passaram exigir a &#8220;checagem dos fatos&#8221;, escreve Streeck.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo alem\u00e3o escreve sobre a Europa, no entanto, parece estar fazendo um alerta para o Brasil. Se, de algum modo, as pol\u00edticas mais duras do neoliberalismo estavam contidas no Pa\u00eds, o governo de Michel Temer tenta imp\u00f4-las a poder de marteladas. A revogada portaria do trabalho escravo &#8211; uma indignidade da qual Temer recuou na marra -; a \u201creforma trabalhista\u201d, que castrou direitos e imp\u00f4s a \u201cjornada m\u00f3vel\u201d; o reajuste p\u00edfio do sal\u00e1rio m\u00ednimo; a reforma da Previd\u00eancia; os ataques ao Bolsa Fam\u00edlia e outras tantas exig\u00eancias da \u201cdeusa Tina\u201d ainda encontram \u201csacerdotes\u201d no Brasil dispostos a ajoelhar-se aos seus p\u00e9s.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>RICOS E POBRES<\/strong><br \/>\nPesquisa da Oxfam mostra que o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00e9m renda equivalente aos 99% restantes. As 62 pessoas mais ricas do mundo acumulam recursos igual aos 50% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p><strong>NO BRASIL<\/strong><br \/>\nSegundo levantamento do IBGE (2016), 10% da popula\u00e7\u00e3o brasileira fica com 43,4% da massa de rendimentos recebida; sendo que 90% ficam com 56,6%. O 1% de maior rendimento embolsa, em m\u00e9dia, R$ 27.085; enquanto a metade de menor renda recebe R$ 747.<\/p>\n<p><strong>CR\u00c9DITO<\/strong><br \/>\nArtigo completo de Wolfgang Streeck na <a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-retorno-do-recalcado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>piau\u00ed<\/strong><\/a>; resenha do filme \u201cSalvando o capitalismo\u201d, com o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2017\/12\/09\/o-mito-do-livre-mercado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O mito do livre mercado<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Menu Pol\u00edtico&#8221;, caderno &#8220;People&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 14\/1\/2018 do O POVO. 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